Por: Joyce

Então nós somos machistas?


Tirando as coisas que falam de nós que preencheriam uns 10 livros, uma deles que, particularmente, me incomoda muito, é que somos machistas. Nós, católicos, ou a Igreja em si. Vamos colocar um pano de fundo para entrarmos no assunto em questão.

O que acontece é que o discurso machista, aquele que diminui a mulher de maneira bem natural e disseminada nos dias de hoje, é encontrado em todas as esferas. No nosso trabalho, na escola, na universidade (sim, naquela bolha dourada de conhecimento inabalável, quem diria, hein?), em casa. Quero lembrar que existem muitas frentes (ou efetivações) de feminismo hoje em dia e que aquele mais de raiz (verdadeiro e livre, em minha opinião) não é de nenhum modo um polo oposto ao machismo, pois aí seria tão prejudicial quanto. O que o feminismo aqui posto deseja é a igualdade onde somos iguais (salários, direitos, respeito) e exterminar o preconceito que nós mulheres sofremos só por sermos mulheres.

Passeando de carro outro dia, um veículo à nossa frente estava fazendo algumas barbeiragens, e meu marido (que estava dirigindo) reclamou, pois a pessoa quase causou um acidente. Ao nos aproximarmos do carro em questão, minha sobrinha de 6 anos (e um dos seres humanos mais inteligentes que eu conheço) disse “e quem está dirigindo é mulher” naquele tom velho conhecido nosso. Quem é mulher sabe do que estou falando. 

Recapitulando: minha sobrinha, menina, de 6 anos, já repete um comportamento preconceituoso contra as mulheres, grupo do qual ela já faz parte desde o útero. Claro que na mesma hora eu questionei e expliquei que ser homem ou mulher não tem nada a ver com nossa inteligência ou habilidade, mas que os meninos podem sim acabar se tornando melhores motoristas porque desde cedo brincam na rua, com carrinhos, subindo em árvores, com videogames e nós ganhamos vassourinhas/ cozinhas/ panelinhas/ filhinhas – apenas. Expliquei, de um jeito acessível pra ela, o que falta muito marmanjo entender: nenhuma mulher é menos capaz de dirigir, operar máquinas, chefiar uma grande empresa, sustentar uma família, liderar, ser firme. O problema está no modo como muitas vezes nos criam para fazer só uma parte daquilo que fazemos quando crescermos: ser mães e donas de casa. O serviço maternal e o doméstico são muito difíceis e importantes. 

Com essa divisão desde a infância, acaba errada a matemática do que às vezes nos preparam para fazer e do que temos que fazer na realidade. Claro deve ficar que, ao colocarmos essas atividades do lar em um patamar menor, clamando que não faremos isso sozinhas e que a chefia e a maleta são os objetivos maiores, acabamos caindo no erro de colocar aquilo que a tradição (não a defendendo!) sagrou como feminino é ruim. Acaba que há esse discurso de o que eu chamaria de um feminismo machão: o feminino tradicional vira vilão. Claro que a situação pode estar mesclada com opressão e todas as eteceteras que sabemos – mas se confirmarmos essa postura, estamos sendo machistas e diminuindo as pessoas que realizam essas atividades nada diminuidoras.

Um exemplo? Diversos fatores fizeram com que as mulheres tivessem uma conduta amorosa / sexual muito mais comedida que a dos homens. Eles, garanhões. Elas, por muito menos, “galinhas”. Qual foi a solução do feminismo machão? Copiar os homens. Esse “feminismo” acaba corroborando o machismo, pois, ao tentar imitar o comportamento básico do homem (não de todos, claro), acaba mostrando que vê nele o que há de melhor, o modelo a ser imitado. Especialmente nesse caso, a virtude universal estava do lado das mulheres (ainda que em contexto com vários elementos negativos), mas faltou ver isso, não? Faltou ver que há coisas tradicionalmente femininas que são boas. Mas o machismo é tão venenoso que contaminou até as mulheres.

