Por: Gustavo






O Rio de Janeiro é um lugar fantástico. Andar pelas ruas daqui é pôr-se em meio a um constante conflito, e não me refiro ao conflito armado – não só – mas ao cultural. A diversidade humana aqui é esfregada no seu rosto, é como a chuva da minha Petrópolis: encharca-se dela, inevitavelmente, todos os dias, só de pôr o pé no quintal.

Eu saía outro dia da aula – ou chegava, sei lá – quando ouvi um dos milhares ambulantes que circundam aquela área – que é de UERJ, Maracanã, estação de trem e metrô! – bradar: “Na minha mão é só 1 real! A Dilma não chegou aqui!”

Esse não é o ambulante mais criativo, nem de longe, que já vi por aqui. Nem o mais engraçado – você precisa ouvir o cara das “balas Joyce”. Mas esse cara, o da Dilma, me chamou a atenção. Vou dizer porquê.

Em tempos de crises econômica e política, das quais não pretendo falar porque nem bem entendo, eu sempre me pergunto, sincera e não retoricamente, o que isso muda na minha vida. Não tipo “dane-se a crise”, mas como questão de verdadeira ignorância – “como essa escolha de ministro, esse valor de dólar me afetam?” – e, de novo digo, sei pouco sobre isso. Apesar da minha ignorância nessas matérias, uma coisa eu sei: o que acontece “lá em cima”, no governo, nas grandes empresas, nos outros países tem uma influência grande no meu dia a dia, ainda que isso não me seja claro.

Apesar disso, a verdade é que “aqui embaixo”, na vida do cidadão comum, de classe média/média-baixa/baixa, a coisa corre um pouco solta, alheia a isso tudo. A macropolítica e a macroeconomia são só coisa de jornal, e as coisas da nossa realidade são regidas por uma série de valores, morais e materiais, próprios. Há toda uma vida própria que a galera “lá de cima” nem sonha entender.

Uma coisa são as teorias dos acadêmicos, dos textos das leis e estatutos, outra coisa é o cotidiano, a vida na prática. Um exemplo: as mudanças de limites de velocidade em São Paulo, feitas no ano passado, que estabeleceram 50km/h em avenidas que andam à 10k/h, o que rendeu alguns memes; ou os “pardais” no Rio multando motoristas por ultrapassagem de sinal de madrugada, quando todo mundo sabe que não se pode parar na rua por aqui à noite.

Há uma distância tão grande, mas tão grande, que às vezes parece que o que eles debatem e decidem nos seus palácios e câmaras, ou as negociações nas bolsas de valores, não têm qualquer relação e aplicação na nossa vida cotidiana. Mas tem sim. E essa distância toda, que é menor do que parece, é fruto (1) da indiferença “lá de cima” e (2) da ignorância “aqui embaixo”.

De fato, “a Dilma não chegou” chegou até o meu amigo ambulante. Isso não é a causa do seu preço “baixo”, mas da sua baixa – e incerta – renda. O Pezão não chegou aqui, e é por isso que não se pode respeitar sinais na madrugada do Rio. (Note-se que “Dilma” e “Pezão”, aqui, são só eufemismos para “poder público”.)

É porque o poder público não chegou até “aqui embaixo” que muita gente vive sem saneamento básico, água encanada, segurança, carteira assinada, educação de qualidade, alimento. É porque o poder público não chegou às favelas que há “poderes paralelos” dominando por lá. É porque o poder público não chegou até eles que há tantos pedintes, dependentes químicos e ladrões nas ruas.

Quando o poder público abandona, o povo se “autorrege”, nem sempre da melhor forma. Há muitas iniciativas, ONGs, trabalhos sociais, igrejas, tentando ajeitar a bagunça, mas há muita gente, uma maioria, vivendo na desordem que eles “lá de cima” permitiram. E quando eu penso nisso, lembro sempre de uma música do Biquíni Cavadão que acho que define a nossa situação:


“Os dias passam lentos
Aos meses seguem os aumentos
Cada dia eu levo um tiro
Que sai pela culatra
Eu não sou ministro, eu não sou magnata 
Eu sou do povo, eu sou um Zé Ninguém
Aqui embaixo, as leis são diferentes”



Gustavo Lima
Estudante de Jornalismo - UERJ
Oficina de Valores

0 comentários:

Postar um comentário