Por: Alessandro
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O Corpo e as Regras

“Meu Corpo, minhas regras”. Em decorrência de diversas manifestações pró-aborto, essa frase ganhou muito destaque. E ganhou destaque porque contém grandes verdades.

Ninguém em sã consciência deve questionar o fato de que a liberdade é um direito fundamental. Seria louco, ou mau caráter, alguém que não defendesse a sacralidade do corpo. Violar o corpo é violar a pessoa e isso é uma grande afronta à dignidade humana.

“Meu corpo, minhas regras”. Apesar da verdade que a frase contém, isso não faz com que ela seja desprovida de erro. Na realidade, quanto maior a parcela de verdade que um erro contém, mais grave ele vem a ser.



Embora o direito ao próprio corpo seja algo fundamental e sagrado, nenhum direito é absoluto. Todos os direitos devem harmonizar-se em um sistema que faça com que um não destrua o outro. Além disso, os direitos de cada indivíduo devem ser vividos de forma tal que os direitos dos outros indivíduos não sejam violados. É o velho papo de “meu direito termina quando começa o do outro”.

É exatamente na absolutização de um direito que está o erro do “meu corpo, minhas regras”.

No aborto, há a absolutização do direito ao corpo da mãe em detrimento ao direito à vida da criança que está no útero. 

Claro que neste ponto há uma “solução” fácil: negar ao feto o caráter de outro, de semelhante portador de direitos. O paradoxo é que isso acontece numa época onde a cada dia são reconhecidos mais direitos para mais pessoas (e até para animais).

“Meu corpo, minhas regras”. A absolutização de direitos que essa frase promove, se for levada às últimas consequências, acaba por dizer que a mãe tem mais direitos sobre o filho que o pai. E direitos levam a deveres....

Se o “meu corpo minhas, regras for aplicado” significa que, caso uma mulher fique grávida, cabe a ela e somente a ela decidir sobre o destino da criança. Ou seja, mesmo que o pai diga que deseja criar a criança e que o fará sozinho, a mulher pode decidir abortar, afinal o feto está no corpo dela.

Penso que essa postura guarda alguma semelhança com a dos homens que abandonam as mulheres após engravidá-las dizendo que o filho é apenas delas.

Claro que homem algum sabe o que é carregar uma criança no próprio corpo. Não sabe o desconforto que isso gera. Não sabe também a alegria que daí pode vir. Claro que é a mulher que arca com boa parte das dimensões da gravidez. Durante nove meses o sacrifício é dela, mas durante o restante da vida da criança, ele deve ser dos dois. 

Imaginem um homem que, para forçar uma mulher a abortar ou para abandonar uma criança, utilizasse alguma frase do tipo: “minha grana, minhas regras”, ou “minha vida, minhas regras”. Não é preciso nem comentar para fazer com que o absurdo salte aos olhos... 

Claro que o corpo é muito mais sagrado que o dinheiro ou a propriedade, mas o princípio que rege os raciocínios acima e o “meu corpo, minhas regras” são muito parecidos. A partir de algo que é meu, surge um suposto direito de não me responsabilizar por um outro. No caso em questão, pela criança em gestação.

Claro que nesse ponto muitos podem dizer: “Mas uma multidão de homens tem sido irresponsável diante da gravidez de suas companheiras”. E sou obrigado a concordar que essas pessoas têm toda a razão. Não são poucas as mulheres abandonadas quando grávidas e obrigadas a lidar com uma situação por vezes muito difícil, desesperadora até.

Não exagero ao chamar esse abandono da mulher grávida, e da criança em seu ventre, de aborto cometido por homens. Também não é exagero dizer que um homem que faz algo desse tipo é mais responsável pelo aborto que muitas mulheres que consumam o ato. Várias delas o fazem movidas pelo desespero decorrente do abandono.

Acontece que o aborto funciona, a partir de certo ponto de vista, como uma “solução simples” para um problema complexo. “Meu corpo, minhas regas” – o projeto político por trás dessa frase parece advogar o seguinte: se o homem pode não arcar com as consequências de uma gravidez, a mulher também deve ter esse direito. Isso, além de desconsiderar inúmeros aspectos da situação e a vida que está sendo gestada, tenta resolver o drama da gravidez desresponsabilizando a mulher pelo destino da criança. O caminho mais correto seria responsabilizar mais o homem pela vida de quem ele ajudou a gerar. 