O que esse comportamento perpetua? O que acaba surgindo quando os adultos só convocam a filha mulher para lavar a louça? O que causamos aos nossos filhos em geral quando nossos maridos falam que nos ajudam em casa? Estamos reforçando que os serviços de casa são responsabilidade da mulher, sendo que a maioria de nós trabalha fora também. O correto? Divisão de tarefas. Os dois trabalham fora, os dois sujam, os dois limpam. Seu marido trabalha fora e você não? Acho justíssimo se vocês combinarem que ele trabalha na rua e você em casa, sem um interferir no outro. Mas significa que ele vai jogar as cuecas no chão?

Muitas vezes esses “maridos da cueca no chão” são filhos de mães dedicadas que sofreram com essa coisa do “ajudar”. Ela acabou fazendo tudo e eles, na vida adulta, tornam-se dependentes de uma mulher que organize suas casas, sua comida às vezes até escolhem sua roupa. Casam-se esperando uma secretária/ babá/ empregada em vez de uma esposa (que, eu juro, acaba sendo isso tudo se os dois forem companheiros e tiverem troca, amor e respeito). Aproveito para elogiar meu marido, excelente em tudo de casa, por ser uma pessoa consciente, inteligente e saber que a casa é de dois, e não de uma. :)

Acredito firmemente que o machismo faz vítimas e muitas vezes (muitas mesmo) essas vítimas não percebem. Já está tão normal o “ah, mas tinha que ser mulher” que ninguém vê aí o preconceito, a diminuição: o ser mulher acabou virando “ser menor”, mesmo quando as atividades são dignas, importantes e difíceis. Um simples fato: de que depois do almoço os homens ficam sentados enquanto as mulheres vão lavar a louça (Alguém aí acha fácil ou inútil? Ou ainda pensamos que é mais importante quem sai e traz dinheiro pra casa? Tá puxado esse ano de 1823 hein).

Sim, o homem é a coluna da casa. Não estou afirmando que somos iguais em tudo, nem quero queimar peças de roupa de nenhum tipo. Somos diferentes muito além da criação, temos hormônios, corpos, desejos diferentes. Chefiar a família é do homem enquanto posição de segurança, aquela noção prototípica de pai – e isso não nos renega a uma posição menor. Acho que é muito aí que aproveitam para nos chamar de machistas. Na onda do que falamos aí em cima, do comum, se esquecem de acabar de ler na nossa fé: o homem é a coluna da casa, mas a mulher é a raiz. Não convém ao homem ficar sozinho – e Deus fez a mulher para que os dois se fizessem companhia em uma só carne, em amor, em igualdade, em parceria; sem hierarquia de positivo e negativo, grande e pequeno. Proteção do homem tem seu contraponto no conforto da mulher – e não é um menos importante nem melhor que o outro. 

É uma complementação de dois diferentes para formar uma unidade, não uma relação de poder, dependência ou escravidão. Não somos esposas para sermos as únicas responsáveis pela casa e pelos filhos enquanto nossos maridos vão fazer dinheiro: somos esposas para que, como casal, possamos crescer juntos no que Deus desejar para nós e frutificar como família.

Claro que vai ter hora ou outra que um católico pode ser aquele que vai soltar uma frase daquelas. Mas tenha certeza que ele também é vítima, não da Igreja, mas de um mundo que há muito ensina apenas isso. A Igreja, pra variar, vai no contraponto disso. A Igreja tem Maria, a maior prova do nosso não-machismo: Deus poderia ter mandado Jesus no melhor estilo Super-Homem. Mas Ele nasceu, de uma mulher, humana. Precisou dela. E hoje ela é a Rainha do Céu. Fora toda a história, que mesmo lá nos milênios passados já mostrava a tendência do respeito às mulheres (como no que falei da relação de igualdade no casamento, que é bíblica, e o respeito de Jesus por Madalena, mulher e pecadora), Maria por si só já é motivo de vermos que Deus criou a mulher para muito mais. O para quê, cada uma de nós descobre a cada dia, na nossa jornada, com a ajuda Dele.


Joyce Scoralick
Mestre em Literatura

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