Por: Alessandro
Imagem: divulgação


Quarteto Fantástico – Resenha Existencial

Costumo dizer que ninguém é a sua fama. As pessoas são melhores ou piores do que aquilo que falam delas. Nunca são exatamente iguais aos discursos que buscam descrevê-las.  Não sei se a mesma sentença pode ser aplicada a filmes e livros, mas creio que, guardadas as devidas proporções, a relação entre a crítica e a obra criticada pode ser pensada a partir do mesmo princípio.

Como os leitores do blog, provavelmente, já sabem, sou fã de histórias em quadrinhos. Mais especificamente ainda, gosto demais de quadrinhos de super-heróis. Nesse contexto, costumo acompanhar as produções cinematográficas que adaptam personagens de “hqs” com certo interesse. Não dedico a tais produções a mesma atenção que tenho para com os quadrinhos, mas fico empolgado e tenho uma boa diversão com vários dos blockbusters da Marvel e da DC. Deixo claro que não julgo tais filmes obras primas do cinema, mas admito que acho muita coisa legal neles.

O mais recente desses filmes foi “O Quarteto Fantástico”, grupo da Marvel cujos direitos para o cinema estão com a Fox. Assisti ao filme pouco mais de uma semana depois de sua estreia e sempre que comentava com algum amigo que desejava assistir logo, ouvia as seguintes frases: “Tem certeza?”, “Tá todo mundo dizendo que é uma bomba”, “Se eu fosse você,  não iria não”.  Diante de tais conselhos, eu justificava: “Cara, eu vou. Nem que seja para falar mal depois. É meu grupo favorito da Marvel”.

Bom, eu fui. E agora nem vou falar tão mal assim. O filme realmente não é um marco dos filmes de heróis.  Comete alguns grandes erros, mas no final das contas fica na média de tal tipo de filme, sendo melhor do que vários que não foram tão execrados. Exemplos? Thor 1 e Thor 2, Homem-Formiga, Homem de Ferro 3 (este último tem uma das 10 maiores bilheterias da história do cinema).

Para não dar a impressão de que está sendo realizada uma “defesa pela defesa”, vamos começar apontando alguns dos defeitos para em seguida falar das qualidades do filme.

Quarteto Fantástico, como quase todos os filmes de super-heróis, é lotado de clichês. Alguns deles bem rasos. A ideia do gênio precoce que não é reconhecido no colégio é uma delas. Soa muito inverossímil que um moleque que criou uma máquina revolucionária não tenha sido percebido até uma fortuita feira de ciências. O fato de ele parecer completamente alheio à fundação Baxter também causa estranheza. A invasão ao ferro-velho também é algo que já vimos diversas vezes em filmes infanto-juvenis.  Nesse momento parecia que eu estava assistindo ao “clássico da sessão da tarde”, Viagem ao Mundo dos Sonhos, onde três garotos constroem uma nave espacial com sucata.

Os atores poderiam ter dado mais carisma aos personagens. Nesse contexto, uma aproximação maior com os quadrinhos teria ajudado. Reed Richards, por exemplo, parecia mais Peter Parker do que o cientista revolucionário com toques de arrogância. Tudo bem que a versão que baseou este quarteto não foi a clássica de Stan Lee e Jack Kirby, mas o recente “Ultimate Fantastic Four”; contudo, vários elementos interessantes, e que poderiam ser facilmente inseridos, foram deixados de fora.

Outro erro grave foi a forma como foi construído o “Doutor Destino”. O personagem, um dos mais legais da Marvel, perdeu todo o encanto. Ficou um vilão genérico, sem personalidade. Dado o resultado, seria melhor que tivessem criado um antagonista exclusivo para o filme. Mas do jeito que foi, queimaram uma bala que poderia ser muito interessante numa possível sequência.  

Além disso tudo, o final foi abrupto com tudo sendo resolvido de maneira fácil. A batalha final foi algo constrangedor de tão mal feita.  E os efeitos especiais deixaram da desejar.

