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Um dos caminhos mais fáceis para encontrar bons filmes e bons diretores que fujam um pouco do estilo hollywoodiano de fazer cinema é utilizar-se da própria Hollywood, ou seja, desbravar o que sua maior premiação tem a oferecer por meio da categoria de melhor filme estrangeiro. Mesmo que nem todos os filmes vencedores sejam lá uma grande oportunidade de ampliar os horizontes cinematográficos, certamente alguns vencedores e finalistas na história desse prêmio nos trazem muitos bons filmes que precisam ser vistos.

Nesse domingo acontece a cerimônia de premiação do Oscar 2016. Os finalistas a melhor filme estrangeiro desse ano contam com:

O Abraço da Serpente 
Colômbia.
Diretor: Ciro Guerra.
Filho de Saul 
Hungria.
Diretor: Laszlo Nemes.




Theeb
Jordânia.
Diretor: Naji Abu Nowar.




Cinco Graças
França.
Diretora: Deniz Gamze Ergüven.



A War
Dinamarca.
Diretor: Tobias Lindholm.





O Oscar de melhor filme estrangeiro acontece desde 1957 e, ao analisar sua história, um dos interesses óbvios é sua distribuição por países ao longo desses quase 70 anos de existência. A Itália é a maior vencedora com 11 prêmios e muitas outras disputas em finais. Fazendo alguma força a França também poderia estar com suas 11 estatuetas, contudo, a história desse prêmio pode contar mais que a trajetória de cineastas que têm em mãos roteiro, câmeras e atores. Ele pode nos falar, por exemplo, do colonialismo francês em países como Argélia (terra do lendário jogador da seleção francesa, Zidane) e Costa do Marfim.

Em 1970 o diretor francês Costa-Gavras foi indicado por seu filme "Z" nas categorias de melhor filme estrangeiro e melhor filme. Pela primeira vez na história um filme concorreu em ambas as categorias, façanha que foi repetida somente mais duas vezes ("A vida é bela", um clássico italiano do genial Roberto Benigni, que atuou e dirigiu; e "O tigre e o dragão", do diretor taiwanês Ang Lee). O filme ganhou o prêmio de melhor filme estrangeiro e apesar do diretor ser francês, a produção ser franco-argelina, a língua oficial e os atores serem franceses, na contagem oficial da Academia o país vencedor é a Argélia, que já havia travado sua guerra de independência e se libertado da França em 1962. Mas é possível perceber a influência francesa nesse país até hoje, inclusive no que se refere à produção cinematográfica.

Apesar de todos os elementos apontados, essa contagem faz algum sentido! A França teve outro filme indicado no mesmo ano, "Ma Nuit chez Maud". E, segundo as regras da premiação, cada país deve indicar apenas um filme representante para concorrer ao prêmio, ou seja, de fato, o filme é argelino, no mínimo pelos termos da competição.


O mesmo ocorreu com a produção "La Victoire en Chantant": com diretor francês, rodado na língua do diretor e dos atores, também em sua maioria franceses (alguns eram alemães). No fim das contas o prêmio foi para a Costa do Marfim. Mesma situação: a França competiu com outro filme no mesmo ano, mas perdeu.


Dos sul-americanos somente o cinema Argentino já foi premiado com a estatueta de melhor filme estrangeiro: em 1986 foi premiado pelo filme "La Historia Oficial" de  Luis Puenzo e em 2010 com um belo filme do diretor Juan José Campanella, "El Secreto de sus Ojos".

Campanella é um dos diretores de um cinema Argentino mais recente, forte e cheio de qualidades. Uma das figuras representativas desse momento é o ator que protagonizou o filme vencedor do prêmio no ano de 2010 e outros tantos filmes de Campanella, Ricardo Darín. Em 2002, por exemplo, a dupla Darín e Campanella já figurava entre os finalistas de melhor filme estrangeiro com o divertidíssimo e sensível "O filho da noiva", mas não levaram o premio.

No ano passado mais uma indicação dos "hermanos" chegou entre os finalistas. "Relatos Selvagens" (Damián Szifrón) é mais que digno de nota, é um filmaço!!!  E chegou à finalíssima como um dos mais cotados ao título junto com "Leviatã" (Rússia). No final, nem um, nem outro, quem levou foi "Ida", do polonês Paweł Pawlikowski que conta a história de uma noviça católica de origem judaica em um dos países da "Cortina de Ferro", a Polônia. Antes de fazer seus votos ela precisa encontrar sua tia, uma funcionária pública que presta serviços ao "povo" através de sua defesa do Partido Comunista Polonês. A vitória de "Ida" é justa, mas em nada tira o mérito de "Relatos Selvagens" com sua violência e humor muito bem trabalhados dentro de um timing perfeito.


Relatos Selvagens (2014)
Em 1999 "Central do Brasil" e a atuação de Fernanda Montenegro foram tratados como a grande esperança nacional para quebrar o jejum de desde sempre. Nesse mesmo ano outro Argentino também estava entre os finalistas "Tango, no me Dejes Nunca". Mais dois filmes completam a lista de películas argentinas que chegaram à finalíssima do prêmio: "La Tregua" de Sergio Renán, concorrendo em 1975, e "Camila", de María Luisa Bemberg, finalista em 1985.

A Argentina já não parece ser mais um centro "alternativo" de cinema, ou melhor, já não é surpresa pra ninguém a qualidade dos filmes que surgem de lá. E outro centro um pouco mais recente e "alternativo" é o Irã, com alguns bons filmes de pegada realista, marcados pela crítica social e muitas vezes com um cinema profundamente artístico que surpreendeu o mundo com sua produção recente. Em 2012 "A Separação" levou a premiação e coroou o país que já havia sido indicado com grandes esperanças de vitória em 1999 com o filme "Filhos do Paraíso", que conta uma história simples, com premissa ainda mais simples (um menininho iraniano que perde o sapato de sua irmã mais nova), mas com uma capacidade surpreendente de demonstrar como um drama singelo como a perda de um sapato pode abrir um universo comovente.

Países que já ganharam o Oscar (por continentes):









Breno Rabello
Mestrando em sociologia
Oficina de Valores

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