Por: Fernanda


Imagem de http://redesaude.org.br/


Há poucos dias um caso comoveu o Brasil inteiro e talvez até pessoas além dele.

Não é tão incomum nos depararmos com notícias sobre estupros, algumas difíceis de esquecer. Lembro-me de ter lido nos últimos anos os que aconteceram durante protestos no Egito, a menina de 14 anos assassinada no Morro dos Macacos há três semanas, as 4 jovens jogadas de um penhasco no Piauí há um ano atrás, o casamento no oriente médio de meninas de 8 com homens de 40...

Por mais comum que essas notícias se tornem, elas sempre nos chocam. E o que ocorreu no último sábado é de dar indigestão. Uma adolescente de 16 anos violentada por 33 homens; o crime ter sido filmado; o vídeo viralizar; pessoas culparem a menina.

A vontade enorme que dá de escrever sobre isso se depara com a certeza de que esse misto de sentimentos é bem difícil de expressar, além de se tratar de um tema extremamente desconfortável de falar, de imaginar... Talvez por isso as pessoas precisem tanto apontar um culpado.

Primeiramente, eu considero uma crueldade acreditar que a culpa é da vítima, que a culpa é da roupa, é do lugar, é das escolhas. Acho que quem diz isso o faz por não se colocar no lugar dela. Pessoas comuns, que não tem segurança 24h por dia, estão sempre sujeitas a serem vítimas de algum tipo de criminalidade. Sair da faculdade tarde é um risco, passar em uma rua deserta para chegar em casa, pegar um táxi... Eu já tive uma arma apontada para mim enquanto estava trabalhando. Viver uma vida normal tem seus riscos e é ingenuidade demais acreditar que a roupa que eu escolho ou a festa que eu deixo de ir vão me deixar 100% segura.

Eu posso, no entanto, fazer escolhas na minha vida em prol da prudência, por pior que isso seja. É como não passear pelo Rio de Janeiro de madrugada por medo de ser assaltada. Em uma cidade ideal não deveria existir esse medo, mas não é por que o sistema como um todo está errado que eu vou me arriscar. Acredito que a humanidade deva deixar de ser machista, mas não acredito que o risco de violência sexual um dia será totalmente extinto. Sempre houve e sempre haverá alguém que, por algum motivo (que nunca é justificativa), tentará cometer um estupro. Como haverá quem vai matar, quem vai assaltar, quem vai desviar verba pública...

Não me entendam mal, nada me traz mais indignação do que ouvir alguém falando que alguma mulher “pediu para ser estuprada”. Levantei isso para dar um conselho para vocês, meninas e mulheres, que estão lendo esse texto: o mundo não é perfeito e a prudência pode nos poupar de algumas situações. Existem riscos que precisaremos correr, mas existem coisas que não valem o risco.

Parece injusto exigir que as mulheres mudem seu comportamento por causa de um medo. Eu sei, e todas as mulheres sabem que assédios podem acontecer em qualquer circunstância. Mas parece razoável quando, em prol da segurança, evito algumas coisas na minha vida, quando penso que dou esse conselho para alguma amiga hoje e que daria para uma filha um dia.

A segunda coisa é sobre culpar o gênero masculino como um todo. Considero isso um erro por vários motivos, mas antes de tudo devemos nos lembrar de que, embora seja menos comum, homens e meninos também são vítimas de estupro. E enfrentam também tantos outros vários tipos de violência, enquanto homens e enquanto seres humanos individualmente. Não vamos criar um maniqueísmo onde apenas homens são culpados e apenas mulheres são vítimas! Existem homens bons que estão contra essa atrocidade, assim como existem mulheres que cometem o erro de culpar a menina. Homens, mulheres... Somos todos humanos. Mais importante do que ficarmos uns contra os outros nessa hora é que ambos, homens e mulheres, nos unamos para denunciar os culpados, para repreender quem assiste o vídeo e ironiza o ocorrido e para mudar a mentalidade de uma sociedade acostumada com a violência contra a mulher.

Li uma postagem que disse que os 33 homens não são exceção a regra, são homens normais e que todos pensam assim. Discordo muito disso. Existem muito mais do que 33 homens (e existem mulheres também, aliás) que compactuam com violência sexual e eles não representam os demais, não representam a humanidade. Não me representam.

