Por: Diego


Fonte da Imagem: G1


A tarde de ontem não foi atípica para um domingo: milhares de televisores ligados, cobertura em toda a rede nacional, bandeiras e camisas de cores diferentes desfilando pelas ruas, torcidas inflamadas comentando nas redes sociais. O que teve de diferente é que não se tratou de uma final de campeonato ou copa do mundo, mas de um dos momentos mais delicados previstos em nossa constituição: a votação de um impeachment presidencial.

O impeachment de fato ainda não aconteceu, mas a etapa que passou parece já indicar um rumo que deve seguir. E embora desde cedo no processo tenha escolhido uma posição, e com algumas ponderações a tenha mantido até o final, confesso que todo o andamento teve um gosto um pouco amargo. Não é preciso entrar no mérito sobre a integridade dos candidatos. Fique o atual partido ou entre o outro, é sabido que ambos possuem envolvimentos em esquemas de corrupção. Isso não deve ser motivo de indiferença diante da situação, afinal muita coisa está em jogo, como as formas de lidar com as diversas crises políticas e econômicas do país. Mas me parece que, em meio aos festejos e gritarias, três pontos sobre o ocorrido merecem um especial destaque. E embora pareçam estar intimamente ligados, o fato de não o estarem pode trazer um grande risco.

A primeira impressão é que parece haver um florescimento de consciência e interesse político na população, que “o gigante” realmente não está dormindo. Não digo isso apenas em vista dos grandes números de manifestações e protestos recentes, embora veja neles um sinal desse desenvolvimento. Mas estamos diante de um processo que não tem origem em negociações políticas, mas em uma insatisfação popular. E vários grupos estão tentando transformar essa insatisfação em ações concretas. Apesar das limitações que tais ações encontram e dos erros que possam cometer, o esforço desses grupos por envolver-se é algo positivo. Observei que, tanto aqueles que concordavam quanto os que discordavam, fosse numa conversa informal entre amigos ou nos textos e artigos que escreveram, pareciam buscar forças em argumentos que fossem consistentes.

O segundo ponto é que foi possível perceber de maneira mais clara a parcialidade dos meios de comunicação em geral. E não acho isso ruim, afinal em vários países os principais jornais e canais de televisão têm bem definidos os seus pontos de vista políticos. O problema é que, contar com uma mídia que passe a criticar as autoridades apenas quando a situação já está crítica, sempre nos fará questionar sobre qual parcela da verdade nos é oferecida. E isso mesmo quando as acusações forem justas e bem fundamentadas.

O terceiro, que não é nenhuma novidade, é o fato de termos uma classe política extremamente preocupante. É indignante ver como em troca de apoio político o próprio país é barganhado. Cargos de importância vital para o país, como ministérios e presidências de estatais, são usados como moeda de troca para gerar alianças. Promessas são feitas antes mesmo de se definirem os rumos do processo.

Para quem assistiu à votação, a sensação em alguns momentos chegou a beirar a vergonha. A consciência, que deveria iluminar os votos baseada na ética e razoabilidade das denuncias, parecia ter ficado em segundo plano. Não poucos alegaram votar contra as próprias convicções por não querer contrariar a indicação do partido. Outros tantos apenas acusaram oposição, situação, aliados ou desafetos. Votou-se pelos pais, pelos filhos, netos, eleitores, pelo estado, pelo país, pela democracia, por Deus. Em alguns casos, essas justificativas soaram quase como desculpas pelo voto que seguiria.

O processo do impeachment vai caminhando, e o país continua numa situação delicada. Não nos cabe apenas comemorar a vitória ou chorar a derrota. Posicionar-se contra ou a favor do impeachment não pode ser tudo. É necessário pensar em projetos e alternativas, e empenhar-se neles tanto ou mais que agora. Temos que cobrar da justiça uma atuação contínua contra a corrupção, dos meios de comunicação uma postura sempre clara sobre os fatos, dos políticos decisões coerentes com aquilo que prometeram.

É preciso ter, portanto, propostas melhores e pessoas melhores. E pensar que, em poucos meses, teremos em mãos a escalação daqueles que num nível local serão responsáveis por gerir os poderes públicos. Sendo contra ou a favor do impeachment, todos concordam que, melhor do que lutar pra tirar alguém lá de cima, é escolher bem quem vamos colocar lá.

Acompanhei, como muitos outros brasileiros, a votação num clima de torcida. Ao chegar em casa (pouco depois do início da sessão), pude reparar num bar em frente que havia duas televisões ligadas: uma no clássico futebolístico, outra nas imagens da câmara dos deputados. Mas diferente do jogo, havia ali um representante escolhido por mim. Pude acompanhar seu posicionamento e seu voto. O risco que corremos é, diante dessas situações dramáticas, esquecer que não estamos apenas na torcida, mas podemos escolher quem vai entrar em campo. Na verdade, posso dizer que não apenas o meu representante entrou no jogo, mas eu também. Buscando entender, promovendo o que acredito, participando mais ativamente da vida política do país. E enquanto a bola rolar, é preciso ir pro jogo.


Diego Gonzalez
Mestrando em Engenharia Biomédica
Oficina de Valores

0 comentários:

Postar um comentário