Por: Laura Mendes




Os momentos em que indaguei a vontade de Deus


Já parou para perceber que nos indagamos sobre a existência de Jesus e de seus milagres quando estamos sofrendo? O momento em que era para nos apegarmos mais ao Senhor é o momento em que as dúvidas nos enchem e fazem com que percamos a fé.

E, nos meus 21 anos, eu experimentei dois momentos de perda da fé. Sempre católica, participo da Igreja desde muito cedo, meus pais me levavam à missa, aos encontros de casais de que participavam e aos grupos de oração, onde, confesso, ia só pelo lanche oferecido ao final. Com isso, minha realidade sempre foi estar presente na Igreja. Fui batizada, recebi a primeira Comunhão e a Crisma. Apesar disso tudo, o meu mergulho foi só em 2010, depois do convite para o retiro de carnaval da Oficina.

Com isso, aos 15 anos, imergi no mundo cristão, suas doutrinas e ensinamentos. Fazia cada vez mais encontros, ia me convertendo através de cada experiência e degraus em que ia subindo. Ao ouvir, “Eu sou o bom pastor, ouça somente a minha voz” – com essa frase e várias outras que ouvi ao longo da minha caminhada – fui firmando a decisão de que era na Igreja que queria ficar.

Apesar de tudo que aprendi e vivi, ainda não estava completa. Sendo assim, fui buscar fora o que estava dentro, como fala Santo Agostinho. E a partir desse momento que tudo começou a desandar. Comecei a não rezar, não ir mais aos grupos que frequentava, indo somente na missa aos domingos.

E assim tudo veio à tona, minhas angústias, meus medos, a minha falta de fé. Esse momento aconteceu em 2013, no dia 10 de junho, três dias antes do meu aniversário. Estava indo trabalhar e no ônibus o meu celular tocou, era minha cunhada, esposa do meu irmão mais velho, filho apenas de meu pai. E o que ouvi naquele telefonema, a primeira notícia do dia, já me estremeceu e me fez desesperar. Meu irmão, que era soldador, havia caído do telhado de um galpão em que trabalhava, uma altura de 12 metros. Neste primeiro momento, a informação que eu tinha era de que ele havia sido levado para o hospital e que não estava nada bem, mas vivo. As esperanças que eu tinha, depositei todas naquela frase que dizia que ele ainda estava vivo. Segunda ligação, mais ou menos 30 minutos depois da primeira, minha cunhada avisou que meu irmão não resistiu e veio a falecer. No momento eu só queria ser a primeira a avisar meu pai, avisar de uma forma que ele não se sentisse desolado e o fizesse pensar que ele tinha a família ao lado dele.

E foi nessa situação, mais precisamente no velório do meu irmão, um homem de apenas 36 anos, que deixou esposa e três filhos, com idades entre 8 e 13 anos, que parei e pensei: por que Deus faria uma coisa dessas? Por que tirar a vida de alguém tão cedo e que vai deixar três crianças à mercê do mundo? Sim, eu fiquei com raiva de Deus, mas sabe por que fiz isso? Porque eu não estava ligada diretamente a ele, não estava rezando e ainda não sabia que os planos dele são diferentes dos nossos. Se meu irmão tivesse sobrevivido, será que o sofrimento dele não poderia ter sido maior? Não se sabe. Mas meu egoísmo falou mais alto naquele dia e eu não pude ver a Deus. Hoje ganhamos mais integrantes na família e fazemos o possível para que nada falte aos meus sobrinhos. E claro que perder alguém nunca é fácil, mas eu tento enxergar que os planos de Deus são melhores do que aquilo que eu queria que tivesse acontecido.

E mais uma vez, ano passado, há mais ou menos 4 meses, me peguei mais uma vez indagando o porquê das vontades de Jesus. Mais uma vez Ele veio, através do meu pai, testar o quanto eu tinha aprendido e qual seria a minha reação diante de mais um desafio da minha vida. No dia 11 de setembro meu pai começou a passar mal e foi levado para o Hospital Universitário, mais conhecido como Hospital do Fundão, no Rio de Janeiro. E mais uma vez quem recebeu a ligação fui eu. Era minha mãe, ligando para avisar que meu pai havia enfartado e estava em coma. Seu caso era gravíssimo, e só um milagre o salvaria. Na mesa de cateterismo, meu pai teve uma parada cardíaca de oito minutos (segundo os médicos o normal é de até 60 segundos). Foi então que meu mundo caiu e me vi mais uma vez desamparada e perdendo mais uma pessoa. Questionei minha fé novamente e dessa vez tive resposta. A resposta que eu tive veio ao longo de mais ou menos três semanas, período em que meu pai ficou no hospital. Todos os médicos falavam que se tivéssemos uma religião, que era hora de recorrer. E foi o que eu fiz, ao invés de querer mudar os planos de Deus, eu me juntei a Ele e rezei. Pedi para que ele não me tirasse meu pai, que ainda tínhamos muito que viver, que ele ainda tem que entrar comigo na igreja e ter a oportunidade de ser avô mais uma vez. E, como Deus não nos desampara, Ele me atendeu. Quatro dias após o infarto e o coma meu pai acordou, e sem nenhuma sequela. Mais um milagre, pois ficar oito minutos em parada sem sequela é ação de Deus. Sempre paro e penso: e se os médicos tivessem parado de tentar reanimá-lo? E se eles, assim como eu, tivessem perdido a fé? Mas, graças a Deus, mesmo muitos daqueles médicos não tendo nenhuma religião, eles acreditaram que meu pai tinha que viver mais.

E hoje eu sei que os planos de Deus nem sempre são o que queremos na hora que queremos. Precisamos viver o Kairós, o tempo Deus, e aguardar para o melhor que Ele tem reservado para cada um de nós.


Laura Mendes
Estudante de Jornalismo

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