Por: Heloísa



Segundo a física, resiliência “é a propriedade que alguns corpos apresentam de retornar a forma original após terem sido submetidos a uma deformação”. Segundo minha experiência, é a capacidade de se recobrar ou se adaptar às mudanças, ultrapassar limites, tirando de dentro de si força para superar dificuldades.

Trabalhando com Pediatria, na maior parte do tempo tenho a graça de poder presenciar o que considero o melhor momento da vida das pessoas, a chegada de um filho. E como me emociono tantas vezes a com o nascimento de bebês plantões a fora! Vale a pena ser chamada no meio da madrugada quando posso presenciar a emoção que é receber esse presente de Deus.



Mas dentro da profissão, também presencio algumas vezes exatamente o extremo oposto: a dor e o sofrimento. E é diante desses momentos que vejo surgirem muitos mini-heróis e guerreirinhos, como gostamos de chama-los. E foi assim que conheci esse termo: resiliência. Capacidade do ser humano de superar, se moldar a determinada situação, sem sucumbir, mas saindo mais forte ainda.

Esse ano conheci Maria Luiza, uma menina linda no auge dos seus 7 anos, de longos cabelos cacheados e sorriso encantador. Meiga toda vida! Uma massa abdominal que logo confirmamos ser um câncer renal, bastante agressivo, de crescimento rápido, foi o motivo do nosso encontro. Em questão de dias, a vida dela, que se resumia em aproveitar sua família, ajudar com a irmãzinha mais nova, e fazer pulseiras para vender a 2 reais (pulseiras lindas, diga-se de passagem!), mudou radicalmente. Exames e mais exames, até a cirurgia pra retirada do tumor. E dali duas semanas, a gatinha estava começando as sessões de quimio e radioterapia intensas.

Quem ler esse relato pode inicialmente se entristecer e questionar o porquê disso, questionar a Deus como Ele pôde deixar isso acontecer a uma criança. Confesso que foi minha primeira reação também... Mas hoje, vendo as fotos da Maria, agora infelizmente sem seus longos cachos, trocados pelo lenço trançado imitando o cabelo da princesa de Frozen, mas com aquele mesmo sorriso largo e encantador, posso entender perfeitamente do que se trata resiliência. É essa capacidade de, mesmo sem compreender o sentido ou porquê da situação difícil que se coloca a frente, seguir em frente, ultrapassando o limite do humano, seguro pela mão de Deus.

Sabe-se que fatores contextuais ajudam e facilitam o processo de superação dessas duras experiências de vida, são características pessoais e relacionais que ajudam nestes processos e que fortalecem extraordinariamente as pessoas. 

Pensando em resiliência, lembro de um texto de Rubem Alves entitulado “Ostra feliz não faz pérola” que diz assim:

“Ostras são moluscos, animais sem esqueleto, macias, que representam as delícias dos gastrônomos. Sem defesas, seriam uma presa fácil dos predadores. Para que isso não acontecesse, a sua sabedoria as ensinou a fazer casas, conchas duras, dentro das quais vivem. Pois havia num fundo de mar uma colônia de ostras. Eram ostras felizes. Sabia-se que eram ostras felizes porque de dentro de suas conchas saía uma delicada melodia, música aquática, como se fosse um canto gregoriano, todas cantando a mesma música. Com uma exceção: de uma ostra solitária que fazia um solo solitário. Diferente da alegre música aquática, ela cantava um canto muito triste. As ostras felizes se riam dela e diziam: “Ela não sai da sua depressão...”. 

Não era depressão. Era dor. Pois um grão de areia havia entrado em sua carne e doía, doía, doía. E ela não tinha jeito de se livrar do grão de areia. Mas era possível livrar-se da dor. O seu corpo sabia que, para se livrar da dor que o grão de areia lhe provocava, em virtude de sua aspereza, arestas e pontas, bastava envolvê-lo com uma substância lisa, brilhante e redonda. Assim, enquanto cantava seu canto triste, o seu corpo fazia o trabalho.

Um dia, passou por ali um pescador com o seu barco. Lançou a rede e toda a colônia de ostras, inclusive a sofredora, foi pescada. O pescador se alegrou, levou-as para casa e sua mulher fez uma deliciosa sopa de ostras. Deliciando-se com as ostras, de repente seus dentes bateram num objeto duro que estava dentro de uma ostra. Ele o tomou nos dedos e sorriu de felicidade: era uma pérola, uma linda pérola. 

Apenas a ostra sofredora fi zera uma pérola. Isso é verdade para as ostras. E é verdade também para os seres humanos. Quando não nos entregamos ao pessimismo, somos capazes de transformar a tragédia em beleza. A beleza não elimina a tragédia, mas a torna suportável. São os que sofrem que produzem a beleza, para parar de sofrer. Esses são os artistas, como Beethoven – como é possível que um homem completamente surdo, no fim da vida, tenha produzido uma obra que canta a alegria?”.

E Maria Luiza – como é possível que essa menina ainda sorria diante das suas lutas? É possível porque a pequena e seus familiares colocam em prática o que é a resiliência na teoria: não se subjugam pela dor, mas juntos buscam forças pra superar. Daí a importância da presença de alguém especial na nossa vida, a quem nos ligamos e com quem estabelecemos um vínculo que nos estruture. E quem melhor que Deus?

Que a Maria Luiza e todos nós, cada um com seus grãos de areia, possamos produzir nossas pérolas.


Heloisa Woll -  Médica

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