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Por: Paulo Vitor

É muito comum classificar as pessoas de acordo com seus traços mais marcantes de personalidade, sejam amigos, pessoas próximas e, claro, aqueles que não nos são muito agradáveis. Assim dizemos: lá vem o tagarela; olha a escandalosa chegando; esse é meu amigo intelectual; aquela menina é muito talentosa...

A respeito dessas classificações, existe uma em especial que, embora eu não tenha ouvido nos últimos tempos, confesso já ter usado, inclusive em relação a mim mesmo. A pessoa destemperada, aquela que perde o senso da realidade, seja no falar, seja no agir. Exagerada, tanto para aumentar, quanto para diminuir, alguém que não consegue achar uma boa medida para as coisas.

Antes de entrar a fundo no tema central do texto, gostaria ainda de usar uma alegoria que me agrada bastante. Sou filho e neto de mulheres que cozinham divinamente, aqueles que já comeram em minha casa podem confirmar. É interessante notar que, na grande maioria das vezes, a comida feita lá em casa não tem nada de sofisticado, nenhum prato exótico. Nosso cardápio é marcado pela simplicidade, regado pela boa e velha mistura de arroz com feijão, e o que é mais interessante, e saboroso também, é o tempero,  aquele gostinho inconfundível da comida da mãe, da vó. Esse tempero faz toda diferença, pois sem ele a comida se torna sem graça, sem cor, incapaz de ser saboreada.

Essas alusões acima são justamente para nos fazer pensar em temperança, palavra não muito usada no nosso vocabulário cotidiano, uma das virtudes cardeais, que eu gosto de dizer que é “A” virtude por excelência, pois  trata de aspectos que estão no conceito básico de uma vida equilibrada como vamos ver mais adiante.

Acredito que os homens verdadeiramente bons, passam a vida toda buscando a boa medida das coisas. Não ser demais, nem de menos, ser aquilo que devem ser. É essa busca pelo que se deve ser que nos ajuda a entender a virtude da Temperança, o tempero que dá a medida certa do sabor, que nos leva a estar no lugar que é nosso, sem forçar a barra, com equilíbrio e verdade.

Em tempos em que as paixões explodem num dia e no outro já não existem mais, onde declarações são feitas com palavras de eternidade e na semana seguinte viram “poeira”, tempos em que o exagero ganha força, desde que não dure o suficiente para ser levado realmente a sério, a temperança aparece como um desafio, quase que uma utopia, pois buscá-la significa nadar contra a corrente do exagero e tudo que vêm junto dele.

Aristóteles dizia que a virtude está no meio, ou seja, no ponto certo das coisas,  das relações, de tudo que toca a vida humana. Isso quer dizer que o destempero, por vezes travestido com outros nomes, não satisfaz o coração do homem. E nós, o que devemos fazer diante dessa constatação? Não tenho a pretensão de dizer como cada uma deve agir, mas acredito que alguns caminhos podem gerar possibilidades de sucesso. Olhar para dentro de nós mesmos e fazer momentos de autocritica são uma ótima forma de buscar o equilíbrio. Aquele que se conhece, entende, aceita e busca alternativa para os próprios limites, dificilmente vai ser enganado pela cultura do exagero. Estar aberto e atento à realidade e às pessoas ao redor também contribui para o alcance da medida certa. Quem não consegue enxergar o outro, o mundo, não pode enxergar a linha, por vezes muito tênue, que separa a temperança do destempero.

Por fim, é interessante ressaltar que, a vida humana é cheia de altos e baixos, de facilidades e percalços, de muitos paradoxos. Diante disso, nós, como protagonistas de nossas vidas, temos o direito e o dever de tomarmos as rédeas do nosso caminho, não sendo levados pelo sabor das circunstâncias. Nós damos o limite, nós devemos dar a última palavra, e tudo isso nos desafia a caminhar pelo caminho do meio.

Paulo Vitor Simas
Professor de Ensino Religioso / Oficina de Valores

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