Por: Alessandro




Nos últimos dias, vez por outra, uma história ouvida anos atrás vinha à minha memória. Não sei se é verdadeira, mas é daquelas que são tão legais que se não forem reais deveriam ter sido. Trata-se de um episódio que supostamente ocorreu no processo de canonização de São Francisco de Sales...

Um processo de canonização é uma longa investigação. No passado foi até mais duro, existindo um cargo, o famigerado "advogado do diabo", que tinha a função de provar que o candidato aos altares não era lá tão digno assim. Vários depoimentos são colhidos e, no caso de Francisco de Sales, diz a história (ou a lenda) que o testemunho que garantiu sua santidade foi um tanto quanto peculiar... e fruto de uma atitude não muito cristã. O depoimento em questão foi dado pelo secretário do Francisco que tinha o hábito de espiá-lo pelo buraco da fechadura... O que ele disse que foi fundamental para a canonização? Que Francisco de Sales agia quando estava sozinho da mesma maneira que procedia quando estava em público.

Creio que os motivos que trouxeram a recordação agora sejam óbvios. Diante do quadro atual, essa história faz com que eu pense o seguinte...

Entre a forma que agimos em público e a que agimos quando estamos sozinhos, ou com amigos íntimos, há um grande abismo. Não falo da hipocrisia. Digo que a liberdade da intimidade faz com que possamos dar voz mais livre ao que pensamos e sentimos. Faz com que, livres da censura, por várias vezes falemos coisas das quais nos arrependemos assim que nos chegam a boca. Até coisas em que não acreditamos...

Não é incomum encontrar pessoas muito convictas de suas crenças fazendo troça dessas mesmas ideias quando estão na companhia de outras pessoas que acreditam nas mesmas coisas. Isso não significa que elas não acreditem, mas que se sentem seguras para brincar justamente porque tem a certeza de que aquilo em que creem não está sob ataque.

Acontece que nem sempre as coisas são assim. A privacidade também é o local onde as máscaras caem. Onde nos sentimos folgados o suficiente para dar livre vazão àquilo que é o pior de nós e que só não colocamos para fora em público pelo medo das consequências.

Justamente por ser esse local propício à sinceridade, a privacidade e a intimidade são sagradas. Todos devem ter esse espaço, onde possam falar sem medo das represálias. Onde são o que são e pronto. E se esse espaço não existir, a personalidade corre o risco de morrer ou ficar sufocada sob a constante vigilância externa. Num mundo onde ninguém possuísse um espaço “só seu”, livre da vigilância pública, muito provavelmente não existiriam mais pessoas (ou existiriam poucas), uma vez que a grande maioria não faria mais que representar papéis para uma plateia que constantemente estaria vigiando.

O espaço onde podemos falar e expressar nossos absurdos é a salvaguarda para a criatividade e para a contraposição aos consensos injustos. É apenas porque existe a privacidade que as justas rebeliões podem acontecer, é justamente porque encontramos lugar para expressar sem medo nossas contradições que podemos percebê-las melhor e assim ter a chance de resolvê-las.

A privacidade é sagrada. Tão sagrada que a própria prática da religião está relacionada com ela e a encara como local de encontro com Deus. Não foi qualquer um que disse as seguintes palavras: “Tu, porém, quando orardes, entra no teu quarto e, fechando a tua porta, ora a teu Pai que está lá, no segredo.”

A privacidade é sagrada, por isso deve ser respeitada. Mas ela, graças aos céus, não é absoluta. Sempre existem buracos de fechadura através dos quais vazam palavras e atos do recinto sagrado da intimidade. Esses buracos podem ser físicos, digitais ou atos falhos. Por vezes é a própria pessoa que se trai e diz, onde não queria, aquilo que sempre diz quando e onde quer. Isso ocorre porque, embora tenhamos o direito de ter um espaço privado, somos uma única pessoa e ninguém consegue separar totalmente o escondido e o revelado. 

Quando aquilo que é oculto é posto na luz, inevitavelmente surpresas acontecem. As pessoas normalmente são melhores ou piores (às vezes melhores e piores) do que aquilo que pensamos que elas são. Quando falamos das figuras públicas então, a tendência a idealizá-las faz com que dificilmente as enxerguemos como pessoas para além de seus papéis. Daí a tentação de taxá-las de anjos ou demônios. Sabendo disso, dá para entender a prudência da Igreja Católica antes declarar alguém santo...

Diante disso, a melhor atitude quando as sombras da intimidade, os tropeços secretos,  de alguém são reveladas é agir com misericórdia e pensar que a grande maioria de nós tem telhados de vidro. Lembrar que muitas falas e atos tirados de contexto podem ser tornadas piores do que são. Que se todo o nosso oculto fosse revelado também nós sentiríamos vergonha.

Antes que comecem a acusação, devo dizer que não faço aqui uma defesa da vida dupla. Longe de mim. Nem quero dizer que todos os males são iguais. Não vale tudo no privado. Se assim fosse, crimes cometidos dentro de casa não deveriam ser denunciados e punidos... E eles devem! Trata-se apenas de lembrar que as incoerências são parte constitutiva dessa nossa humanidade e que o linchamento não é um caminho para a justiça.

Imagino que boa parte dos que chegaram aqui podem estar com raiva por julgarem que escrevi este texto para defender político x ou y. Não, não estou fazendo a defesa de ninguém. A história que contei inicialmente tem outros lados. Um deles é que não dá para “desver” aquilo que foi visto, que há consequências para o que fazemos. No caso de São Francisco de Sales foi sua canonização. E as informações que levaram a elas não foram colhidas pelo mais lícito dos meios. No caso em questão, melhor seria se o secretário deixasse a vida alheia em paz... E o grande testemunho disso é que quem foi canonizado foi o espionado e não o espião. Isso, no entanto, não fez com que o relato fosse considerado como pouco importante.

E hoje? Bom, hoje fala-se muito sobre a licitude dos meios através dos quais algumas informações foram adquiridas. A intimidade de ninguém deve ser violada e exposta sem razões justas e sem seguir procedimentos estipulados por lei.  Por outro lado, não há como não levar em conta aquilo que foi ouvido. Custos políticos são inevitáveis e legítimos. E as figuras públicas que no privado traírem o bem comum que deveriam buscar não devem julgar-se imunes à indignação. E convém não esquecer que a misericórdia deve sempre ser acompanhada pela justiça.

Antes de encerrar, digo que os últimos parágrafos foram uma concessão. O objetivo do texto não era ser um comentário sobre a atual situação política, mas uma reflexão para pontos para além dela. Acontece que não explicitar estes últimos pontos seria deixar um vazio que poderia ser preenchido com coisas que não quis dizer.

E  sobre o que eu quis falar?

Quis falar sobre a sacralidade da intimidade. Sobre o fato de que apenas os grandes conseguem ser coerentes consigo mesmos e que embora sejamos pequenos devemos aspirar a essa grandeza. Quis levantar pontos que fizessem pensar sobre a cultura da exposição e do linchamento que nossa era digital tem fomentado. Quis mostrar que a privacidade deve ser protegida, mas que buracos de fechadura sempre existirão. E talvez seja bom que eles existam, afinal foi graças a um deles que um homem passou a ser considerado santo



Alessandro Garcia
Doutorando em Sociologia
Fundador da Oficina de Valores

0 comentários:

Postar um comentário