Por: Diego

 Poucos livros foram citados tantas vezes e por públicos tão diversos como “O Pequeno Príncipe”.  E embora duas ou três frases tenham alcançado maior fama, o livro possui uma infinidade de pensamentos que poderiam render boas reflexões, e dificultar uma boa adaptação para o cinema (algumas já foram mal sucedidas...). Mas não parece ter sido o caso da recente versão lançada. Mesmo não sendo perfeito, o filme consegue traduzir bastante da ideia central do livro.

O filme na verdade contém mais de uma história. A primeira é sobre uma garotinha que tem uma intensa rotina de estudos imposta pela mãe durante as férias de verão. A vida da menina começa a se transformar quando elas mudam-se para o lado de um vizinho intrigante: um velho senhor, ex-aviador e acumulador de bugigangas. Este, percebendo a solidão da menina, resolve mostrar para ela os relatos de um misterioso encontro que teve com um jovem após seu avião cair no deserto.

E aqui começa a segunda história, contada paralelamente à primeira. O aviador não é ninguém menos que o personagem narrador do livro, que vai contando seu encontro com O Pequeno Príncipe. Essa é umas das partes mais legais do filme, por dois motivos: primeiro porque a narrativa é extremamente fiel ao livro, inclusive representando os textos com a grafia e aquarelas originais do autor. Segundo porque o relato do livro é representado num bem trabalhado stop motion (enquanto o resto do filme se desenrola em computação gráfica) que serve bem ao propósito de contar a história de forma mais lúdica.

A partir da amizade com o aviador, a vida da menina começa a ser incomodada pela história do Pequeno Príncipe e seus questionamentos sobre os adultos. No livro, as “pessoas grandes” aparecem como aquelas que se preocupam exclusivamente com o que é exterior, e por isso nunca se satisfazem. Vaidade, riqueza, resultados, poder. E cada vez que isso se torna o objetivo na vida de alguém, essa pessoa acaba ficando fechada em seu próprio mundinho, e se torna infeliz. A menina, que vivia na infância um treinamento para a vida adulta, começa a ter medo de crescer.

“O problema não é crescer, mas esquecer”, diz o velhinho. O convite a ser criança não é a uma vida irresponsável, mas a preservar a capacidade de enxergar além da casca. Só uma criança é capaz de ver um navio em uma caixa de papelão,  ou perceber mais misteriosa floresta contida em um jardim .


 Sem esse olhar não conseguimos enxergar a profundidade que cada pessoa trás em si (e por isso se torna difícil qualquer tipo de amor) ou compreender que a vida possui um mistério que é maior do que nós. Aos poucos a menina vai aprendendo uma das principais lições do livro: “Só se vê bem com o coração. O essencial é invisível aos olhos.”.

Vale notar que a força desse ensinamento não vem da história em si, mas da amizade entre o aviador e a menina. O poder transformador de um amigo (coisa que as pessoas grandes não têm, porque não saem do próprio planeta...) é a linha condutora do filme, num estilo semelhante ao de UP – Altas Aventuras.

Mas a maior novidade da adaptação em relação ao livro se dá na reta final do filme. Ao mesmo tempo em que se revolta com o final da história do Pequeno Príncipe (que, fiel ao livro, fica com um questionamento em aberto), a menina precisa lidar com um sofrimento real. Afinal, como a raposa ensina para o príncipe, “a gente corre o risco de chorar um pouco quando se deixa cativar”. A menina então, numa espécie de sonho, revive toda a experiência da história de uma forma muito particular.

Para alguns aí o filme se perde, porque propõe uma alternativa ao final original. Mas para quem não se importa tanto com isso, proporciona uns bons momentos de aventura (sensação que aparece pouco no filme) sem comprometer a mensagem (na verdade até acrescenta algumas reflexões). Um destaque também para a trilha sonora, que conta com Hans Zimmer (de Batman – O Cavaleiro das Trevas, Piratas do Caribe e muitos outros...), e que de forma sutil ajuda bastante a dar vida às emoções propostas.

Num comentário final, não é lá um filme muito voltado para crianças (por não conter tantas cenas de humor ou aventura). Mas, para aquelas que cresceram (e não esqueceram), vale a ida para presenciar uma das histórias que mais tem lições a nos ensinar.

Diego Gonzalez
Engenharia de Controle e Automação - UFRJ/Oficina de Valores



                                                                           
 

1 comentários:

Lu disse...

Ótimo texto, resumiu de forma simplificada o filme. Muitos questionaram que este filme não tinha nada a ver com o livro, o que é normal, pois é baseado no livro, e não uma copia.
Eu adorei e consegui ter todas essas reflexões que detalhou no texto.

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