Por: Moco
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Periferia: miséria e riqueza

Sou nascido e criado numa região do bairro Quitandinha em Petrópolis conhecida como “Rio de Janeiro”. Não chega a caracterizar uma favela, mas a rua onde cresci tem uma região conhecida por favelinha, ali fazemos divisa com a “boca do mato” na região vizinha. Convivi com alguns elementos presentes nas favelas cariocas, tais como: tráfico de drogas, pobreza, moradia precária etc.

Embora nunca tenha me envolvido com o tráfico (graças a Deus) vi as coisas acontecendo bem de perto. Alguns amigos seguiram por esse caminho, uns estão presos, outros, infelizmente, eu nem sei o paradeiro. Aprendi a curtir alguns elementos da cultura do morro como rodinhas de rap, funk (da antiga, diga-se) e o futebol descalço na rua de terra que compõem parte do cenário da minha infância e adolescência. Hábito de leitura, eu fui desenvolver bem mais tarde, a partir dos 16. Meu primeiro livro, como não poderia deixar de ser: “Falcão – Meninos do Tráfico”. Uma parceria de Mv Bill com Celso Athayde.

Para fins de contextualização, o surgimento das favelas no Rio de Janeiro deu-se no início do século passado, enquanto os imigrantes chegavam para tentar a vida nas oportunidades de trabalho assalariado que ali se abriam. Rapidamente o centro superlotou e os arredores da região portuária foram sendo habitados, formando a primeira região periférica da cidade. A primeira favela do Rio, foi o chamado “morro da favela” que recebeu este nome por conta de uma planta homônima trazida do nordeste, posteriormente esse morro recebeu o nome de Providência. Atualmente, a cidade é cercada de favelas para todos os lados (Babilônia, Maré, Vidigal, Borel, Rocinha, Cidade de Deus e tantas outras) que compõem esse cenário de desigualdade.

A favela é por definição um lugar destinado aos excluídos. Um dos casos que melhor retrata essa realidade, e um dos mais famosos do Brasil, é a Cidade de Deus, que virou longa-metragem pelas mãos de Fernando Meirelles em 2002. O filme com 4 indicações ao Oscar, e uma das maiores repercussões da história do cinema nacional remonta à década de 60, período em que o governo carioca decidiu realizar um processo de “desfavelização” do centro da cidade construindo conjuntos habitacionais na Zona Oeste para que o povo do centro fosse todo removido pra lá. Aconteceu que no meio desse projeto, tocado inclusive por um importante arquiteto italiano, houve uma enchente devastadora que atingiu a Zona Norte e a Baixada Fluminense, o que ocasionou numa invasão de muitas famílias que impossibilitou a continuidade do projeto tal como planejado pelo governo. A partir disso, iniciaram-se as brigas por poder, o tráfico de drogas. Esse processo resultou numa das comunidades mais violentas do Rio. 

Filme aclamado porque para além de toda a qualidade técnica presente (uma ótima fotografia, excelente atuação dos meninos da própria comunidade, bom roteiro e direção) teve o mérito de apresentar com clareza a realidade nua e crua da favela. Para muitos, um grande trabalho. Para outros tantos, prestou um desserviço, de modo a fazer um marketing negativo das favelas cariocas mostrando o que temos de pior.

Essa discussão me provocou e eu queria dividir isso com você, amigo leitor. Qual é a visão que nós temos da favela? Encaramos como um risco social? De fato, é uma realidade amedrontadora. Cabe, no entanto perguntar: Aquilo, que o Meirelles mostrou em Cidade de Deus, mas que vemos também por inúmeras vezes nas letras de músicas e outros filmes, séries ou programas de TV em geral é de fato um retrato da vida na favela? Ou seria uma caricatura mal feita do que temos de pior?

Alguns fatores são preponderantes para pensar a realidade das favelas, o primeiro deles é sem dúvidas o indicativo de que as favelas, por si só, são um grande retrato da desigualdade. Onde há desigualdade nessa escala, alguma coisa não vai bem. O segundo pode ser entendido na medida em que os moradores da favela encontraram uma forma de ter a sua própria “justiça”, de ser o próprio estado dentro da favela, aí surgem as facções (CV, Terceiro Comando, PCC e afins). Uma tentativa de organização interna e movimentação da economia, através muitas vezes de atividades ilícitas, que culminam numa verdadeira guerra por poder. Até hoje colhemos as consequências disso, seja em grande escala através dos conflitos armados, seja em pequena escala, através do dilema que muitos garotos vivem de ver no tráfico a sua única possibilidade de realização financeira.

Talvez o leitor esteja confuso a respeito do objetivo desse texto, não sou um sociólogo e não estamos aqui para pensar projetos políticos que atendam as demandas elencadas anteriormente. Contudo, enquanto seres humanos somos sempre chamados a refletir a nossa própria condição. Ao constatar que as favelas vivem na periferia da cidade, inevitavelmente chegaremos à conclusão de que muitas vezes amargam a periferia da existência. Ou porque damos poucas oportunidades, ou porque as julgamos um risco. A mentalidade maniqueísta que está impregnada na nossa forma de conceber a sociedade, torna-nos mais preconceituosos e consequentemente menos humanos.

Exceto em alguns casos patológicos* nos quais a capacidade de sentir é totalmente extirpada do ser humano, todo homem é bom. Se não consegue perceber essa bondade, é porque lhe faltam oportunidades. Nós precisamos dessas oportunidades, de conhecer e interagir com o diferente, de se arriscar, ir além. A favela que produz, a favela que é rica em talentos, rica em pessoas simples que doam as suas vidas pelo bem dos seus e para alcançarem seus objetivos. Essa favela merece um olhar diferente, merece mais oportunidade, merece ser conhecida tal como ela é, não segundo os julgamentos que muitas vezes ouvimos e fazemos.

A mim, esse contexto ensinou muito, poderia listar uma série de virtudes, mas talvez se o fizesse acabaria estendendo o texto desnecessariamente. Resumo então a uma ideia: ter crescido num contexto periférico me ajudou a sair de mim, e, creio, que só se encontra quem visita as periferias da própria existência. Com prudência, avancemos às periferias! Da cidade e da vida! Vamos em frente, porque a vida pede mais e o melhor ainda está por vir.


Rodrigo Moco
Psicólogo
Coordenador da Oficina de Valores


*Referência a Psicopatia, é um transtorno de personalidade antissocial, caracterizado pela ausência de sentimentos ou remorsos. O psicopata não é uma pessoa má, contudo é alguém com muita dificuldade em ter empatia, compaixão e arrependimento por conta de seu quadro clínico.

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