Claro que mesmo um homem responsável também pode se desesperar e não enxergar alternativas. Uma gravidez indesejada pode gerar muita ansiedade e sofrimento. Aí, mais uma vez, o aborto aparece como uma possível “solução”. Uma solução que desresponsabiliza a sociedade e o Estado. Afinal,  em vez de promover o aborto, seria mais humano garantir condições para que pai e mãe pudessem ter a criança; seria melhor trabalhar na conscientização das famílias para que lidassem melhor com a situação. Isso para não falar na melhoria dos processos de adoção e de um sem número de outras medidas.

O mundo será melhor, não quando o aborto for assegurado como um direito, mas quando diante de uma mulher que deseja (ou se vê compelida) a abortar e argumenta dizendo “meu corpo, minhas regras”, a resposta do homem que a engravidou (e, em outra medida, do restante da sociedade) for abraçar essa mulher e dizer:

“O corpo pode ser teu, mas o filho é nosso.”


Alessandro Garcia
Doutorando em Sociologia - UFRJ
Fundador da Oficina de Valores

5 comentários:

Breno disse...

Muito bacana o texto... Muito bom Alessandro.

Anônimo disse...

Achei bonito o texto.
Porém, acho que falta nos colocarmos no lugar das pessoas. Um mulher que é estuprada por um "homem" que não conhece, será OBRIGADA a ter um filho de uma pessoa que nunca viu?
Homens, se coloquem no lugar dessa mulher, gerar uma criança concebida em uma situação dessas durante nove meses, para defender a moral e oa bons costumes?
Não sou a favor de aborto como método contraceptivo, mas acho que existem casos e casos. 80% das pessoas que fazem campanha contra o aborto não passaram por uma situação de estupro, não geraram um feto anencéfalo.
Conheço mulheres que tentaram de toda forma abortar e não conseguiram, como conheço mulheres que desejavam muito engravidar e quando conseguiram, tiveram um aborto expontâneo (entro nesse caso). Não acontece absolutamente nada se for da vontade de Deus... Acredito que cada um é dono do seu corpo, que se duas pessoas fizeram um filho com consciência que existem métodos contraceptivos e mesmo assim "aonteceu" é justo assumir. Mas também, se os DOIS decidem não levar a gravidez adiante, pq não respeitar a decisão das pessoas?
Não somos obrigados a concordar, mas somos obrigados sim a respeitar a decisão de cada um.
As pessoas estão tão preocupadas em fazer campanha contra o aborto ou a favor do aborto que isso está virando uma guerra. É a favor? Ok. É contra? Ok.
As pessoas se comovem e lutam tanto por causas pessoais, casamento gay, aborto. Quando o que importa é a união de todos para lutar por causas urgêntes e que estão diante do nosso nariz, que é responsabilidade de todos nós. A cidade de Mariana está aí, gritando por socorro. Enquanto gastamos tempo lutando por uma causa que cabe só a quem passa pela situação decidir e se justificar perante Deus. Pq não unimos forças e colocamos energia em causas que são da responsabidade de todos nós? Lutem por Mariana, não basta ficar só em oração, é preciso ação. Lutem pelos animais de rua, lutem pelas pessoas abandonadas nos hospitais, lutem para que nossa cidade tenha mais recursos, vamos lutar juntos!
Independente de cor, raça, credo e opção.
Vamos colocar energia nisso! OrAÇÃO, AÇÃO, isso sim faz a diferença!
Toda paz e bem!

Alessandro Garcia disse...

Olá, Anônimo,
Em primeiro lugar, obrigado pelo comentário.
Como você deve ter percebido, o texto não tratou sobre o aborto em caso de estupro. E isso por um motivo muito simples: não é sobre isso que a frase "meu corpo, minhas regras" aborda diretamente. Ela fala sobre um "direito" da mulher abortar em qualquer situação, afinal o corpo é dela.
O que busquei no texto foi mostrar como tal ideia possui grandes problemas...
Sobre o aborto em caso de estupro, recebi esses dias o pedido para escrever sobre o assunto. Já comecei a pensar, mas não posso prometer sobre quando irei conseguir aprontar o texto.

