Por: Diego

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Quem gosta de conversar com os mais velhos provavelmente já se deparou com aquela velha e conhecida introdução: “No meu tempo...”, antes de haver algum comparativo com os dias atuais. E é engraçado como nessas comparações os dias do passado sempre parecem mais alegres e tranquilos. Discordo em partes, porque penso que cada época possui seus pontos fortes e dificuldades (há 50 anos não se podia pedir pizza por telefone). Mas uma dessas comparações sempre me intrigou: “O tempo hoje passa mais rápido”.

Isso na prática, considerando as leis da física, não é verdade. O velho relógio de bolso do meu avô ainda deve marcar o mesmo minuto que o relógio do computador que usamos. Mas se pensarmos que, num mesmo intervalo de tempo, conseguimos nos comunicar com mais gente, percorrer maiores distâncias, ter acesso a mais informações, temos que aceitar essa afirmação. E como as correrias e cobranças são maiores, talvez poucas virtudes hoje ganhem tanto destaque como a paciência. 

A palavra “paciente” normalmente se refere a duas realidades diferentes. Paciente é aquele que recebe cuidados médicos devido a alguma enfermidade ou é aquele que tem paciência. Mas no fundo os dois casos tem a mesma origem: a palavra paciência vem do latim pati, que significa “padecer”. Ser paciente, portanto, está ligado a saber sofrer. E sofrer do que? No primeiro caso, da doença em questão. No segundo, das contrariedades que nos deparamos na vida. E que serão muitas ao longo dela. 

Poderíamos talvez resumir em três tipos essas contrariedades: as provocadas por nós mesmos, as provocadas pelos outros e as circunstâncias externas. Pensemos nestas primeiro, que não são difíceis de imaginar: é o transito no dia da prova, a doença inesperada, o desemprego quando mais se precisava de dinheiro. Nenhuma dessas situações está, pelo menos diretamente, sob nosso controle. 

Temos depois as contrariedades provocadas pelos outros. O modo de falar, por vezes ríspido, do chefe, a fofoca daquele colega, o motorista imprudente que quase bate na gente ao dar uma fechada... Podem ser provocadas com ou sem intenção, mas são claramente a falha de alguém. E por fim as nossas próprias falhas: uma falta de pontualidade, a nota baixa que tiramos por falta de estudo, o fato de ser esquecido ou distraído. Quem nunca saiu de casa atrasado murmurando sobre a própria capacidade de perder tanto tempo? 

Saber sofrer essas situações não significa passar por elas como se nada tivesse acontecido. Há quem julgue que ser paciente é apenas não ter reações explosivas, como a mãe que dá aquela bronca no filho no meio da rua ou o motorista que abre a janela para ofender meio mundo. Mas o silêncio, principalmente diante do erro dos outros, não necessariamente significa uma atitude paciente, mas pode ser também um sinal de indiferença. E talvez mais cruel que uma chamada de atenção. 

Saber sofrer é, mais do que simplesmente manter a calma, saber encarar essas situações com espírito esportivo e disposto a seguir em frente, mesmo que ainda doam as perdas que tivemos. Muitas vezes as contrariedades são apenas consequências do nosso egoísmo: esperamos que as coisas funcionem de maneira a se encaixar nos nossos planos e vontade. 

Mas enquanto esperamos do mundo, o mundo espera de nós. Uma forma de viver a paciência é dando um sentido a esses sofrimentos. E quase sempre será sofrer pelos outros. 

Escutar com paciência aquele amigo ou parente que vem falar conosco sobre algum problema pode parecer a perda de um tempo crucial. Mas muitas vezes a pessoa que vem nos procurar tem uma necessidade maior que a nossa de ser ouvida, e o que seriam 15 minutos perdidos do nosso dia podem fazer toda a diferença na vida de alguém. 

Também ajuda reclamar menos da vida. É normal que precisemos partilhar nossos problemas. Mas alguém que só reclama é uma pessoa muito chata! Algo que tenho procurado fazer é não deixar que as conversas de ponto de ônibus, táxi, filas sejam de reclamação. Puxar um assunto menos negativo faz o tempo passar de forma muito mais agradável. 

E não implicar com o defeito dos outros, manias e dificuldades que possam ter. Nem usar os advérbios dos impacientes (“De novo”, “sempre isso”, “já estou cansado” ou o resignado “já me acostumei...”). Quando erramos, são algumas das piores palavras que podemos ouvir. 

A vida não para e, às vezes, tem pressa. Ter paciência pode significar agir de forma enérgica, mas sem desespero. No final das contas, a paciência é umas das principais fontes de paz interior. Precisamos então parar, respirar, ficar quietos ou apenas fazer uma breve oração. E, com as coisas no lugar, voltar à luta. Afinal, não temos tempo a perder. E o mundo espera de nós, um pouco mais de paciência...



Diego Gonzalez
Mestrando em Engenharia Biomédica
Oficina de Valores




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