Por: Moco

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- “Num suporto gente que se acha!”
- “Que nada! não sei fazer isso não...”

Quem já disse essas frases ou mesmo ouviu dizer, querendo ou não, já pensou sobre a humildade. Seja na oração dos cristãos: “Jesus manso e humilde de coração fazei o nosso coração semelhante ao vosso”, seja no jargão dos criminosos: “Humildade e disciplina, não vale formar caô... tem que ter o braço forte e o coração vermelho”, parece ser a humildade um valor almejado pelos mais distintos grupos. Gente humilde é admirada e, consequentemente, a falta dela se torna repugnante. Aí eu pergunto ao leitor atento, das duas frases utilizadas no início do texto, qual se refere a uma pessoa humilde?

A resposta é aberta, pode ser uma, ou nenhuma das duas. A primeira obviamente se refere a alguém que não adquiriu essa virtude. A segunda precisa ser analisada dentro de um contexto, pode ser um sinal de humildade, pode ser simplesmente uma falsa modéstia, que no fundo aponta para uma soberba. Em outras palavras, a pessoa a que se refere a segunda frase pode ser tão esnobe quanto a da primeira.

Quando disse que a primeira frase diz respeito a alguém que não adquiriu a virtude, parti do pressuposto de que a virtude é antes de tudo uma educação, um processo educacional. Grosso modo, definiria virtude como "a educação para a prática do bem". Sendo assim, a humildade seria algo adquirido a partir de um esforço para alcançar um determinado objetivo. Qual é o objetivo da humildade?

Ao que parece à primeira vista, humildade seria uma negação das próprias qualidades. Nesse sentido, a segunda frase que precede o texto estaria correta independente do contexto. Suponhamos que eu seja um exímio cantor (de fato não sou, frase meramente ilustrativa), alguém que me ouça cantar se aproxima e rasga elogios a mim, pela minha capacidade vocal. Respondo dizendo: “Ah, que isso?! Eu nem sei cantar direito...” De maneira alguma manifestaria humildade, seria ao contrário uma bobeira da minha parte, e como disse antes poderia até apontar para uma soberba, que no fundo quer ouvir as justificativas de quem me elogia e assim ser ainda mais elogiado, quero ter o ego acariciado. Agora, se de fato não canto bem (como é o meu caso) e dou a mesma resposta, aí sim estarei exercitando a humildade.

Uma das mais belas definições que ouvi a respeito do tema diz que a humildade é a verdade. Simples e objetiva, nada mais, nada menos que isso. Uma pessoa humilde é uma pessoa verdadeira. Capaz de se identificar e se reconhecer, nos seus defeitos e qualidades, possibilidades e limitações. Sem o medo do peso de cada uma dessas palavras. Geralmente as pessoas têm uma tremenda dificuldade em apontar os próprios defeitos, seja por não enxerga-los, seja por receio de se expor. Falar em limitações hoje parece um crime, mas elas de fato existem! Ninguém é capaz de tudo, e essa é a grande beleza da vida e da dinâmica dos nossos relacionamentos: nos completamos. Ninguém é incapaz de contribuir com alguma coisa, bem como ninguém é capaz de oferecer tudo. A virtude que nos ajuda a perceber isso com maior clareza é a humildade.

É claro que nem todo mundo que usa o termo humildade sabe o que significa, é o caso, por exemplo, do jargão da criminalidade carioca que citei no primeiro parágrafo. Contudo, embora não entenda o significado, deseja a sua finalidade. A humildade além de me abrir a mim, permite que eu me abra ao outro, me faz ser mais confiável. O humilde não falta com a verdade, nem é ingrato. Claro que as duas consequências que apontei aqui referem-se a outras virtudes, mas é imprescindível ao pensar a humildade constatar que ela faz de mim uma pessoa melhor em todos os aspectos. 

Qual é o maior rival da humildade? Eu e você. Essa é a resposta, centramo-nos tanto em nós mesmos que não conseguimos sair da nossa zona de conforto. Somos o popularmente chamado "8 ou 80". Ou só vemos qualidades em nós e defeitos nos outros, ou só vemos defeitos em nós e qualidades nos outros, ou mesmo só defeito em tudo… e a vida não presta! - Admito que esse seja um mal que assola a contemporaneidade. Ou só qualidade em tudo e defeito em nada, que configura certa inocência que não é saudável. Alguns elementos nos impedem de sermos humildes, o egoísmo, a soberba, enfim uma série de impulsos do nosso interior, que nos fazem voltar o olhar para o nosso próprio umbigo, afastando-nos assim, da realidade e consequentemente da verdade.

A solução? Acredito muito na ferramenta da comunicação. Olhar para o outro, abrir-me ao outro, permite que eu me enxergue de uma forma mais integral. Talvez seja tão difícil sabermos a verdade sobre nós, porque vivemos uma vida de ilusão. Como já dizia aquele clássico da nossa música brasileira: “Quem espera que a vida seja feita de ilusão, pode até ficar maluco ou morrer na solidão”. A humildade requer simplicidade, olhar no olho, olhar para dentro e, acima de tudo, não ter medo de se deparar com a verdade, porque ela nem sempre agrada, mas sempre liberta!



Rodrigo Moco
Psicólogo / Coordenador da Oficina de Valores

1 comentários:

Anônimo disse...

Teresa de Ávila diz que a verdade é a humildade. João diz que Jesus é a verdade que liberta. Paulão de Tarso diz que a Igreja é a coluna e sustentáculo da verdade. Poncio Pilatos rebateu Jesus Cristo questionando o que é a verdade, mas evadiu-se do lugar e achou melhor ir ter-se com a turba revolta a ouvir o que é a verdade. O Catecismo, o clássico da Igreja Católica, diz que a verdade é a sabedoria de Deus que comanda toda a ordem da criação e de quebra o governo do mundo. A coisa é chiquérrima, infinita...:)

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