Por: Larissa Eira



“A prisão não são as grades, e a liberdade não é a rua; existem homens presos na rua e livres na prisão’’. (Mahatma Gandhi)

Uma filósofa contou certa vez a história de um africano de nome Kagisho, que viveu em Guiné Bissau com a família.  Durante uma guerra entre tribos rivais, Kagisho foi capturado e vendido para um senhor português que oferecera armas, pólvoras e diversos produtos em troca do africano. Kagisho foi então para o temido navio negreiro jamais se esquecendo da promessa que fizera a esposa e aos filhos de que um dia voltaria.  Passado o tempo, o africano adoeceu tamanha a tristeza que o invadiu. Morreu e foi jogado ao mar não cumprindo a promessa de retorno.

Quando li esta história, pensei na possibilidade de ser eu a vivenciar aquela época e aquele contexto, vivendo como escrava ou sendo dona deles. Mas que sorte a minha a escravidão ter sido abolida e a liberdade reinar em minha era. Que sorte a minha de não ser trocada por objetos, não ser comprada e nem usada. Que sorte não morar trancafiada em um navio sem contato com aqueles que amo (não consigo nem imaginar presenciar uma situação em que seria obrigada a nunca mais ver meus amigos e familiares). Aliás, que sorte a nossa de poder andar livremente, falar o que temos vontade, agir da maneira como bem entendemos... Isso sim é liberdade! E como dizem: "liberdade não tem preço’’. Será? (Se Kagisho tivesse dinheiro, talvez pudesse comprar sua liberdade).

Essa questão depende de como cada um interpreta e vive essa palavra em sua própria vida. Depende também do que é liberdade para cada um.

Analisando a possibilidade em que pensei, ser escrava ou ser senhora deles, não preciso me teletransportar para o passado para que isso ocorra. Ouso dizer que o meu contexto temporal não se difere muito daquela época. Por muitas das vezes sou escrava e nem percebo. Escrava de alguns senhores do meu tempo. O dinheiro é um deles, tem também a tecnologia, o vício e muitos outros. Ou pior ainda, escrava de mim mesma. Que ironia pensar que Kagisho poderia ser mais livre do que eu nesse sentido. A diferença é que a escravidão de hoje corre ao lado da liberdade, podendo a todo momento se soltar das correntes pois, diferentemente daquela época, os senhores de hoje escravizam ao ar livre aqueles que se deixam escravizar.

Um outro ponto importante é o fato da troca. No início falei da sorte que possuo por não ser trocada, não ser comprada e nem usada como os escravos eram. Esse pensamento se desfaz a partir do momento em que me vejo escrava de mim e dos senhores de meu tempo como falado acima. O objeto de troca pode ter mudado, mas eu e todos nós somos trocados sim. Trocados e substituídos na vida de alguém, usados por alguém que agiu de má fé conosco... os exemplos são muitos.  Sobre a sorte de não estar trancafiada em um navio correndo o risco de nunca mais ver os que amo (algo inimaginável para mim, como dito). Ora, que grande mentira de minha parte. Quantas foram as vezes que EU mesma me trancafiei não em um navio, mas em meu próprio quarto sem nem pensar em amigos e familiares, sem nem me importar que talvez naquele dia poderia ser a última vez que os veria...

O que percebo é o quanto nos espantamos com as atrocidades cometidas no passado, mas as vezes nem pensamos nas atrocidades cometidas por nós e contra nós mesmos. O quanto escravizar, torturar e matar um ser humano é um ato desumano. Mas e quando nós mesmos praticamos esses crimes contra nosso próprio ser? Não digo que é errado se chocar ou ficar triste por histórias como a de Kagisho, que com certeza aconteceram e foram até além em questão de sofrimento. Mas antes de nos escandalizarmos com aquela época e as barbaridades cometidas, antes de acusarmos senhores de escravos por sua crueldade, antes de termos pena de um escravo, será que não está na hora de pensarmos que talvez em nossas vidas essa realidade seja tão presente quanto naquele tempo? Será mesmo que a escravidão foi abolida? Será que somos tão livres como imaginamos ser? Será que realmente sabemos o que é liberdade? Bom, essas são questões de análise pessoal, então só me resta terminar com uma frase do Gabriel, o Pensador, que traduz essa responsabilidade individual de cada um de nós em pensarmos em como anda nossa liberdade e escravidão, sejam elas físicas ou mentais.

"Mas isso é compromisso seu, eu não vou me meter, quem vai lavar a sua mente não sou eu. É você’’.




Larissa Eira
Oficina de Valores

1 comentários:

Larissa Magrani disse...

Me impressiona o fato de você absorver os detalhes, enfatizando conceitos muito antes imagináveis e despercebidos. Amei do fundo do meu ��

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