Por: Alessandro


Imagem: divulgação


Jogos Vorazes – A Esperança (Parte 2) – Resenha Existencial

Assisti ontem (22/11/15) ao último capítulo da saga "Jogos Vorazes". Sem sombra de dúvidas, o mais fraco dos quatro. Há várias sequências inverossímeis que dificultam a imersão na história. Boa parte do que ocorre é previsível e a empatia com os personagens não acontece. 

Quase não tenho visto essas séries distópicas tão famosas hoje em dia. Não vi “Maze Runner” (é assim que se escreve?) nem “Doador de Memórias”. Da série “Divergente” só assisti o primeiro e desisti dos outros. Com “Jogos Vorazes”, a coisa era um pouco diferente. Fiz críticas positivas de quase todos os filmes. Havia questões legais sendo levantadas e críticas bem feitas a alguns elementos da sociedade contemporânea.

Grande parte do problema desse último filme foi que foram dadas soluções fáceis para problemas interessantes criados nos filmes anteriores. Tudo bem que terminar é o mais difícil, no entanto o término poderia (a meu ver, deveria) ter sido um pouco melhor elaborado.

Apesar dos problemas apresentados, há algumas reflexões interessantes a serem feitas sobre “A Esperança – Parte 2”. Em uma época de polarizações, "Jogos Vorazes" chama a atenção para o fato de que o mundo não é tão simples.

No filme, é mostrada a luta final dos 12 Distritos contra a Capital. De pessoas oprimidas contra uma situação opressora. Acontece que a liderança do exército rebelde cobiçava apenas o poder e não a implementação da liberdade. Além disso, os que lutavam contra a Capital acabam por cometer atos tão bárbaros quanto aqueles contra os quais estavam lutando.

O que isso ensina? Muita coisa.

A luta por um mundo melhor não pode justificar toda e qualquer medida. Afinal, quando pensamos que os fins justificam os meios facilmente podemos transformar os meios ilícitos em fins em si mesmos. O uso da crueldade em prol da bondade acaba tornando cruel aquele que inicialmente queria ser bom.

Além disso, envolver-se com uma causa não pode significar a canonização de tudo e de todos envolvidos com aquela causa. Seja um partido, uma ideologia, ou uma instituição... O olhar crítico para a própria bandeira é um dos melhores serviços que podemos prestar àquilo em que acreditamos. Apontar o mal no outro sem olhar para o mal que está em nós pode implicar em deixar um mal tão grande quanto o que combatemos crescer e florescer sem que nos importemos.

Enfim, ao lutar de maneira errada contra aquilo que julgamos estar errado podemos acabar nos tornando exatamente aquilo que combatemos.

Claro que no dia a dia isso não é tão fácil. Esse ponto, “Jogos Vorazes” mostra muito bem. Katniss luta como pode e contra quem pode. Várias vezes questiona-se se está fazendo o que é certo. Fica angustiada ao ver que está sendo instrumentalizada. Mas nem por isso se recolhe em uma omissão amargurada. Continua a luta, mas não aceita que outros pensem por ela. Em suma, o medo de errar não faz com que ela fique passiva em relação àquilo que está a sua volta. Mas a fidelidade a sua consciência faz com que sua luta seja mais ampla. Não quer apenas a derrota da Capital, quer o bem comum de toda a Panem.

É justamente por trazer questões tão interessantes que “Jogos Vorazes – A Esperança (Parte 2)” decepciona ao fazer um final simplista. A série merecia mais. Katniss Everdeen merecia mais. Os fãs mereciam mais.

Apesar do final aquém, o saldo da série é positivo. Positivo por propor, no contexto do cinema blockbuster, reflexões interessantes. Positivo porque busca fazer pensar sem deixar de entreter. Jogos Vorazes não é um tratado de política e nunca pretendeu ser. É uma série “teen”. E não tem vergonha disso. 

Acontece que os adolescentes são inquietos e querem pensar e mudar o mundo. E a série vem dizer que o mundo precisa ser diferente. Que pessoas comuns podem fazer a diferença. Mas diz também que elas devem tomar cuidado para não serem instrumentalizadas por pessoas e instituições que podem abusar de sua boa vontade e senso de justiça. Que na busca do bem podem acabar sendo enredadas e alienadas. 

Só por esses motivos, a série já valeu a pena. Mas que o final podia ser MUITO melhor... Ah, isso podia!

Alessandro Garcia
Doutorando em Sociologia - UFRJ
Oficina de Valores

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