Por: Alessandro




Uma das mais grandiosas notícias que a humanidade já recebeu é que o amor não é apenas um sentimento. Nem só uma decisão. O Amor é uma pessoa. E mais: é a pessoa responsável pelos recifes de corais, pelo pôr do Sol, pelas borboletas, pela primavera e pelas maçãs. Todo o mundo que nos rodeia não foi feito com amor, mas pelo Amor. Nós mesmos fomos feitos por Ele.

Quase tão assombroso quanto o mistério desse Amor que é pessoa é o mistério das pessoas que fogem do Amor. Mistério daqueles que insistem em negar aquilo pelo que mais anseiam.  Mesmo em nossos pequenos amores isso não é incomum. Traições, indiferença, ódio –  todas expressões da mesma fuga, da mesma resistência. E todo esse desamor também é dirigido não apenas àqueles que amam, mas ao próprio Amor.

Um grande apaixonado certa vez disse que o “Amor não é amado”. E tinha razão. O Amor tudo fez, o Amor nos fez. E foi por nós abandonado. E ao abandoná-lo caímos em penúria, experimentamos a pobreza de vivermos longe, de não amarmos e não nos percebermos amados. O abandono do Amor foi a maior tragédia que a humanidade já vivenciou e vivencia. Na verdade, é a tragédia que contém todas nossas demais tragédias.

Acontece que, para nossa esperança, abandonar não implica necessariamente em ser abandonado. Faz parte da essência do Amor não desistir daqueles que dele necessitam.  O Amor não desistiu e fez questão de cobrir a distância que colocamos entre Ele e nós.

Como é próprio do Amor querer proximidade, Ele tomou a mais radical das decisões. Fez-se um de nós. Brincou conosco, comeu nossa comida, riu nosso riso, chorou nosso choro e falou nossa língua. Tudo isso para que pudéssemos brincar com Ele, comer sua comida, rir seu riso, chorar seu choro e falar sua língua. Não porque precisasse disso, mas porque sem aquilo que é Dele não conseguimos viver plenamente o que é nosso.

A proximidade, no entanto, tem seus riscos. E aproximar-se de quem um dia se rebelou e fugiu é ainda mais arriscado. O Amor sabia disso. Ele sabe de todas as coisas. E mesmo assim veio. E foi mal acolhido. Embora tenha tido uma excelente família, não encontrou uma casa onde pudesse nascer. Embora tenha feito amigos, foi traído e negado por praticamente todos eles. Embora muito tenha ensinado, encontrou muitos ouvidos que não queriam ouvir.

Mas a mais radical das negações ainda estava por vir. O Amor não foi apenas mal acolhido, rejeitado e traído. O Amor foi torturado e assassinado por aqueles a quem veio amar. A reação ao Amor feito homem foi a mais violenta possível. Embora Ele seja o que mais esperamos, mesmo quando não sabemos disso, sua presença é muito incômoda. Aprendemos a viver sem Ele.... Estruturamos nossas vidas a partir de nossos egoísmos. E apesar de tudo isso nos causar dor e frustração, ao menos habitamos um casebre que nós mesmos construímos.

Ele nos desaloja, faz com que nossos mesquinhos interesses sejam expostos a uma luz que revela a futilidade de nossos projetos. Seu chamado à grandeza revela nossa pequenez. Se o seguirmos, não poderemos mais viver como vivemos. E não apenas viveremos para Ele, mas para os outros...E isso, embora bonito, afeta os planos aos quais vendemos nossos corações. Ele nos oferece um castelo, mas para isso precisamos abandonar nossos casebres.

Resistimos a essa mudança! Nós o negamos! Nós o traímos! Nós o crucificamos! Preferimos a solidão e o vazio à companhia e à plenitude. Negamos a alegria e nos acabrunhamos de tristeza... Numa sexta-feira, matamos o Amor! Naquele dia, se o mundo fosse capaz de lágrimas, um novo dilúvio teria acontecido.

Acontece que em nossa pequenez não percebíamos que enquanto matávamos o Amor, Ele nos amava e se entregava a nós e por nós. Ninguém tem maior amor que aquele que dá a vida por seus amigos!  A vida, e nada menos do que a vida, foi o que o Amor veio disposto a dar. E a deu.

Embora sua morte parecesse a maior das derrotas, nela Ele revelou seu grande poder. Um poder que é discreto, mas que é maior do que a força dos fortes... que é mais poderoso do que aquela que é tida com a única das certezas.

Numa sexta-feira, o Amor morreu. Mal sabíamos que tudo isso acontecia porque a única coisa que Ele realmente desejava era que nós tivéssemos vida. E para que isso acontecesse, Ele não hesitou em entregar a sua. Grande mistério esse do Amor crucificado e traído. Maior mistério ainda é que por Ele o traidor foi redimido.



Alessandro Garcia
Doutorando em Sociologia
Fundador da Oficina de Valores

0 comentários:

Postar um comentário