Caramba, então sobrou alguma coisa boa? Algumas coisas, a meu ver.

Em primeiro lugar, Quarteto Fantástico tenta ser diferente dos demais Super Heroes Movies, apostando não numa trama de ação e suspense, mas em uma história de ficção científica com alguns toques de terror.  O filme também tenta sair da fórmula pronta de “ação e humor” do Marvel Studios, tão bem-sucedida comercialmente. E devo dizer que, em vários momentos, o filme conseguiu alguns efeitos bem interessantes.

A cena na qual testemunhamos o aparecimento dos poderes do Quarteto é bem bacana. A motivação para a imprudência dos jovens pesquisadores também. O isolamento do Coisa é bem construído. O diretor tenta dar espaço a todos os personagens e os traços definidores de cada um são apresentados. Reed Richards é o gênio isolado. Bem Grimm, o amigo fiel. Johnny Storm, o filho que quer marcar diferença do pai distante. Susan Storm é a que mais deixa a desejar, mas a ideia da capacidade de reconhecer padrões tem bom potencial.

Além disso, há muitas portas interessantes que o roteiro abre e que, infelizmente, não fecha tão bem. Reed Richards visto como um covarde que abandona os amigos. A tensão da família Storm  com o Tocha Humana desejando ser agente do governo, enquanto sua irmã e seu pai querem evitar que ele seja usado como arma. A visão que o Coisa tem de si como alguém que só serve para bater e que perdeu toda a vida. A relação conturbada entre ele e o amigo de infância. Tudo isso está lá.

Outro ponto: Quarteto Fantástico tem muito menos ação que a maior parte dos blockbusters de super-heróis. É um filme com um roteiro cheio de problemas que tentou se sustentar pelo roteiro.  Boa parte dos filmes tenta distrair o espectador do roteiro, apelando para ação ininterrupta e efeitos especiais grandiosos.  É legal quando uma receita diferente é tentada. Nesse contexto, Quarteto é vítima do próprio projeto. Projeto que, o resultado deixa perceber, poderia tornar o filme fantástico, mas que infelizmente fez com que fosse mediano. E por que foi assim?

Não é segredo para ninguém o jogo de empurra feito entre a Fox e o diretor Josh Trank, com um lado querendo culpar o outro pelos problemas apresentados no longa-metragem. Como dados concretos do imbróglio, temos o seguinte:  roteiro aprovado com atraso, mudanças constantes na história, fortes conflitos na equipe de produção, cortes no orçamento.  Esse contexto todo ajuda a explicar a sensação de oportunidade desperdiçada que o filme passa.

Antes de encerrar, quero voltar ao início da resenha e comentar o que mais me marcou nessa minha aproximação dessa adaptação do “Quarteto Fantástico” para as telonas. A totalidade das pessoas buscaram impedir que eu perdesse meu tempo não tinha assistido ao filme. Apenas visto a repercussão negativa que o mesmo teve na internet. Ou seja, não tinham tido contato com a coisa, apenas com o discurso sobre ela.

Claro que ouvir os outros e levar em conta suas opiniões não é um mal. É até um bem. Mas numa época em que a confiança depositada em uma ideia é diretamente proporcional ao quanto ela foi replicada nas redes sociais, é saudável desconfiar dos “hypes” e dos consensos de internet.
 
Claro que a opinião sobre um filme é questão de gosto. E muito do que falam sobre os defeitos do Quarteto Fantástico está correto.  Mas eu me diverti vendo o filme. Curti alguns pontos. Se o hype conduzisse minha decisão, isso não teria acontecido. Tá certo que não seria uma grande perda para minha vida. Foi só um blockbuster bem mediano.  Infelizmente essa construção midiática de consenso não acontece só com histórias de ficção. Ocorre com assuntos e situações bem mais sérios.  Cabe então nunca abdicar de pensar. Fundamental é sempre contrastar o que é dito com aquilo que o contato com os fatos pode mostrar.

Alessandro Garcia
Doutorando em Sociologia - UFRJ / Fundador da Oficina de Valores

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