Por: Joyce





Não faz muito tempo, criei uma conta pessoal para mim no Instagram, rede social que traz basicamente fotos (e vídeos de, no máximo, 15 segundos). Confesso que o maior estímulo para tal foi meu interesse em unhas e esmaltes, e vi ali uma oportunidade de aprender designs diferentes. Não gosto de me expor em redes sociais nem sou muito fã de “ego trips” (gente que fala tanto de si que acaba viajando, para explicar a grosso modo), então acabei tendo conta nessa rede social a fim de me distrair com postagens sobre manicure.

Acaba que sempre tem algo ali que aparece para nos criar interesse – e, óbvio, é feito para isso mesmo – e acabei entrando em contato com várias páginas que trazem imagens de paisagens, conteúdos motivacionais, vídeos de culinária, viagens e toda sorte de assunto. Como me interesso por línguas estrangeiras e outras culturas, acabo vendo bastantes postagens de outros países e me interessei particularmente por seguir perfis que trazem imagens com textinhos em inglês, sejam eles com efeito humorístico, sejam efeito motivacional (meus preferidos). 

Uma tendência que eu percebi foi uma manifestação de insatisfação sem precedentes da nossa geração (refiro-me aqui à geração Y, nós que nascemos entre 1975 até 1995, mais ou menos). Claro que sem precedentes, pois nunca estivemos tão conectados (e tão desconectados da vida física?). Mas acredito que seja sem precedentes mesmo, não só nesse desfile www, mas também no moral geral das pessoas. Estamos muito insatisfeitos. 

Eu li um texto, que é originalmente da página “Wait but why”, e é um dos mais importantes que li sobre a vida adulta. O texto se chama, numa tradução minha do original em inglês, “Por que a galerinha da geração Y está infeliz”. E estamos muito infelizes. Somos essa galerinha infeliz aí. 

Antes que me mandem olhar pro meu prato de comida e meu teto em cima da cabeça, vamos colocar que tipo de infelicidade é essa – basicamente infelicidade profissional. O que o texto traz (muito bem escrito) é que somos filhos de uma geração que quis para nós tudo o que ela não teve e que nos fez acreditar que devíamos ralar (estudar e trabalhar) para sermos felizes e que essa conta fecharia tranquilo. Mas... estudamos, trabalhamos, e a conta não fecha. Por quê? Muitas expectativas, realidade aquém delas. 

O que me fez querer escrever esse texto? A geração Y não consegue se ver feliz, nem realizada, nem responsável. Ela foi levada a acreditar que se estudasse e se dedicasse, tudo estaria muito bem. Mas ela não consegue se ver adulta, ela não sabe cozinhar, ela não ganha o suficiente, embora ache que mereça, ela não trabalha com o que sonhou, ela ouve grito do chefe toda semana, ela não varre a casa, ela ainda conta com a grana dos pais. Mas como estaria tudo bem para todos da geração Y? Como, na nossa lógica mundial, todo mundo consegue ficar bem? Por que fomos levados a acreditar que bastava força de vontade e trabalho? E a lógica não é essa? 

Não. 

Sem entrar no mérito de qual seria ela (também sou galerinha da geração Y, também estou no barco), fica muito fácil ver que não basta força de vontade e trabalho. Se todo mundo tivesse a vida dos sonhos, talvez Paris fosse mil vezes mais populosa que a China e não haveria loteria no mundo que desse conta da demanda. Saindo um pouco da brincadeira, não podemos ser felizes porque sonhamos com uma realidade utópica que diz que somos incríveis e especiais e merecemos o mundo – e quando não o ganhamos, emburramos como crianças e reclamamos disso na internet. 

Eu tinha planos de colocar aqui algumas imagens dessas reclamações sobre a vida adulta, sobre o peso das responsabilidades, sobre ninguém saber o “que que tá conteseno”, mas uma busca simples por “#adulthoodsucks” (vida adulta é uma droga), traz mais que algumas. A quantidade de páginas “qualquer coisa da depressão” é esmagadora, e é só uma parte. 

Acho que o grande tiro que a gente toma é ver que não somos tão especiais assim de frente pra vida, ser muito rico talvez seja algo muito distante mesmo, trabalhar num emprego perfeito não exista e que boletos vão existir para serem pagos e que vamos ter que sair da cama mesmo com gripe e se não lavamos o prato de miojo dentro da pia à noite ele continua lá. 

Não, não escrevi nenhuma mensagem de otimismo puro e simples, nem mesmo sei o que fazer pra lutar contra essa bad. A maré filosófica chegou e derrubou muito a geração Y, mas também somos a geração que viveu ralando o joelho na infância e hoje “mexe no computador”, como diria minha mãe (e a geração X). Somos a única a ter esse melhor de dois “mundos”. Somos informados e capazes. A imagem lá em cima é o que devemos encarar – ATENÇÃO POR FAVOR: ninguém vai vir te salvar. Essa sua vida é 100% sua responsabilidade.


Joyce Scoralick
Mestre em Literatura

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