Não vou me surpreender caso esta menina desenvolva problemas de confiança, como também outras mulheres por causa desse caso. Mas fico imaginando em como acreditar nesta teoria de que “todo homem é um estuprador em potencial” daria um resultado catastrófico na minha vida e na minha rotina... Se isso realmente for verdade, não quero namorar e casar nesse mundo, não quero ser engenheira e trabalhar entre homens nesse mundo, não quero viver nesse mundo.

Então afinal, de quem é a culpa?

De uma cultura machista onde a mulher é um objeto? Sim.

Da menina que estava no lugar errado na hora errada? Não.

De uma resistência da sociedade ao feminismo? Tenho o palpite que não. Feminismo é um termo com múltiplas interpretações e o que pretende o feminismo causa discordância até mesmo entre feministas. Percebo que algumas correntes defendem ideias que chegam a ser nocivas para as mulheres e para a sociedade e que muito bem é feito para as mulheres de lugares não ditos “feministas”. Algumas das primeiras denúncias de que o vídeo continha conteúdo criminoso surgiram de páginas do Twitter consideradas “conservadoras”. Feminista, não feminista.... Qualquer pessoa razoável concorda que foi um crime hediondo e que os responsáveis devam ser punidos.

Parece perturbador pensar que o mundo tem feito progressos em várias vertentes de direitos humanos e que algumas coisas que eram comuns anos atrás hoje concordamos que são absurdas (como o racismo por exemplo). No entanto, há de se notar que em meio a tanto progresso de consciência humana, os dados de violência sexual são chocantes. No Brasil, os números registrados representam uma proporção muito pequena da realidade, por falta de informação, de descrença na polícia e até medo das vítimas. Os estimados, no entanto, são números de guerra.

Mas existe uma culpa que ambas as posições radicais esquecem de registrar: é tão chocante que uma cultura que absolutista o prazer resulte em uma cultura de estupro? Talvez poucas pessoas acreditem que há uma conexão entre as duas coisas. Mas um pensamento que tende a considerar tudo normal, tudo possível, pode ter esse tipo de consequência. Se somos educados a nunca segurar os impulsos, chega a ser surpreendente que alguém coloque seus impulsos acima da dignidade de outros? Precisamos começar a pensar nas consequências daquilo em que acreditamos.

Uma prova disso é a quantidade de acesos que o vídeo teve. Os 33 que cometeram o crime devem ser punidos. Os que acreditam que a culpa é da menina precisam pensar melhor. Mas os milhões que assistiram ao vídeo precisam rever essa atitude. Não acredito que “ser levado por curiosidade” é desculpa. Quem promoveu esse vídeo precisa ter noção do que isso representa para essa adolescente.

É difícil saber agora o tamanho dos sofrimentos físicos e psicológicos que ela sofreu por ser violentada, mas dentre tantas coisas, o fato de ter sido tão visto e de ser encarado como um entretenimento, como uma piada é motivo de sofrimento para ela. Então, quem assistiu o vídeo, ainda que a abomine o que fizeram a menina, entrou em uma estatística que serviu para aumentar sua dor. Para você que lê esse texto, eu peço uma coisa, por respeito a essa menina: não assista, não curta, não compartilhe esse vídeo.

Eu rezo para que essa menina encontre justiça. E rezo, principalmente, para que encontre forças para superar o que aconteceu.

Termino dizendo que como mulher eu espero que os responsáveis encontrem as consequências legais, que as pessoas não caiam no erro de julgar a vítima e que maldades assim não se espalhem tão naturalmente pela internet. Espero também que as pessoas não fechem os olhos para essa realidade de violência e que as políticas públicas protejam as mulheres. Enquanto mulher, eu acredito no ser humano, acredito em redenção e acredito na superação da dor. 


Fernanda Gonzalez
Mestranda em Engenharia Urbana
Oficina de Valores

2 comentários:

Anônimo disse...

Precisa de um titulo para escrever um texto? Ah tá como é mestrada em engenharia sabe o que fala.

Mas de qualquer maneira concordo com tudo que foi escrito, a violência existiu, mesmo que tenha iniciado com consentimento, como algumas falam.

Fiquei inibido de botar meu nome, pois não sou graduado.

Alessandro Garcia disse...

Olá,
Antes de qualquer coisa, obrigado pelo comentário.
Agora respondendo sua pergunta: Não é necessário ter título para escrever para o blog. Há vários textos escritos por estudantes de Ensino Médio, por exemplo.
Acontece que vários dos colaborares são universitários e achamos bacana colocar a formação de quem escreve.
E não precisa ficar nem um pouco inibido, somos todos amigos e boas ideias não são monopólio de quem tem graduação. Fique à vontade. Sempre!

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