Sobre seu incentivo a lutarmos por outras causas, acho algo muito bacana. Só fico um pouco triste por você julgar que lutar por pessoas nos hospitais ou por Mariana exclua ser contrário ao aborto. Não penso que isso seja algo meramente individual, afinal o apoio as mulheres grávidas e em situações difíceis e a proteção ao nascituro é uma obrigação de todos. Ao menos a meu ver...Dizer que é algo meramente individual pode significar não responsabilizar-se.

Sobre a questão sobre o aborto ser uma guerra, penso que em nenhum momento do texto ofendi alguém. Apenas conversei francamente e de forma educada, mostrando minha visão sobre o assunto.
´
Peço apenas que pense que você tomou uma posição sobre o assunto. Se o achasse tão besta não o teria feito. Quando pede que outros não façam o mesmo, talvez não esteja sendo tão democrático (a). Afinal, penso que o assunto não é banal e debatê-lo é condição fundamental para encontrarmos caminhas melhores.

No mais, fico feliz que esteja lutando por tantas causas relevantes (Mariana, pessoas nos hospitais, mais recursos para cidade, animais de Rua). Embora discordemos em um ponto (que para mim é fundamental) fico feliz em ver pessoas gastando seu tempo na promoção do bem comum.

Fraterno abraço

Anônimo disse...

Alessandro,

Apenas temos opniões diferentes sobre o assunto e em momento algúm disse que o assunto é "Besta" como você disse... lamentável sua posição..

Acho sim que mulheres grávidas precisam ser amparadas, mas as que querem ajuda.
Acho que viciados em drogas precisam de apoio, mas os que querem apoio. É nossa responsabilidade orientar e estender a mão, mas é nosso dever respeitar a decisão do outro.

Concordo plenamente que devemos proteger o nascituro (se a gestação for levada adiante), para que a criança tenha o mínimo de dignidade.
Eu fui adotada, e sou grata as pessoas e a família que me amparou. Só não entrei para estatística de aborto nesse país, pq Deus não quis, pois minha mãe tentou de todas as formas. Engravidei e tive um aborto expontâneo. Como pode ver, estive em quase todos os lados...

Luitei e luto por muitas causas inclusive com a própria Oficina de Valores, participei de ações, ajudei em eventos, não seleciono, acho que tudo que é para o bem merece apoio.

Mas continuo mantendo a postura de que é importante respeitar a opnião e a decisão de cada um. Respeito sua opnião e em momento algúm disse que você ofendeu alguém (releia se for o caso).

E também não disse que o assunto é banal. Mas gostaria que entendessem que existem outros assuntos fora da bolha que também são de grande importância.

Um abraço para você e todos os amigos da oficina!

Alessandro Garcia disse...

A referência ao "besta" vem do fato de no seu comentário inicial vc ter dito "As pessoas estão tão preocupadas em fazer campanha contra o aborto ou a favor do aborto que isso está virando uma guerra. É a favor? Ok. É contra? Ok"...

Há de concordar que um comentário como esse parece desqualificar quem quer discutir o assunto dando a entender que a coisa é óbvia.

Não entendo o que há de lamentável nessa interpretação. Se não foi que quis dizer, acredito em você, mas julgo que fiz uma leitura razoável.

Sobra a importância de discutir outros assuntos fora da "bolha" (seja lá qual ela for), concordo com você. Tanto que o blog tem mais de 500 textos e menos de 5% são sobre aborto.
Há textos sobre a situação dos refugiados, sobre a redução da maioridade penal, sobre liberdade política, sobre intolerância religiosa...

Quando falamos sobre aborto e pede que entendamos que é importante falar sobre outras coisas, peso que está sendo, no mínimo, um pouco seletiva na apreciação do que falamos. Claro que ´talvez isso seja pela amostragem dos textos que teve contato. Mas pode crer que nossas bandeiras são MUITO mais amplas.

Para encerrar: respeitar não significa concordar. Com uma leitura atenta do texto, dá para perceber que coloquei muitas mulheres que praticam o aborto como vítimas. Ou seja, as compreendo e me solidarizo. Isso não implica acreditar que o aborto é uma questão de opinião ou que seja algo bom (tanto para a mulher quanto para a criança em gestação).

Como defendi, julgo que o aborto como direito tem diversas contradições.

No mais, obrigado por continuar a conversa.

Um ponto: qual o seu nome? Pelo comentário vi que conhece a Oficina e fica meio chato ficar me dirigindo a alguém como "anônimo". Claro que se não quiser falar, não há problema. Foi apenas uma curiosidade.

Forte abraço,

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