Por: Fernando


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Dentre as várias coisas que nos diferenciam dos outros animais, uma delas é que nós - e somente nós - temos a capacidade do aprimoramento. Temos a capacidade de sermos melhores hoje do que fomos ontem e melhores amanhã do que somos hoje. Mesmo contrariando algumas forças externas, nós podemos sempre nos aprimorar.

Todo início de ano desperta em nós essa vontade de sermos melhores: "vou estudar mais, vou ser mais paciente, vou ser mais amigo, evitar desafetos..." Em boa parte de nós não são poucos os quesitos em que a gente tem vontade de mudar - quando não está bom - ou de melhorar o que está bom para ficar melhor ainda.

Existe uma reflexão que ajuda a guiar essa nossa "necessidade oculta" de aprimoramento: se temos em nós a "semente" da mudança que possa germinar, enraizar, vingar para enfim mudarmos de fato. A reflexão é mais ou menos a seguinte: Digamos que amanhã eu queira muito ser uma pessoa a sair pelo mundo numa aventura. Será que não deve existir já, bem escondido, essa "semente" e, com um pouquinho do meu esforço, essa semente germina, possibilitando que se realize as mudanças necessárias para finalmente eu sair pelo mundo numa jornada inesperada?

Uso jornada inesperada propositalmente.
Penso no conto inglês que todos conhecem, mas poucos se referem como conto: o Hobbit. Vamos à saga do Bilbo Bolseiro. Quase todos sabem que ele vivia uma vida pacata até a chegada de Gandalf e dos anões. Perturbaram-no! Mas no dia seguinte Bilbo partiu para uma jornada que ele não planejava, depois de ficar sentado tempo demais.

".... Então alguma coisa dos Túk despertou no seu íntimo, e ele (Bilbo Bolseiro) desejou ir ver as grandes montanhas, e ouvir os pinheiros e as cachoeiras, explorar as cavernas e usar uma espada ao invés de uma bengala…"

A palavra "despertou" aqui, demonstra que já havia em Bilbo a vontade de participar de uma missão solidária. Que Bilbo estava apenas em estado de torpor quando foi despertado.

A gente sabe o desenrolar da história e sentimos que Bilbo foi muito feliz por fazer o que devia ser feito, e ser feito por ele. Feliz porque estava correspondendo ao que tinha vocação para fazer e, nesse processo, feliz por "ter se encontrado". Não é facilmente possível reconhecer essa "semente" em Bilbo? Essa "semente" da aventura e da solidariedade se enraizando? De que, mesmo pequenino e de ilusória insignificância, num bucólico condado, germinava no nosso herói o desejo por grandes realizações?

Aquilo que chamamos de dons.... De vocação.... Será que realmente existem pessoas vocacionadas para determinadas tarefas e, uma vez que elas reconhecem essa vocação e mergulham nela, conseguem a felicidade? Aquilo que chamamos de "se encontrar na vida"?

Por que essa certeza que podemos sempre melhorar? E, afinal, porque temos essa necessidade? Por que nos causa tristeza, sentimento de impotência e angústia, quando não conseguimos melhorar em nenhuma aspecto, apesar de termos certeza de que o aprimoramento é sempre possível?

Poderíamos, claro, continuar como estamos. Por que é que eu sinto que tenho que ouvir mais as pessoas? Por que eu sinto que tenho que ser mais solidário? Se não existe nenhum ganho imediato, algum ganho que eu possa pegar e guardar num canto, ou postar no Facebook, porque eu sinto necessidade de melhorar? Se a melhora ou a mudança impõe esforço e sacrifício e aparentemente o ganho é nenhum.... Por quê?

Pode-se pensar assim... E dizer isso para si mesmo. Ainda assim a semente do aprimoramento não morre. A semente permanece conosco a vida toda, ainda bem! Ela pode não geminar e vingar, pode não passar de ser só um incômodo nos lembrando que podemos fazer mais e sermos melhores do que somos. Pode não dar em nada. Mas morrer, a semente não morre.

Pode também enraizar e florescer. Um tanto piegas escrever isso, mas não encontrei metáfora melhor. Podemos dar voz a essa "convocação" de aprimoramento constante em nós e colocarmos na prática ao fazer o que devemos fazer.

Uma coisa é certa: quando mais a gente melhora, quando mais a gente se aprimora, mais a gente se encontra. De novo, aquela coisa antiga de "saber nosso lugar no mundo", sabe? Individualmente, existem vocações diferenciadas. Ainda bem! Fossemos todos vocacionados para uma só tarefa esse mundo estava perdido! Mas existem certas convocações que atingem a todos: uma delas - antiga, sempre precisando relembrar - é amar.

Qualquer um sente que precisa amar e que isso vai trazer aprimoramento e felicidade. O sujeito que vive a vida cheio de rancor e ódio, vai ter problemas cedo cedo, porque não está em sintonia com aquilo a que está convocado e vocacionado. Já a pessoa que reconhecer isso e se entregar a essa convocação estará no caminho certo, ao encontro daquilo que ela essencialmente é.

"Se dentro de ti está o amor, nenhuma outra coisa senão o bem poderá sair de tal raiz" (Santo Agostinho).

Um 2016 com jornadas inesperadas, aprimoramento e de nos encontrar com aquilo que somos.



Fernando Duarte
Professor de História / Oficina de Valores

1 comentários:

Lu disse...

Belo texto para se iniciar o ano, com boas reflexões sobre a nossa vocação!

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