Por: Gustavo


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“Qual seu nome?”. O menino odiava essa pergunta. Cabisbaixo, ele entrou pelo portão para o seu primeiro dia na nova escola. Como era novidade, logo chamou a atenção das outras crianças, e um colega, muito simpático, foi até ele:

- Qual seu nome?

À pergunta do garoto, o menino respondeu como a experiência o havia ensinado: silêncio. Por isso, pareceu muito antipático aos outros garotos. Mas nem sempre as coisas foram desse jeito.

Quando o menino nasceu, sua mãe, uma feiticeira não muito sábia, foi ao cartório, com ele no colo, para registrá-lo. Queria chamar o menino de Esquelenébrio. O tabelião, ao ouvir o exótico nome, riu de perder o ar. A feiticeira, enraivecida pela humilhação, lançou nele um feitiço, pronunciando uma terrível palavra mágica, que fez os dentes do tabelião sumirem. O homem parou de rir imediatamente, ficou furioso, mas teve medo de dar qualquer resposta. Então, fez-se de bobo, que entendeu que a palavra mágica deveria ser o nome do menino e registrou-o assim.

Chamar o menino pelo seu nome – a palavra mágica – nunca causou mágicas inesperadas, até que o próprio menino aprendesse a falar. A partir de então, notou-se aos poucos que algo estranho sempre ocorria quando ele se apresentava: mágica e automaticamente, acontecia algo de bom a quem tinha perguntado seu nome, normalmente o desejo que emergia no coração da pessoa naquele momento.

A princípio, isso fez do menino muito querido e popular. O problema: todos só queriam ouvir o nome do menino, ninguém procurava conhece-lo além disso. Como nome só se diz uma ou duas vezes a cada pessoa – no máximo três, a um desmemoriado –, o menino era frustrado em toda tentativa de aprofundar um diálogo. Logo, não tinha amigos.

Vamos voltar ao primeiro dia de aula do menino.

Já em sala de aula, a professora convidou-o a se apresentar à classe. Vendo-se numa daquelas situações em que não há escapatória, decidiu falar baixinho o nome e emendar logo noutro assunto, esperando que ninguém notasse qualquer coisa estranhamente mágica que acontecesse.

- Meu nome é (sussurro), eu gosto de...

Ninguém prestava mais atenção. Livros ridiculamente desordenados começaram a se arrumar sobre a prateleira, agora reta, que ficava sobre a mesa da professora, na qual havia uma plantinha antes morta e então viva e cheia de cores. E os cabelos e roupas de péssimo gosto da professora converteram-se em cortes e estilos exuberantes. Sua verruga na ponta do nariz sumira.

A professora fora avisada da situação do menino e foi de propósito que o fizera se apresentar. Logo, toda a escola sabia do nome mágico do menino. Todos procuravam ocasião de falar com ele e induzi-lo a dizer seu nome. O menino simplesmente ignorava.

Você pode ter-se perguntado por que ele simplesmente não mentia o nome. Bom, era parte do encanto do nome. E mesmo que pudesse mentir, não faria: o menino gostava do próprio nome, não gostava de como as pessoas o tratavam. Mas nunca culpara seu nome por isso.

De volta da escola, o menino entrou para o quarto, para que ninguém o notasse. Na verdade, adoraria ser notado, mas não que notassem sua tristeza e, sabia, era só sobre isso que perguntariam seus pais.

Sentado em sua cama, pensando em como todo mundo se interessava, e só, por seu nome (ou pelo que ele podia fazer por eles), o menino começou a se questionar – e a duvidar – se ele era, de fato, algo além de um nome mágico. De repente, teve uma daquelas ideias como-eu-nunca-pensei-nisso-antes. Levantou-se, foi até o espelho. Na esperança de, pela primeira vez na vida, usar a mágica de seu nome a seu próprio favor, mas cheio de questionamentos misturados a sua esperança, disse:

- Quem é você, (sussurro)?

Nada.

Frustrou-se, nem tanto com a ausência de mágica, mas muito mais com a ausência de resposta.

Como não era de conformar-se , foi até seu pai e declarou:

- Eu não sei quem eu sou.

Seu pai não era um feiticeiro, mas um sábio. Nada surpreso com a declaração do filho, olhou-o brevemente e respondeu:

- Nós só nos reconhecemos nos outros. Os amigos nos ajudam a descobrir quem somos.

“Amigos?”, pensou o menino. Nunca os tivera, e, para ele, saber na teoria sem nunca experimentar era o mesmo que não saber. O pai contemplou a frustração do filho com a resposta, mas nada disse.

O menino saiu de casa como entrou, triste, com o acréscimo de que agora resmungava suas decepções. Caminhou até a praça do bairro e, entre casais, famílias, velhos jogadores de damas, meninas fofoqueiras e garotos brigões jogando bola, sentou-se no único canto quieto do lugar, um espaço vago num banco, ao lado de um menino de orelhas cor-de-abóbora.

Sem parecer notar a presença do garoto, o menino continuou a resmungar. O outro ouvia tudo. Quando houve silêncio, o menino das orelhas estranhas pensou em puxar conversa, hesitou, mas enfim disse:

- Eu também me sinto sozinho. E a culpa é dessas orelhas ridículas. Mas elas não me incomodam tanto quanto estar só. Se um dia eu pudesse realizar um desejo, só um desejo, eu não mudaria minhas orelhas, eu pediria um amigo. – esperançoso, perguntou: – Qual seu nome?


Gustavo Lima
Estudante de Jornalismo - UERJ
Oficina de Valores

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