15:16
0
Por: Joyce



Existe um detalhe da gramática que cai sempre em concursos, e não duvidaria se uma porcentagem grande e decepcionante de colegas de trabalho meus confessassem não sabê-la. Não que eu seja a fera das regrinhas, mas tem um jeito bastante simples de explicar conjunções para o efeito do texto de hoje.

Conjunções são palavras que unem ideias. Por exemplo: “Não tenho emprego, entretanto, tenho bastante dinheiro” ou “José foi a um churrasco hoje, apesar de estar bastante doente”. Essas frases soam normais a nossos ouvidos, certo? Mas e se ao invés dessa configuração, colocássemos assim: “Não tenho emprego, então tenho muito dinheiro” e “José foi a um churrasco hoje porque está muito doente”. Não cabe bem, não é mesmo? Por que isso acontece?

Ainda que não saibamos explicar pela regrinha do livro de gramática, nosso cérebro sabe muito bem que não é comum termos muito dinheiro estando desempregados nem que ir a um churrasco não é efeito normal de se estar muito doente; essas ideias estão expressas pelas palavras “então” e “porque”. Por isso não dizemos “Vou à praia porque está chovendo” a não ser que a gente tenha ideias muito diferentes do que fazer na areia.

Saber regras de gramática e saber português são coisas muito, mas muito diferentes. Muito antes de aprender a ler, ou quem nunca o aprendeu, sabe tudo isso que foi exposto acima. Isso se chama gramática interna e é um conhecimento que vem do uso da língua, ou seja, quem conversa e convive com a língua sabe usar isso com muita competência.

O que assusta nisso? O que isso tem a ver com preconceito? Quando a gente lê que “ela é negra, mas é muito bonita e inteligente”, que foi uma das coisas que li quando aconteceu aquele fato hediondo com a jornalista Maju, da Globo. Enquanto algumas pessoas escrachavam seu racismo de modos que nem vale a pena copiar aqui, algumas – até que acredito serem bem intencionadas – respondiam com esses e outros “mas”. O que acontece, gente, é que o mas é uma conjunção adversativa, que sempre vai estar entre duas ideias contrárias, tipo “ela é bonita,  mas é mentirosa”. Quando você relaciona ser negra MAS ser bonita, seu cérebro, mesmo que não saiba o que é uma adversativa (e não precisa saber o nome pra ser competente em usar!), está externando que, no fundo, você está colocando duas características opostas, ou seja, acaba ficando parecendo que ser negra é a característica negativa do negócio.

Uma das coisas que a gente mais escuta no assunto preconceito é esse tal desse “mas”. “Eu não tenho preconceito, mas...”. Amigo: colocou o “mas” lá vem uma ideia contrária. Ou seja, tem que rever. Nosso discurso revela sobre nós muito mais do que imaginamos: alguém que só usa palavras difíceis pra se mostrar, ou gírias pra mostrar a personalidade... Nossas palavras são um meio muito forte de comunicação e interação com os outros e com o mundo.

Dessa maneira, elas podem mostrar algo de que às vezes nós mesmos não havíamos nos dado conta... Ao mesmo tempo em que ferem muito. Devemos lembrar que a mensagem era (e é) amar ao próximo como a ti mesmo – sendo que Jesus nunca disse: “ame o próximo, mas só se ele encaixar nos padrões estereotipados”. É fundamental perceber o que vem por trás do “ela é mulher, mas dirige bem” ou do “ele é negro, mas é bom caráter” e que isso é falta de caridade, que é um tipo de amor. Amar a todos. Sem restrições nem limites. Não havia “mas” nenhum no amor de Jesus. Vamos imitar o exemplo de amor mais perfeito de todos?



Joyce Scoralick
Mestre em Literatura

0 comentários:

Postar um comentário