Por: Diego



Não há dúvidas que, para os fãs de cinema, a cerimônia de premiação do Oscar é o evento mais aguardado do ano. Este ano não foi diferente, afinal grandes produções como O Regresso, Mad Max, O Quarto de Jack, entre outros, concorreram nas principais categorias. Poderíamos destacar como o ponto alto da noite a tão aguardada premiação de Leonardo DiCaprio (julgo eu que merecida) com o Oscar de melhor ator. E na categoria de melhor filme, para a surpresa de alguns críticos, quem levou a estatueta foi Spotlight, filme que conta a história da equipe jornalística que investigou casos de abuso de menores cometido por padres nos Estados Unidos.

Faço coro àqueles que elogiaram o filme. Sem inventar moda, ele retrata o dia a dia dos jornalistas da equipe Spotlight (holofote, em inglês), responsável por investigar casos de corrupção para o jornal americano Boston Globe. Com a entrada de um novo editor, os jornalistas da Spotlight são instigados a aprofundar em casos de padres que eram acusados por abuso de crianças e adolescentes, mas não eram punidos, apenas transferidos de local. Com o tempo, os jornalistas vão descobrindo que os casos são muito mais numerosos que aparentam.

O filme tem muitos pontos altos, mas vale ressaltar que o drama dos jornalistas ao se depararem com as denuncias é muito bem representado. Junto à indignação contra os crimes, há também um sentimento forte de decepção. Em uma cena, o jornalista Michael Rezendes (representado pelo versátil Mark Ruffalo, que concorreu a um Oscar pelo papel) conversa com a colega Sacha (Rachel McAdams) e comenta, frustrado, que embora tenha se afastado da fé na juventude, sempre teve a impressão de que um dia voltaria a ela.

Se os investigadores sofrem com essa experiência, o depoimento das vítimas demonstra uma situação ainda mais delicada. “Dizem que é apenas abuso físico, mas é mais do que isso. É um abuso espiritual”, diz uma das vítimas ao longo do filme. A maioria delas provém de famílias pobres, com problemas familiares (órfãos, pais divorciados, alguns presos), que viam nos religiosos ajuda e refúgio. E uma das cenas mais fortes do filme, quando um jovem é entrevistado e o jornalista pergunta “por que você aceitou a violência?”, ele responde “por que quando um padre falava, era como se Deus falasse".

É revoltante ver como os agressores (nesse caso “homens de Deus”) se aproveitaram da confiança para cometer os abusos e sair impunes. Dados da justiça dos Estados Unidos apontam que aproximadamente 74% de todos os abusos de menores (não só por religiosos) foram provocados por conhecidos das vítimas. A maior parte (de 20% a 30%) é formada por familiares, outros incluem vizinhos, educadores, amigos... E devido a essa proximidade, muitos dos casos não são denunciados às autoridades. “Vergonha e culpa”, é como descreve os sentimentos um dos jovens que manteve o caso em segredo.

O filme, como qualquer adaptação (e que possui limite de tempo), apresenta também algumas limitações. O lado psicológico dos agressores é explorado poucas vezes ao longo do filme (numa delas, um religioso afastado revela ter sofrido abuso quando criança). Em contrapartida dá um espaço maior para o questionamento do porquê desses religiosos não terem sido punidos, e sim transferidos para outras localidades. E Spotlight apresenta o problema como não sendo exclusivo da Igreja, mas da sociedade em geral. Parece haver uma “vergonha social” em admitir os casos, não importa onde tenham surgido.

É um problema que não existe só no clero, mas também entre a justiça, políticos, mídia, comunidades. No filme, um editor do jornal admite que recebera denúncias havia anos, mas que nunca levara a fundo as investigações. Também um personagem coloca “se é preciso uma cidade para criar uma criança, também é preciso uma cidade para abusar de uma”.

Talvez se aplique aos Estados Unidos o mesmo que à Irlanda, sobre a qual comentou o então arcebispo de Dublin a Bento XVI sobre os casos de abuso naquele país. “A partir da metade da década de 1960 [...], na Igreja, dominava a convicção de que a Igreja não devia ser uma Igreja de direito, mas uma Igreja do amor; que não devia punir. Destarte, apagou-se a consciência de que a punição pode ser um ato de amor”. Isso virou motivo para colocar em segundo plano o bem estar das vítimas, dando maior importância para a imagem da Igreja local.

Uma cena, porém, me parece resumir toda a essência do filme. Num encontro, logo no início, do novo editor com o então cardeal e arcebispo de Boston, o religioso comenta: “A cidade floresce quando as grandes instituições trabalham juntas”. E o jornalista responde que prefere a mídia trabalhando de forma independente. Não deve haver cumplicidade, acobertamento, “troca de favores”.

Mas vejo que essa frase pode também ser interpretada de uma forma positiva: quando as instituições trabalham juntas em prol da verdade, a humanidade tem muito a ganhar. A partir da década de 1990, o Papa João Paulo II, tomando conta da dimensão do problema, iniciou uma série de esforços para combater os casos da pedofilia na Igreja. Contava com a ajuda do então Cardeal Ratzinger, que mais tarde continuaria os esforços como Papa Bento XVI. E nenhum esforço teria ido tão longe sem a ajuda de uma investigação séria da mídia.

Hoje, as normas para o tratamento desses casos na Igreja são muito mais rígidas, e há uma série de esforços para erradicar o problema. Em Boston, por exemplo, após os casos revelados pela Spotlight, a arquidiocese foi assumida por Sean O’Malley (bispo que já era conhecido nos EUA por “fazer a limpa” nas dioceses em que havia passado). Lá as crianças recebem educação de como denunciar abusos (de qualquer origem) e, em vários lugares do mundo, seminaristas e padres passaram a ter acompanhamento psicológico nos seus anos de formação. Também se soma a isso um maior compromisso de envolvimento e colaboração com as autoridades civis, além do esforço (no qual está muito envolvido o Papa Francisco) para que essas medidas sejam adotadas em toda a Igreja.

“Este não é um problema Católico ou mesmo um problema clerical. É um problema humano”, disse o Cardeal O’Malley discursando para outros cardeais sobre a política de transparência e tolerância zero aos casos de pedofilia. Vitimas são feitas também em colégios, hospitais, equipes esportivas, nas próprias famílias. E os danos em cada uma são enormes, como bem apresentados no filme.

A política de tratamento às vítimas, punição da justiça e prevenção de novos casos deve contar com cada vez mais empenho. Não só da Igreja, mas de todos os setores da sociedade onde existam crianças e adolescentes vulneráveis. E se Spotlight ajudar a prevenir mesmo que um só caso de pedofilia, terá feito algo muito maior que ganhar o Oscar de melhor filme.


Diego Gonzalez
Estudante de Engenharia de Controle e Automação

1 comentários:

Valeria L. disse...

Adorei esse filme. Este é um filme realmente poderoso, história e, especialmente, as performances são incrível elenco, Liev Schreiber, por exemplo, que aqui desempenha um editor recém-nomeado, um personagem muito diferente que ele joga em Ray Donovan. Nesta série interpreta um personagem centrado, frio e encarregado de organizar cenas e corpos crime desaparecer, é certamente um grande desempenho

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