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Por: Alessandro



Existem três coisas que não se discutem: religião, política e futebol. Essa frase, que muitos de nós crescem ouvindo e dizendo, traduz muito bem um traço forte de nossa cultura: gostamos de evitar conflitos abertos. Não é incomum uma pessoa julgar a outra grossa por essa manifestar, de forma muito direta, uma discordância.  Parece que nós brasileiros temos sonho de vivermos uma vida sem nunca discordar de ninguém e sem que ninguém discorde de nós.

Acontece que com religião, futebol e política isso é impossível. As três coisas estão tão presentes em nossas vidas que é impossível não falar sobre elas. O futebol porque é o hobby preferido da maior parte dos brasileiros. Poucos são aqueles que não declaram torcer por um time.  Com religião e política, a coisa, embora muitos pareçam pensar de outra forma, fica um pouco mais séria.

A política trata do nosso destino comum aqui na Terra, de como a sociedade deve ser organizada, de quais valores devem ser traduzidos nas estruturas sociais. Devemos pagar mais ou menos impostos? Até onde deve ir a ação do Estado? Como reduzir a desigualdade social e o desemprego? Todas essas perguntas são muito importantes e várias pessoas muito bem intencionadas (e outras nem tão bem intencionadas assim) discordam sobre as respostas que devem ser dadas a elas.

No caso da religião, o que está em jogo é o sentido transcendente da vida. Existe um Deus? Há vida após a morte? Se Deus existe, o que Ele deseja do ser humano? Como encontrar esse Deus? Todas essas perguntas também são fundamentais e também sobre elas as pessoas discordam muito. Além disso, a religião não é algo incorpóreo, que não afeta o cotidiano. Por mais que isso não seja tão obviamente percebido, poucas coisas são mais concretas que o estudo dessas questões.

Resumindo e repetindo: é impossível não falar sobre religião, política e futebol.  E, a não ser que vivamos numa bolha, só com pessoas que pensam exatamente do mesmo jeito que nós, também será impossível passar uma vida inteira sem conversar com alguém que discordamos nesses três assuntos.

No caso do futebol, penso que é mais simples. É justamente o conflito que gera a unidade. Por mais que por vezes pareça que não, um mundo em que o principal adversário não existisse seria mais sem graça.  Além disso, a discordância entre os times ocorre em um campo de concordância mais amplo que é o amor pelo próprio futebol. Fora que o futebol sem a rivalidade entre os clubes perderia 94,7% de sua graça.

Vale dizer também que torcer por um time é mais uma paixão que uma decisão. Não há nenhum argumento que seria capaz de fazer com que eu me tornasse flamenguista. E creio que nenhuma discussão seja capaz de convencer um torcedor do Flamengo a torcer pelo Fluzão (embora essa seja, em minha opinião, uma opção muito melhor!).  Torcemos por uma bandeira a qual oferecemos nossa adesão de maneira quase gratuita.

Mais uma vez, com religião e política a coisa é diferente. Embora vários motivos possam estar na base da posição política ou religiosa de alguém, tais opções não são questões de gosto. Elas implicam posições frente a esse e ao “outro” mundo. Ou, em outras palavras, frente a Deus e aos homens. Além disso, por mais que as crenças sejam  pessoais, as consequências de tais crenças vão além da esfera privada.

Em política não adianta fugir. Numa sociedade democrática, furtar-se de participar por medo do conflito significa omitir-se em questões fundamentais para a construção do bem comum. Quando mais discussão, melhor. Quando mais circulação de informação, também.

E em religião? Creio que o movimento é parecido. Não sou do tipo que pensa que todas as religiões no fundo são iguais. Não são. E dizer que são implica  em ofender a todas. Uma  verdadeira cultura de aceitação das diferenças não deve desembocar em um ecletismo vazio que nubla as discordâncias e assim mutila as identidades em prol de uma falsa tolerância. Eu sou católico e digo que sou mais respeitado por protestantes, umbandistas e budistas que discordam do que penso do que por pessoas que, com um sorriso de superioridade,  falam de uma espiritualidades vaga e dizem que tudo é a mesma coisa.

Além de destacar a importância de dizer que não podemos varrer para debaixo do debate as discordâncias em religião e política, gostaria de propor alguns princípios que, creio eu, podem ajudar a promoção de um diálogo mais saudável nessas duas áreas. Vamos a eles:

  • Conheça muito bem o que você acredita. A ignorância da própria identidade gera uma insegurança que é a raiz de muitos fundamentalismos.
  • Ouça de verdade o que o outro está dizendo. Procure entender suas ideias em vez de meramente ataca-las.
  • Pressuponha boa vontade do outro lado. Não é porque alguém discorda de você, ainda que em coisas muito importantes, que ele ou ela é um mau caráter.
  • Explique da maneira mais clara possível o que você pensa e, caso discorde de alguma ideia do outro, mostre suas razões.
  • Ofensas pessoais apenas desqualificam você e  fazem com que os outros tenham mais má vontade em ouvi-lo.
  • Gritar mostra apenas que você não tem bons argumentos. Não faz com que eles sejam mais convincentes.
  • Boas discussões não são torneios onde um ganha e o outro perde. Muita conversa desanda porque acima do que está sendo discutido encontram-se os egos  daqueles que discutem.
  • Prefira conversar pessoalmente a bater boca pela internet.
  • Dizer “cada um tem a sua verdade” boa parte das vezes significa mais covardia que tolerância.
  • Ame mais a verdade que a sua opinião.


Discutir futebol é maravilhoso. Em futebol, o grito faz parte. A zoeira também. Afinal, ninguém tem a pretensão de convencer. O clubismo é, em muitos casos, a virtude que dá graça à conversa. Discutir política e religião também é fascinante. Mas os princípios devem ser outros,  afinal outros são os valores envolvidos. Há uma ideia, no entanto, que vale para os três casos: a discordância, quando bem vivida, não ofende. Nem distancia. Apenas coloca os limites onde uma verdadeira aproximação pode acontecer.


Alessandro Garcia
Doutorando em Sociologia - Oficina de Valores 

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