Por: Rhangel





É inegável a transformação da sociedade, principalmente, observando o curso do nosso século. Mudanças tecnológicas, logísticas e educacionais modificaram o nosso jeito de viver e conviver: se estamos aqui, queremos sair; se queremos sair, como queremos? Quando chegamos, o que tem pra fazer? Nessa lógica, não se pode deixar de falar das escolhas que fazemos, como as julgamos e qual é o seu fim. Hoje, existem muitas possibilidades de transição, porém o óbvio, e talvez não muito claro para alguns, é que essas mudanças externas nos mudaram internamente. Enfim, desejo fazer uma análise simbólica das nossas relações humanas por meio das novas tecnologias.

O avanço tecnológico, evidentemente, vem destruindo e reconstruindo cenários todos os dias: seja nas casas luxuosas que se tornam condomínios com piscinas, caixas eletrônicos, escolas, seja no interior de uma casa simples que, possivelmente, se torna ainda mais pobre e inacabada (se comparada com esses condomínios), isso, caso essas moradias continuem existindo.

Além disso, claro, todas as relações de trabalho: ir e vir, quais horas trabalharemos, se teremos alguma ocupação nesse mundo, são afetadas também. Como essas mudanças têm um custo social, ambiental e urbano, é preciso pensar ainda em algumas ‘facilidades’: integração dos meios de transporte, amplitude de horários ou mesmo um ar-condicionado, por exemplo. A partir dessa pressão do mundo moderno, decisões são tomadas, já que cada um quer o melhor para si. Esse individualismo, aparentemente normal e saudável, alimenta um novo jeito de pensar família, trabalho, escolarização, relacionamentos.

Pensando ainda como as inovações nos servem, o fone de ouvido é um ‘micro’ desse universo, uma vez que é uma forma nova de conviver com as pessoas a partir das nossas opções. É a criação de um espaço “independente”, onde eu escolho o que quero pra mim, o que de preferência envolve não incomodar o outro com o que estou ouvindo. Nessa bizarra transformação que estamos passando, talvez tudo o que se queira é, simplesmente, escolher sem incomodar. E o problema mora justamente ai!

O espaço pessoal é importantíssimo, claro, pois ele é que permite o florescimento da nossa personalidade, nossas contribuições individuais para o mundo. Porém, sabendo da existência de muitas pressões sobre nós, como: definição profissional, contas a pagar, sonhos, projetos; o que estamos fazendo, contraditoriamente, é nos abandonar, é nos desvencilhar de relações muito importantes (familiares, por exemplo).

Não estou ignorando o cenário político, nem mesmo as nossas aspirações pessoais tão importantes. Contudo, a seleção de público, de convivência, está nos deixando mais egoístas e mais coniventes com homens e mulheres morando na rua, por exemplo. Esses nossos isolamentos têm cooperado para que não nos esforcemos em conviver, em nos reconciliar. E para onde caminhamos assim? Todos moramos em um mesmo lugar e, ainda que as vezes neguemos, queremos viver com o ser humano. Não menciono, por hora, questões relacionadas à política, mas sim ao nosso subjetivo, individual e coletivo, que se machuca cada vez mais por essa falta de convivência.

Claro que os primeiros exemplos apresentados (condomínios, ar-condicionado e fone de ouvido) são muito mais críticos socialmente, mas os três são formas de selecionar onde morar, onde trabalhar e o que ouvir. Todos, em alguma escala, tratam de um isolamento que foi desejado para cumprir a nossa vontade. Porém, a grande questão é: só escolher o que se quer, implica em talvez nem olhar pras pessoas que nos cercam ou seus problemas e aflições. Termino o texto com o trecho da música "Legado", da Banda Scalene: “Tanto quero, tanto busco/ Mas quando acabar, o que deixo?/ Meu legado foi manchado por não ver além do que eu quis.”.



Rhangel Carvalho
Estudante de Comunicação

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