Por: Alessandro



Vez por outra incorporamos, em nossa língua, palavras e expressões de origem inglesa. Algumas fazem parte apenas do jargão técnico de alguma profissão ou do vocabulário de um pequeno grupo. Outras ultrapassam as barreiras dos guetos culturais e tornam-se quase tão nossas quanto dos que as “inventaram”. Uma recente aquisição à nossa linguagem cotidiana é SPOILER. A incorporação foi tão plena que quando coloquei a palavra do Google tradutor a fim de encontrar seu equivalente em português, sabem o que encontrei? Spoiler.

Antes utilizado apenas por alguns grupos de fãs, o vocábulo spoiler é pronunciado em filas de ônibus, mesas de bar, bilheterias de cinema, salas de aula. E em boa parte das vezes em que é pronunciado carrega o significado de tabu, de coisa proibida. Não é possível mencionar a palavra sem lembrar-se de situações curiosas, como pessoas tapando os ouvidos e saindo às presas de uma sala. Ou então de brigas homéricas. Enfim, parece que o tal do spoiler carrega o potencial de causar fortes reações emocionais.

Apesar de não ser lá tão necessária, uma pequena explicação do significado da palavra pode ajudar (vai que, desafiando todas as probabilidades, algum leitor o desconheça). A palavra spoiler é derivada de um verbo que significa estragar. Dar um spoiler quer dizer simplesmente dar uma informação que estraga a surpresa de quem ainda não a assistiu/leu/ouviu uma história.

Spoilers sempre aconteceram. E sempre houve aqueles que lutaram contra eles. Quando o diretor Alfred Hitchcock decidiu adaptar o livro Psicose para o cinema, ele mandou que comprassem todos os exemplares que ainda estavam nas livrarias e apareceu em cadeia nacional solicitando que ninguém contasse o final do livro (que seria o final do filme) àqueles que ainda não haviam lido.

Eu mesmo já vivi ao menos três situações bastante emblemáticas. Quando o primeiro filme de O Senhor dos Anéis estreou, eu ainda estava lendo o primeiro livro dessa série. Fui à segunda sessão do primeiro dia de exibição. Enquanto estava na fila, ouvi duas pessoas que saíam da primeira sessão comentando sobre a morte de um personagem bastante importante. Outra vez, ao voltar do Rio de Janeiro para Petrópolis sentei ao lado de um senhor que gostava muito de filmes de suspense e terror e que fez questão de contar o final de Os Outros (quem assistiu o filme sabe que o final é o que dá graça à história). Também soube do mistério principal de O Clube da Luta antes de assistir...

Acontece que todas essas minhas situações não estão ligadas à boa parte das brigas por causa de spoilers que ocorrem por aí. Todas as informações que recebi foram passadas por pessoas que estavam no mesmo ambiente que eu. E embora o senhor do ônibus tenha sido um pouco descuidado, a coisa poderia ter sido facilmente evitada. Hoje, o grande drama vem das redes sociais. Basta entrar no Twitter ou no Facebook para estar exposto a spoilers que não conseguimos evitar. Basta que um conhecido tenha visto e ficado empolgado com um filme para que um resumo de todas as reviravoltas apareça nos feeds e timelines.

Esses spoilers virtuais geram uma polarização que pode parecer (e por vezes é) ridícula, mas que revela algo sobre nossas condutas nessa época digital. De um lado estão aqueles que dizem que “eu posto o que quiser.  Se está incomodado é só deixar de me seguir”. De outro lado estão aqueles que colocam as pessoas que postam spoilers como grandes egoístas mimados, que só querem aparecer. Há verdades em ambos os lados. Há também exageros nos dois grupos.

Comecemos pelos estragadores da surpresa alheia. Existem aqueles que fazem isso por um prazer sádico. Fazem apenas porque sabem que os outros ficarão incomodados. Estes dirão que “o choro é livre” e falarão do “mimimi” daqueles que reclamam. Não vou dizer que essa é uma postura infantil porque isso seria ofender as crianças, mas não posso deixar de mencionar que essa tentativa de chamar a atenção não é saudável. Não é equivocado supor que é uma carência exagerada que move a postura desses colecionadores de haters. Há também os que dão spoilers por julgarem que não há nada de mal. Fazem porque querem conversar sobre o filme que viram e julgam terem o direito de fazê-lo.

Creio que tantos os estragadores de surpresa quanto os comentadores inocentes fazem parte de um movimento que é mais amplo. As redes sociais, com todo o bem que trazem, foram fundamentais para a criação de uma cultura do exibicionismo. E nessa cultura, "ser" significa ser visto. Mostrar o que se faz tornou-se parte importante daquilo que está sendo feito. Claro que compartilhar uma foto de viagem com os amigos ou comentar um filme não é um mal. O problema começa quando isso se torna um imperativo, um imperativo inconsciente. 

Vários spoilers são consequência desse imperativo de mostrar-se.  Ao sair de um filme, ao terminar um livro ou o episódio de uma série, a primeira coisa que vem a cabeça é postar.  Esse movimento não acontece só com essas coisas, mas com diversas outras. Nesse contexto, o spoiler contemporâneo é apenas um sintoma de um estilo de vida muito mais amplo e que possui problemas muito maiores. Ah... E a grande maioria dos que reclamam dos spoilers alimenta essa cultura do exibicionismo . 

Voltemo-nos agora para as vítimas, para aqueles que têm a surpresa estragada. Convém admitir que ter um lazer prejudicado não é algo bom. Realmente gera certa irritação. O que gostaria de pensar é sobre o tamanho dessa irritação e se ela corresponde àquilo que foi estragado.

Dificilmente uma história bem executada é estragada por um spoiler. A forma como uma situação é desenvolvida é tão (ou mais) importante que aquilo que acontece. Um pequeno exemplo: eu posso dizer, ao comentar sobre Dom Casmurro, que Bentinho julgará que Capitu o traiu e que não dá para ter certeza se houve ou não a tal traição. Ainda assim, o prazer de quem tomar a excelente decisão de ler Dom Casmurro não será prejudicado, afinal ninguém é capaz de contar a história como Machado de Assis a contou. Uma grande história, seja contada em vídeo, áudio ou papel, ao ser terminada, faz com que tenhamos o desejo de “ouvi-la” novamente.

Tá certo que nem todos os filmes e séries que assistimos são obras primas e há sim alguns que são resumidos à reviravolta final (acima dei o exemplo de Os Outros). Mesmo assim vale pensar se a raiva e a revolta sentidas em relação ao spoiler são saudáveis. Se o spoiler é fruto de uma cultura do exibicionismo, a angústia exagerada em relação a ele decorre de uma cultura que torna o entretenimento o centro da vida.  Quantos e quantos têm nas séries de TV o eixo estruturante de seu tempo... Para estes, a ficção torna-se uma substituta para a vida real quando deveria ser um componente a mais no todo da vida. Claro que quando o estilo de vida é esse, o spoiler torna-se uma grande ameaça à felicidade. Felicidade que talvez seja tão fictícia quanto as histórias tão fielmente acompanhadas.



Alessandro Garcia
Doutorando em sociologia
Fundador da Oficina de Valores

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