Por: Gustavo
Imagem de www.lawtechnologytoday.org

A vida é uma disputa


A gente vê mais quando observa. E eu, eis que estava outro dia a observar dois adolescentes paparicando uma colega, e o que vi: competição humana, quase primitiva. Os três eram tipo daqueles que você vê aos montes nos horários de fim de turno escolar: uniformes, mochilas, andar despreocupado e riso frouxo. Os meninos, claramente, disputavam a atenção da moça com brincadeirinhas implicantes, piadas bobas, gentilezas “inocentes”. Eu ri. Mas só até lembrar: você já fez isso.

E eu me pus a pensar nas várias competições a que nos dispomos ou somos obrigados nessa vida, do início ao fim dela, das triviais às “batalhas épicas”: o canal da tv, o sabor da pizza, o lugar no ônibus, o filme no cinema, o ar no metrô, o melhor pedaço do frango, o posto de melhor amiga/o, o melhor lugar da sala, a/o garota/o mais bonita/o, o vestibular, o maior reconhecimento dos pais em relação aos irmãos, a vaga de emprego ou estágio, o casamento (“quando ele/a vai parar de me enrolar?”), a busca (e disputa) pela ascensão profissional, o “encaixe” no médico, a atenção dos filhos, a vaga no hospital, ... bom... o metro quadrado no cemitério.

Nietzsche dizia que tudo é força, e que as forças estão sempre se chocando. O ser humano é força. E a repressão dessa força, sua “domesticação” é o que causa a angústia no Homem. Nisso ele inclui a moral, “a invenção dos fracos” para reprimirem os fortes... puro recalque, ele quis dizer. E é mais ou menos por aí que ele vai explicar toda essa angústia, depressão, todo esse vazio contemporâneo. Nietzsche está errado? Bom, dos dois maridos da dona flor no primeiro parágrafo, pelo menos um ia pra casa solitário e de orgulho ferido aquele dia. Alguém sempre acaba assistindo o programa que não gosta, alguém sempre acaba no lugar menos confortável, alguém sempre fica com o pior pedaço. E, vá lá!, isso chateia. Chatear é normal... mas quando acumula chateação, a gente fica mal pra caramba. 

Alguém sempre ganha menos dinheiro também, às vezes bem menos dinheiro, quase nenhum; alguém sempre é trocado por alguém “melhor” também; alguém sempre espera tempo demais na fila da cirurgia também. E isso não só chateia. Não mesmo.

O Nietzsche está errado? Pode estar, não pode? Até concordo com ele nessa ideia, (que daria um slogan) de que ‘força reprimida é angústia pra vida’... Eu só acho que ele errou em pensar que nós ‘somos’ forças e que, assim, disputa é a única opção. A vida não precisa ser uma grande competição, os meus dias não precisam ser, cada um, uma batalha numa grande guerra. Os outros não precisam ser adversários a serem batidos. Como? “Quando um não quer...” 

Na mesma semana que ri do triângulo-quase-amoroso, quase chorei, confesso, com uma história mais real que essa: na abertura dos jogos olímpicos de Sidney, algum gênio das relações públicas – gênio mesmo – colocou crianças com síndrome de down para competirem em 100 metros rasos na apresentação. Inclusão. Sucesso. Já estava sendo muito legal. O que ele não esperava (e Deus foi bom com esse cara) é que uma das crianças cairia; as outras parariam de correr, ajudariam a que caiu a se levantar e atravessariam a linha de chegada juntos.

Ainda naquela semana, eu lia a autobiografia de Teresinha de Lisieux. Que história! Seu pai não permitia que, quando menina, ouvisse elogios (que são, propositadamente ou não, comparação, competição). “Que cara louco!”. Sim, parece um absurdo, não permitir que a filha seja elogiada, mas só até vermos o resultado: quando, aos 8 anos, ela ouviu o primeiro elogio, se deu conta de que nem sabia do que se tratava. Resultado: viu-se livre, por toda a vida, de toda vaidade (leia-se “disputinha de ego”). Mais tarde vai escrever que, ao entrar em algum ambiente, a Igreja, por exemplo, procura sempre o último lugar, porque “por aquele lugar, ninguém vai brigar” com ela. Vale dizer: ela sofreu muito pelos pequenos sacrifícios que fazia no trato com as pessoas, mas viveu e morreu feliz demais.

A vida não precisa ser uma disputa. Quando a tratamos assim, temos ou a frustração de derrotas, ou o vazio de vitórias que não levam a mais que logo ali, no já citado cemitério. Para onde, dizia Alexandre Magno, logo antes de morrer, “não levamos o ouro que conquistamos, as guerras que vencemos, as pessoas que amamos” (não bem com essas palavras, admito). A vida não é uma disputa. E descobre isso aquele que abre mão de vencer (e de perder). Aquele que desapega de objetivos mesquinhos, pelos quais teria que abrir mão de um dos maiores tesouros a ser conquistado: a paz na relação com os outros, que acaba por ser paz consigo mesmo.

Pode-se começar a fazer isso com as coisas pequenas do dia a dia: ceder o lugar, o controle da tv, a escolha da lanchonete onde se vai comer. Ver-se-á o bem que vai fazer às suas relações e a você. Mas algumas coisas fogem ao nosso poder de decisão: o vestibular, o mercado de trabalho, etc. São disputas impostas a nós por nosso contexto social. “Devo então ir viver numa floresta, em paz com os animaizinhos?” Não precisa tanto (e ainda ali haveria competição pela sobrevivência). Primeiro: mesmo a estrutura social, que nos impele a competição, hoje quase desumana, pode (e deve) ser mudada. Segundo: apesar de toda mudança, seja pessoal ou universal, sempre vai haver competição. Faz parte da vida. E que belo banho de água fria, a essa altura do texto. Sempre vai haver, sim, competição. A questão é como encará-la.

Quando se assume que o outro é um companheiro, e não um adversário, até quando se é “derrotado” por ele, beneficia-se da sua vitória: talvez se descubra, ao ceder ao gosto do outro na hora de escolher o filme / a comida / o passeio / o tema do trabalho em grupo, gostos novos. Talvez se descubra, na reprovação do vestibular, novos objetivos na vida ou nova força para alcançar os que já se tem. Talvez se descubra, na limitação financeira de quem não passou por cima de ninguém pela ascensão profissional, a solidariedade das pessoas ou a alegria dos pequenos prazeres. Talvez se descubra felicidade na felicidade do outro.

Por fim, certamente – já não digo “talvez”, porque o autor da afirmação é digno de confiança – se descobrirá que “há mais alegria em dar que em receber”.


Gustavo Cardoso Lima
Estudante de Jornalismo - UERJ
Oficina de Valores

0 comentários:

Postar um comentário