Por: Rhangel
Imagem do filme "Short therm 12", tirada do site www.farofaculturalribeirao.com.br

O melhor amigo é aquele com que não se pode contar

Eu sei, eu sei... já se passou o dia do amigo, segundo o nosso calendário. Mas, venho hoje elucidar aquilo que considero que seja um amigo; questionar-me não só o peso ou as alegrias, mas também o que acredito que defina esse laço. Venho pensando, assim como imagino que a maioria das pessoas faça, em tudo o que eu sou, o que represento na vida das pessoas e o que elas representam na minha vida para entender o porquê denomino a alguns: amigos! Tento buscar, ainda, o que é nesses meus poucos anos de vida mais íntima com Deus, essa amizade com Ele e como explicar essa amizade dele por nós. Será que a gente sabe julgar o que é um amigo, sabe compreender a proporção dos infinitos que declaramos aos mais próximos com essa denominação, ou melhor, será que os entendemos, para enfim, chamá-los amigos?

Voltando alguns anos no tempo, na época do falecido Orkut, existiam os depoimentos: uma forma de se declarar publicamente a um amigo ou a uma pessoa pela qual tivéssemos carinho. Não me atenho ao ato de publicar, nem sequer à veracidade ou não com que muitos de nós fazíamos isso, porém desejo me prender a uma frase bem famosa, hoje usada quase com ridicularização, mas de certa forma unânime no conceito de definir a amizade, a frase clichê: amigo, conta sempre!

No último dia 20 de julho, recebi muitas mensagens, graças a Deus, que me diziam a importância que tenho na vida dos meus amigos e do que eles representavam também na minha história. Mas, olhando, principalmente, para os companheiros de longa data, de muita convivência e de mais intimidade, me questionei sobre o "contar sempre". Isso porque percebi que esses mais próximos são aqueles com os quais que eu, claro, já passei por muitas alegrias, muitas conquistas, muitas experiências de superação muito bacanas, mas são eles também aqueles de quem conheço o lado mais complexo, mais dolorido e, muitas vezes, o lado mais bruto e cruel. Dessa mesma forma, são esses os que me conhecem em todos os meus defeitos, falhas, ou seja, limitações, que fazem parte de quem eu sou também.

Nesse sentido, comecei a me analisar, a me questionar se tenho amigos, porque eles acreditam que podem contar sempre comigo. Comecei a pensar também no namoro, na amizade dentro dele, naquilo que existe de conhecer o outro. Sendo mais específico, pensei em duas amizades, em especial, que tenho a 8 e 4 anos e que, curiosamente, em raras, se não inexistentes, vezes brigamos e cheguei a uma conclusão. Essa conclusão no começo doeu, foi daquele tipo que incomoda o nosso orgulho. Cheguei a conclusão de que nem eu, nem os meus irmãos, possivelmente, podemos contar sempre uns com os outros.

Como assim? Como eles, possivelmente, não contam comigo? São eles que sabem meus segredos, meus sonhos... essas pessoas me conhecem! E está aí a grande mágica: os meus amigos me conhecem: em potencialidades e em limitações. E, por esse motivo, entendo como a forma mais inteira de se buscar uma amizade de verdade com qualquer pessoa a consciência de que talvez não se possa contar sempre. Acredito que isso é que na verdade firma os grandes amigos! É saber que o outro é impulsivo ou lento, é autoritário ou passivo demais, é dramático ou carente. Nós somos muito mais misericordiosos com os nossos, porque entendemos as suas circunstâncias, olhamos o todo e sabemos o motivo de agirem de forma rude, até contra nós mesmos, e por isso perdoamos. E de forma alguma desejo atribuir a esse tipo de data, como o dia do amigo, um caráter desacreditado ou passivo em relação às nossas limitações, como se parássemos nelas, mas procuro, de forma bem rasa, expor que amizade é acolher o outro por inteiro, ainda que seja necessário corrigi-lo, porém sem nunca abandona-lo.

E para ir além, questiono: e se Deus esperasse poder sempre contar conosco para que fosse nosso amigo? Ele olha o pecador e não o pecado, Ele nos conhece e nos ama. Com Deus, diferentemente de nós muitas vezes, pode-se contar. É nesse reconhecimento da nossa miséria onde o Amor, no caso em questão a amizade, é experimentado de forma mais intensa. Isso, não porque Deus conta sempre com os nossos passos corretos para determinar Sua amizade por nós, mas porque, em sua infinita misericórdia, nos perdoa e se aproxima mesmo com as nossas potencialidades e limitações, a fim de proporcionar ao ser humano a mais incrível experiência que é o encontro com Ele, o encontro com o Amor. Sou grato a todos os meus amigos pela sua consciência das minhas falhas, limitações e misérias (obrigado por suportarem e perdoarem todos os meus erros). Acima disso, penso que na vida cristã essa amizade deva ser difundida por todos e, por isso, acredito que seja importante lutarmos para que possamos olhar as pessoas da forma completa como Deus olha, ainda que não saibamos tudo sobre elas, mas que minimamente observando a nós mesmo, saibamos que, devido a uma série de circunstâncias, ser amigo é compreender que, possivelmente, não se pode sempre contar.

Rhangel Carvalho
Estudante de Comunicação - UFRJ

1 comentários:

Valmir Machado disse...

Meu pequeno e grande amigo,parabéns pelo belo texto.Realmente ser amigo é tudo isso que vc falou mesmo.Parabéns!

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