Por: Alessandro




A internet mudou nossas vidas. Desde as pequenas até as grandes coisas. Mudou tanto que por vezes é bem difícil lembrar como as coisas eram antes dela. Como era ficar esperando alguém ligar, como era não ter contato imediato e simultâneo com vários amigos via aplicativos de celular. Isso para não falar do acesso à informação e entretenimento. Perdeu um capítulo de sua série favorita na TV? Há 20 anos atrás você teria que esperar meses ou até anos para conseguir ver o tal episódio. Para não acharem que é exagero, quando tinha 15 anos, perdi um capítulo de Yu Yu Hakusho... Até hoje não o vi.


Um dos principais ganhos que a internet nos trouxe foi o fato de que a produção e distribuição de textos, áudios e vídeos tornou-se acessível a qualquer pessoa que esteja conectada à rede. Claro que há limites nesse processo, mas é inegável que a internet possibilitou uma democratização da informação sem precedentes na história humana.

Além de democratizar a produção e o acesso, a internet amplificou também os fóruns de debate. Antes para reagir à publicação de um jornal, o meio era enviar uma carta ao mesmo. Essa carta demorava dias para chegar à redação e era publicada caso o editor do jornal assim quisesse. E ainda poderia ser editada. Hoje já não é mais assim. É possível compartilhar e comentar praticamente tudo, sem edição e instantaneamente. 

Dada uma situação dessas, é de se crer que a internet e as “redes sociais” tornaram mais profundas as nossas reflexões e mais profícuo o nosso debate. Bom, embora existam várias experiências positivas, a verdade não é bem essa. Boa parte das vezes, consumimos a informação de maneira rasa e nossos debates vão do nada a lugar nenhum e geram mais irritação que reflexão.

Afinal de contas, se temos bons meios, por que não os usamos tão bem como gostaríamos? Sem condições de dar uma reposta precisa, desejo apenas levantar uma das causas de nossa superficialidade de reflexão nesta época de fácil acesso à informação.

Com a internet, nós não temos apenas acesso à informação, nós temos acesso a muita informação. E de maneira muito rápida. Num olhar rápido sobre o Twitter ou sobre o Facebook, descobrimos ao mesmo tempo os 17 aniversariantes do dia, os casais que acabaram de começar a namorar, quem está mandando indireta pra quem, o caso de corrupção da semana, o lançamento de um nova tecnologia médica, os resultados dos jogos de alguns campeonatos de futebol e um tanto de coisas que não dá nem pra enumerar.

Diante de tanto conteúdo é impossível dar atenção a tudo. E mesmo selecionar mostra-se uma tarefa muito difícil. A solução adotada é tentar dar uma olhada superficial em quase tudo. Quem produz os conteúdos sabe disso e procura fazer mais caber em menos. Surge então a impressão de que tudo que é importante pode e deve ser dito em poucas palavras. Embora isso seja falso, não dá para negar que aquilo que é dito em muitas frases corre o grande risco de passar despercebido.

E aí? Sabemos menos sobre mais. Ou quase. Achamos que sabemos algo quando podemos na verdade não saber nada. Apenas ter a impressão que sabemos porque lemos em poucos caracteres aquilo que logo em seguida passamos a reproduzir.

Vivemos em uma época onde o slogan venceu. Parece que boa parte das conversas virtuais sobre assuntos importantes resume-se a troca de frases de efeito. Vence aquele que chamar mais atenção, seja pela ironia, seja pela criatividade. Não é incomum conversas sérias terminarem com expressões do tipo “o choro é livre” ou então com algum “meme”.

Claro que os “memes” e os slogans não são males em si. Muito pelo contrário. Um slogan, um trocadilho ou expressão curta bem construída tem o mérito de condensar um mundo de ideias. Há reflexão, e por vezes muita reflexão, nessa forma de expressão. Acontece que a profundidade de tais falas só é acessível quando o contexto é razoavelmente conhecido. Ou seja, a frase de efeito é bacana quando é conclusão de um pensamento ou quando leva para além dela mesma. Algo parecido pode ser dito sobre os “memes”...

Alguém pode dizer que estou sendo chato e que o objetivo de boa parte dessa nova linguagem de internet é entreter. Há razão nesses pensamentos. O entretenimento é parte intrínseca da linguagem da web e eu sou (um pouco) chato mesmo. O caso, no entanto, não é que o entretenimento seja um problema. Amo rir das inúmeras bobeiras postadas por meus amigos e o potencial crítico do humor realmente é enorme. Acontece que certos assuntos demandam atenção mais cuidada e não podem ser bem assimilados a partir de poucas frases ou charges. Faz-se então necessário gastar tempo e atenção maiores que aqueles contidos num rápido passar de dedos na tela de um celular.

Acho triste o fato de textos de uma página serem considerados longos e descartados por isso. Na contramão de uma tendência, devo assumir que eu curto um bom “textão”. Fico feliz quando vejo colegas gastando tempo tentando refletir um pouco mais profundamente sobre algo e partilhando isso. Mais legal ainda é quando essas ideias de gente desconhecida geram ressonância em comentários de pessoas inesperadas.

Claro que esse texto não vai mudar muita coisa e provavelmente só será lido por aqueles que não precisam das reflexões aqui propostas (ele tem DUAS páginas de Word!). Além disso, o processo que leva à situação atual é complexo e não se restringe ao âmbito individual. São as tendências do nosso meio... Claro que isso não significa que devemos aceitar com passividade e que nossas ações como indivíduos não importem. 

Como resistência a essa era do slogan recomendo duas atitudes:

1 – Se você tem tido dificuldade de ler textos maiores que dois ou três parágrafos, esforce-se um pouco. Leia “textões”, matérias um pouco mais longas, livros. Verá que o esforço será recompensador.

2 – Antes de tentar fechar uma discussão com uma frase de efeito ou com um “meme”, reflita um pouco. E tente propor algo que leve a pensar. Procure refletir e não apenas ganhar curtidas.

Termino sem frase de efeito. Até queria uma, mas não consegui. Vou continuar pensando. Quem sabe um dia, com muito esforço, não consigo produzir um “meme”?


Alessandro Garcia
Doutorando em Sociologia
Fundador da Oficina de Valores

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