Por: Nathalia


Há um mês assisti “O Quarto de Jack”. Há um mês me pego pensando nas questões levantadas pelo filme. Não aguentei e escrevi esse texto com alguns spoilers.

Como o nome original sugere (“Room”), a maior parte da história se passa dentro de um quarto. A personagem de Brie Larson – ganhadora do Oscar de melhor atriz - foi sequestrada por um homem apelidado “Velho Nick”, com quem teve um filho, e foi mantida em cativeiro por mais de sete anos. O filme tem início quando Jack (o adorável Jacob Tremblay) completa cinco anos.

A história é impactante por si só. Infelizmente casos como esse são reais. E o filme – adaptação do livro da escritora Emma Donoghue - cumpre o seu papel social: faz refletir sobre a crueldade ou insanidade que alguém é capaz de chegar e sobre os estragos na vida de todos os envolvidos em uma tragédia como essa. Mas a grande sacada do filme está na forma como a história é contada.

Ao indicá-lo para alguns amigos, recebi como resposta: “que história macabra, não tenho vontade de assistir”. Um pouco de violência e sofrimento não podiam ficar de fora, obviamente, mas são coadjuvantes. O diretor (Lenny Abrahamson), em parceria com a autora, buscaram construir uma história que fosse além e levantasse questões existenciais: “O que conhecemos sobre o mundo?”, “ Quais são as prisões que nos encontramos?”, “Quão doloroso pode ser o processo de libertação de um cativeiro?”, “Quão difícil é aceitar uma mudança?”.

Jack tem apenas cinco anos. Não conhece a realidade, acredita que o mundo se resume ao galpão em que é mantido em cativeiro - que ele nem ao menos imagina que é um cativeiro, ou o que é um cativeiro. Para ele o quarto é tudo o que existe. A mãe, enxergando poucas chances de sobrevivência e nenhuma qualidade de vida, elabora um plano para que Jack se liberte e conheça o mundo. 

Em determinado momento, ela tenta mostrar para o menino que o aniversário de cinco anos traz uma grande responsabilidade: ele já pode saber que existe um mundo fora do quarto. Revoltado e indignado, ele se recusa a acreditar e pede para não crescer: “posso voltar a ter quatro anos?”.

Jack sofreu para se adaptar ao mundo fora do quarto. Física e psicologicamente. Por pior que fosse a vida lá dentro, aquele havia se tornado o seu lugar seguro. Foi de repente que tudo o que ele conhecia como real deixou de ser. Em meio a todo esse processo de descobertas, por vezes ele reflete: “o mundo é tão grande que assusta, as coisas não param de acontecer”, “não entendo, as pessoas estão sempre correndo”, “às vezes eu sinto falta do quarto e de estar lá só com a minha mãe”.

A ideia não é nova. Tema semelhante foi tratado por Platão, no clássico “O Mito da Caverna” – que serviu de inspiração para a autora.  E também no livro “Quem Me Roubou de Mim”, do Padre Fábio de Melo, no qual ele diz: “a quebra de um cativeiro gerará sofrimento nos sequestrados. O cativeiro, por pior que seja, acabou por se tornar um lugar seguro. O sequestrado está esquecido da vida livre. Já não sabe como é ser gente fora das prisões. Esqueceu que é rei e vive como escravo”.

Por pior que fosse, aquele era o mundo que ele conhecia e no qual ele aprendeu a viver. Ao fazer questão de voltar ao quarto para se despedir, ele pergunta à mãe, em um dos momentos mais geniais do filme: “esse é o quarto? Ele encolheu?”.

O quarto não havia encolhido, mas Jack havia conhecido uma realidade infinitamente maior. Aquele lugar então passou a parecer pequeno, não cabia mais o novo Jack e a sua nova visão de mundo. Ele fez, então, o que estava ao seu alcance: agradeceu pelo tempo que passou no quarto, reconheceu-o como uma parte importante da sua história, despediu-se de cada detalhe dele e aceitou a nova fase.

O filme ultrapassa a ideia de um cativeiro físico. Faz refletir sobre qualquer processo de mudança e os seus opostos: perder-se para encontrar-se, morrer para renascer, destruir para construir, despedir-se para conhecer o novo, aceitar o caos para estabelecer uma nova ordem. É uma história que merece ser vista e levada muito a sério. A mudança assusta e pode ser dolorosa, mas Jack ensina que, algumas vezes, é a única forma de crescer.

Nathalia Melo
Jornalista e estudante de Psicologia

2 comentários:

kleber cruz disse...

Belas palavras, concordo com cada uma. Vi esse filme e ainda penso nele. Uma dica, se não leu, leia o livro, faz toda a diferença.um abraço

Nanny disse...

Como sempre este blog sempre trás um conteúdo muito significativo.
Ainda não assisti o filme mas já tinha lido e conversado sobre. Com a sua colocação me fez lembrar daqueles que estão nas prisões. Fala-se tão pouco sobre aqueles que vivem nas prisões não é verdade? Sabemos que erros eles cometeram e também sabemos de alguns que se arrependem profundamente do que fizeram. Tem aqueles que vivem anos e anos lá dentro que, quando saem devem ter o mesmo temor que o pequeno Jack sentiu ao saber deste novo Mundo!


PS.: não gostei dos spoilers, rsrsrsrs!!!

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