Por: Alessandro

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O Despertar da Força – Resenha Existencial

Como quase todas as minhas resenhas, esta também está atrasada. Deveria ter sido escrita há um bom tempo, mas diversas situações do cotidiano, incluindo dois livros que me “prenderam”, fizeram com que eu postergasse o trabalho.  Acontece que  neste caso o atraso ganha ares de alegoria: meu texto sobre o episódio sete de Star Wars demorou a sair da mesma maneira que meu gosto por Guerra nas Estrelas demorou a surgir.

Não lembro exatamente quando assisti os filmes da trilogia original pela primeira vez, mas tenho quase certeza de que foi em uma sessão da tarde da vida. Também acredito que não os tenha visto em ordem. Não sei qual vi primeiro...Assisti a segunda trilogia no cinema e, embora existisse certo hype, não fui fisgado. Star Wars só me cativou de vez depois de adulto quando, junto com minha esposa, revi “Uma Nova Esperança”, “O Império Contra-Ataca” e “O Retorno de Jedi”. Fiquei empolgadíssimo! A partir daí fui atrás do universo expandido nos livros e quadrinhos e vi que não tinha mais volta...

A saga cinematográfica criada por George Lucas possui, a meu ver,  alguns elementos que explicam seu sucesso. Devo dizer que o roteiro não é um deles. Mesmo na trilogia original, não dá para dizer que o roteiro é algo muito bem elaborado. As atuações também não são um primor. Embora eu vibre demais com Luke Skywalker e Leia Organa, não posso dizer que Mark Hamill e Carrie Fisher são grandes atores. A magia de Star Wars é gerada por uma mitologia cativante, um cenário elaborado e personagens icônicos.

Já no filme de 1977, percebemos que a luta  da Aliança Rebelde contra o Império é uma luta que se dá em dois planos. É sim uma insurreição contra a tirania, mas é também o embate entre o lado negro (ou sombrio, como queira) e o lado luminoso da força. Esses poderes são encarnados nos Siths e nos Jedis. E no decorrer da  série vamos percebendo que é o desequilíbrio metafísico que está na raiz dos males políticos.

O charme do cenário de Guerra nas Estrelas vem da combinação, bem feita a meu ver, de elementos do passado e do futuro. A frase de abertura mostra como isso é costurado: “Há muito tempo, numa galáxia muito distante”. A aventura se dá no passado, mas acontece no espaço distante. Ou seja, temos a mistura de algo retrô com ficção científica. Alguns já disseram que Star Wars é uma espécie de faroeste no espaço. Creio que não estejam muito longe da verdade.

Por fim, há os grandes personagens. Pensemos na tríade principal: Luke, Leia e Han. O herói, a princesa e o malandro. O rapaz que sonha em ter grandes aventura e que se descobre portador de um  destino grandioso. A princesa, ao mesmo tempo diplomata e guerreira. O malandro de bom coração. Isso para não mencionar Darth Vader, o vilão que é pai do herói e que antes de abraçar o lado sombrio foi um grande sinal de esperança. Alguns diriam: clichês. Eu respondo: arquétipos.

Chegamos agora ao filme mais recente. Dele é necessário dizer: todos esses elementos estão lá. A mitologia, o cenário e as personagens. A luta entre o lado luminoso e o lado sombrio permanece e continua assombrando a família Skywalker. O equilíbrio da força não veio e as coisas parecem piores do que nunca. O cenário também está lá. Inclusive, o diretor J.J. Abrams fez a opção de utilizar recursos mecânicos e não apenas computação gráfica para não romper com a proposta estética original ao mesmo tempo em que melhora a qualidade visual.

Em relação aos personagens icônicos é necessário dizer que eles são o ponto alto do filme. Tanto os antigos quanto os novos. As aparições de Han, Leia e Luke foram muito bem arquitetadas, e os personagens evoluíram (Han Solo nem tanto assim, mas ele não precisava). E mesmo os que não aparecem, como o Darth Vader e o Imperador, têm seu legado mantido. Os novos personagens também são bem interessantes. Rey, a futura Jedi, e Finn, o Stormtrooper de bom coração (e que acerta quase todos os tiros!) já caíram nas graças do público e são sucessores dignos dos rebeldes originais.

O filme, no entanto, tem vários pontos fracos. O roteiro talvez seja o pior deles. Há abuso de coincidências para fazer a história andar. Isso facilmente poderia ser resolvido de outras maneiras, o que  certa “preguiça” na hora de redigir a história. Além disso, o desejo de não errar fez com que vários dos problemas e soluções colocados na história fossem idênticos aos da trilogia original. Em vários momentos senti como se estivesse assistindo a um remake.

É interessante pensar, por exemplo, que nos primeiro filmes tivemos a Jornada do Herói de Luke Skywalker. Na segunda trilogia tivemos a jornada do vilão de Anakin Skywalker e sua transformação em Darth Vader. Nessa terceira, temos um retorno à jornada do herói. Entendo que esse foi um caminho seguro para a Disney, mas gostaria de ver uma outra história e não a mesma com outros nomes. Não é nem preciso procurar muito para encontrar Obi Wan, Darth Vader e o Imperador transmutados em outros personagens. O status do Império e da Rebelião também não sofreu praticamente nenhuma alteração com exceção dos nomes.

Esses problemas, no entanto, não afetaram o sucesso do filme. Em apenas a duas semanas, a bilheteria do filme ultrapassou 1 bilhão de dólares. Claro que isso está ligado ao marketing, Mas ele não explica tudo. Há filmes que gastam tanto ou mais em propaganda que não conseguem um quinto do sucesso. Há mais em Star Wars...

Como já apontei, há uma mitologia, uma narrativa que dá sentido metafísico à luta cotidiana. Há um cenário no qual o passado é incorporado ao futuro e o progresso não destrói a tradição. Há personagens com apelo universal. Heróis, princesas e malandros que funcionam como espelho para o que há de melhor na humanidade.

O sucesso de Star Wars vem do fato de o filme comunicar muito bem ideias e sentimentos que não conseguimos deixar de achar fundamentais. É bom que a ficção ajude a lembrar-nos daquilo que no cotidiano costumamos esquecer.


Com todos os problemas, a força despertou. Sempre que o Império contra-ataca, ela desperta e os Jedis retornam. E não há como negar, tanto no plano da crítica cinematográfica quanto no da metáfora, que isso é razão para uma nova esperança.

Alessandro Garcia
Doutorando em Sociologia - UFRJ
Fundador da Oficina de Valores

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