Por: Thales





Dizem que o apêndice é feito para adoecer. Que as únicas coisas para as quais ele serve é causar dor e dar trabalho. Não sei direito para o que de bom ele é útil, mas sei muito bem como é aguda a dor da apendicite. Os sisos, que prometem trazer consigo o juízo, trazem, na verdade, problemas. Minha vida piorou significativamente quando, aos quinze anos, tive que remover os quatro dentes em uma longa e dolorosa cirurgia, e depois ainda sofrer uma longa e dolorosa recuperação.

Mas, nesse cálculo da utilidade, por vezes fico convencido de que o coração é o mais deplorável dos órgãos.

É bem verdade que ele tem o nobre encargo de fazer com que o sangue chegue nas diversas extremidades do nosso corpo. Mas a função que desde a antiguidade é considerada como a mais importante sob a responsabilidade do coração é a de ser morada dos sentimentos e afetos. É o coração que se alegra, que fica ansioso, que se apaixona...

Acontece que, na minha experiência pessoal, os sentimentos positivos são muito mais espalhados por todo o corpo, enquanto os negativos parecem concentrar-se exclusivamente no coração. Se estou contente, quando por exemplo encontro alguém que parece ser muito interessante, meus membros se tornam mais dispostos, meu rosto se torna radiante, minha mente acelera e fico muito mais propenso a pensar e falar coisas bonitas e engraçadas. Tenho orgulho de mostrar para o mundo inteiro, inclusive para mim mesmo, que tudo é belo, que tudo vai ter um final feliz, que aquele é o melhor dia da minha vida.

Porém, se estou triste, quando por exemplo esta pessoa vai embora depois de me cativar, então se estabelece em meu corpo e minha mente uma ordem de silêncio. A vida precisa continuar. As pessoas não podem descobrir o quão sombrio está meu temperamento. Meus membros têm que mostrar que ainda assim estão dispostos. Meu sorriso tem que forçosamente abrir-se. E minha mente, mesmo ao revirar-se e contorcer-se em torno do objeto de minha tristeza, ordena que minhas palavras sejam belas e engraçadas (quase) como de costume. Ninguém pode desconfiar -- nem eu mesmo -- de que aquele é o dia mais triste da minha vida.

O coração, entretanto, comporta-se como um rebelde. Recusa-se a abrir mão daquele sentimento de vácuo, de vazio. Agarra-se aos mínimos detalhes daquela tristeza, como se quisesse saboreá-la minuciosamente e, com requintes de crueldade, afundá-la cada vez mais no abismo de si mesmo.

Pergunto-me o porquê deste comportamento tão vicioso. Talvez seja o coração um revolucionário, que se revolta contra a ditadura da aparência, e que luta a todo custo para que eu seja autêntico comigo mesmo, para que eu me entregue totalmente àquilo que sinto. Talvez seja o coração um nobre herói, que assume para si a responsabilidade de sofrer sozinho e permite ao resto do corpo aliviar-se no refúgio de uma farsa.

Qualquer que seja a motivação por trás do comportamento tão peculiar deste órgão, o que o torna verdadeiramente desprezível é a ironia que se encerra no fato dele ser tão indispensável para a vida humana. Quando o apêndice me doeu, eu o removi, e agora ele não dói mais. Quando o siso me incomodou, eu o retirei, e agora ele não incomoda mais.

Quando o coração faz direito sua tarefa de enterrar nas profundezas de si mesmo as angústias e tristezas da minha vida, ele machuca. Quando o coração machuca, a única coisa que quero é arrancá-lo para fora. Dá até para pensar que o coração despreza a tarefa de manter a vida humana. Que a vitória do coração é o suicídio...

Mas eu prefiro acreditar que o que acontece de fato é que o coração simplesmente se ofende na presença da tristeza. O coração é o último guardião de uma verdade que o resto do homem se esqueceu: nós nascemos para a felicidade. E é também a única parte do homem que é inteiramente avessa à mentira. Ele não é capaz de fingir, porque sua tarefa não é apenas amar de verdade. O coração encerra em si ainda um outro anseio humano, essencial, primário: o de amar a verdade.

É necessário crer que a profundidade da dor que o coração solenemente observa é o prelúdio às avessas da felicidade que aguarda os homens que possuem a coragem de sofrer por ela.



Thales Bittencourt
Doutorando em Filosofia
Oficina de Valores

3 comentários:

Yuri Tesch disse...

Esse foi o melhor texto que já li no blog. Profundo, reflexivo e de uma estilística sem igual, parabéns ao autor!

Dayana. disse...

Parabéns oficina, parabéns ao autor Thales Bittencourt que só conheço de vista e de algumas pregações. :)
Achei o texto formidável, as analogias ficaram muito boas e a profundidade das reflexões a que ele vai nos levando então, sem palavras. Que inspiração! Que Deus continue abençoando essa obra tão bonita que é a Oficina de Valores! Um grande abraço a todos, fiquem com Deus.

Cardiologia disse...

Muito bom o texto, gostei muito. Recomendo a leitura à todos.

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