Por: Gustavo





Uma banana pra mim, uma banana pra você

Eu gosto de ganhar presente. Você também! Sabe como eu sei? Todo mundo gosta de ganhar presente! E uma das piores sensações da vida é: esperar ansiosamente uma data de ganhar presentes – Natal, aniversário, Dia das Crianças – e ganhar, sei lá... meia. Sabe o que me parece? Que o autor desse ato de profundo amor simplesmente não me conhece, ou me deu um presente que recebeu e não gostou. É, amigos, eu estou dizendo que preferia um abraço.

Quando você é criança, isso é menos comum. Todo mundo sabe como te agradar: brinquedo. E você adora, tudo certo! Por isso, as “datas de ganhar presente” são ansiosamente aguardadas.

Mas você cresce e as pessoas acham que uma camisa (feia, parece que de propósito) ou um par de meias cinzas são super legais. Sim, amigos, eu estou dizendo que, a isso, preferia um brinquedo.

Salvem os tios de bom senso, que, na dúvida, dão dinheiro – não, amigos, eu não sou um mercenário.

Se você é uma pessoa minimamente informada, sabe que na semana passada, um gerente de restaurante da Tijuca, Rio, deu bananas de “presente” a três funcionários pelo Dia da Consciência Negra. Se não viu, basta entrar em qualquer site de notícias ou procurar no Google. O restaurante pediu desculpa, ele foi demitido, mas saiu dizendo que “foi uma brincadeira”. Se você estiver lendo, amigo gerente, desculpa, ex-gerente, saiba: se você queria divertir, era melhor ter dado brinquedo.

Essa data é um feriado recente, o Dia da Consciência Negra. Eu lembro da sua criação, quando eu era ainda criança – e ganhava brinquedos. Precisei pesquisar pra saber o ano certo, é claro: 2003. Este ano, a comemoração completou seus 12 anos, vamos lá, deixou de ser criança. E parece que, como acontece com a gente, as pessoas deixaram de se importar em fazer dela um dia especial. Como toda novidade, ela “causou” no início – mas esfriou, perdeu o efeito. Nós temos uma incrível capacidade de adaptação, que por vezes funciona como capacidade de acomodação. Nem me refiro mais à data, mas ao preconceito.

É lógico que esse feriado nunca foi unânime. Sempre foi questionado, sempre foi, para algumas pessoas de consciência “negra”, uma desculpa para brincadeiras de mau gosto. Aliás nós adoramos humor “negro”. Mesmo nós, “bonzinhos”. Sem maldade, né? “É só brincadeira!”. E, sem perceber, nos tornamos instrumentos de reprodução daquilo que, no discurso, nos posts de Facebook, abominamos.

“É só uma piada, ele é meu amigo, não liga”. É triste que alguns dos nossos amigos negros não liguem. “Mas ele faz piada de branco também”. É uma pena que você ache que isso iguala as coisas. Afinal, ninguém nunca foi recusado num emprego, preso injustamente, escravizado por ser "branquelo azedo".

Dizem que toda brincadeira tem um fundo de verdade. Mas o preconceito, no Brasil, é uma verdade com um fundo de brincadeira. Isso não é humor, isso é sadismo. Você gosta de piada? Fica com essa – é velha, mas cabe bem aqui: Uma das coisas mais odiáveis do mundo começa com “pre” e termina com “to”: preconceito. 


Gustavo Cardoso Lima
Estudante de Jornalismo
Oficina de Valores

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