Por: Caroline



Recentemente troquei a minha foto de perfil por uma foto na qual eu estava cantando. Havia dito para as pessoas que não gostava de fotos minhas cantando, porque achava que eu ficava feia, e de fato fico. Não sendo uma pessoa de baixa autoestima aqui, ou que fica se achando a feiona, de maneira nenhuma, mas acho que vale uma reflexão. No fim das contas, ficamos com cara de bobos cantando, quase ninguém fica bonito, porque nessa hora não nos preocupamos com o como estamos saindo na foto, ou se tem alguém nos fotografando, estamos preocupados com a canção que cantamos.

Quando fazia parte de um coral de meninas, as Meninas Cantoras de Petrópolis, o maestro sempre lembrava que para sermos boas cantoras precisávamos de uma boa expressão e que uma boa menina cantora, sempre tinha cara de boba. Achava engraçado esse conselho, mas seguia, até quando vi um vídeo meu cantando com o coral e percebi que ficava muito ruim mesmo o visual e então tentei cantar sem fazer “careta” na vez seguinte que cantamos. Fiquei muito preocupada com as caras que fazia ao longo da gravação. 



Confesso pra vocês que eu fiquei um pouco mais bonitinha (rs); não tanto,  por conta do ar nada natural,  mas melhor do que na vez anterior. Porém, há algo para perceber com essa minha atitude: não havia tanta verdade ou profundidade no que fazia, parecia vazio, além da voz não ter sido projetada tão bem, por causa da falta de articulação das palavras, o que faz diferença no canto e também o problema das notas e das letras cantadas com pouca atenção.

A preocupação com algo superficial, algo à margem, fazia a coisa não parecer verdadeira e afetava um coral, porque a beleza do cantar está no canto e não no nosso visual, apesar desse contar para uma apresentação. Porém, a confusão com o que era essencial, afetava um coletivo e eu aprendi com esse grupo que era necessário perceber o essencial, trabalhar para que esse fosse bom e depois, a beleza vinha no todo.

Gosto das minhas fotos cantando, mas porque elas dizem o que significa aquilo que eu faço, o que eu canto, o quanto me custa e me lembra o caminho que trilhei com o coral para que um dom, um presente que me foi dado, pudesse ser lapidado. Quanta responsabilidade precisei ter, quantas coisas abdicadas para cantar em locais tão distantes, quantos vídeos com cara de boba. Mas também quantos sorrisos, quanta felicidade, quantas músicas bem cantadas, quantos erros cometidos e corrigidos para que fôssemos melhores, quanta paz que era levada para tantas pessoas; uma pessoa em seu momento de lazer, numa sociedade tão atarefada, se dava ao luxo de parar um instante e ouvir o coral em que eu cantava. Não tinha porque ligar para uma expressão engraçada, quando as expressões esboçadas pelo público eram um choro, um sorriso, um olhar de atenção, de análise para o que estávamos fazendo, cantando.

O Coral me ensinou a ter profundidade, a fazer as coisas com sinceridade, a trabalhar em conjunto, a ter responsabilidade, a fazer tudo que eu fizer na vida bem feito, me deu boas amigas e me ensinou a gostar das minhas imagens cantando. Ajudou-me também a cantar em público, pois sempre foi uma coisa que eu tive vergonha. Por isso decidi cantar em um grupo grande, no qual havia muitas meninas e eu não seria percebida pelas pessoas. Assim, pude fazer o que gostava e hoje já tenho menos vergonha do que tive um dia. 

Eu cresci com as Meninas Cantoras de Petrópolis, coro que se encerrou há algumas semanas, mas que não acabou e não acabará na memória de diversas meninas que, como eu, aprenderam, cresceram e são quem são hoje por tudo isso. Também não acabará na memória da população da cidade de Petrópolis e de tantos outros lugares a fora, que ouviram esse coral. 

A arte pura não é digna de morte, ela é eternizada e esse Coral é um exemplo disso. Eu sou muito grata a esse lugar que faz parte do que eu sou hoje e esse texto ficará como homenagem a ele.



Carolline Ramos
Estudante de História
Oficina de Valores

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