Por: Breno

“Rua Conde de Bonfim, ao lado do cinema”, pronunciou com ar soturno. O taxímetro começou a contar, 4,75... 4,95... 5,15... O silêncio posterior ao endereço certamente era incômodo, mas havia tanto incômodo no que acabara de presenciar que o silêncio do taxímetro contando as cifras foi absolutamente redimensionado, embora ainda fosse constrangedor, não fazia sentido algum preocupar-se com aquilo.

O radialista comentou com altivez. Proclamou uma nova solução para o fim da corrupção endêmica no Brasil. Mas o passo a passo não era tão novo assim, afinal o taxista começou a descrever, quase que como em um texto bem ensaiado de um monólogo teatral levado a cabo por dois atores, os passos para alcançar a façanha institucional que não fora realizada nos últimos 500 anos. “Agora vamos à escalação do Flamengo para o jogo de hoje à noite”, era quarta-feira. As confirmações acerca do lamaçal da política brasileira vinham do banco do carona de maneira monossilábica. 

13,25... 13,45... Em uma ação de rebeldia deliberada contra as regras da etiqueta, afinal ele precisava se concentrar nas questões realmente importantes da noite, decidiu-se por agir de maneira extrema, pensou bem se realmente faria aquilo e fez, fechou os olhos. Com frequência o drástico é tão singelo quanto um fechar de olhos. Os comentaristas calaram, não se sabe ao certo se concretamente ou se foram calados pelas questões que começaram a se apresentar confusamente de forma caótica e randômica. Eram questões dignas da filosofia alemã. Aliás, o nome do que lhe havia gerado esse movimento interior também era alemão, “ou talvez suíço”, divagou.

Abriu os olhos, procurou o celular, retirou-o do bolso esquerdo de um jeans surrado, fez a combinação que destravaria o celular e errou duas vezes. Na página do Google digitou “Alzheimer”, parou por um milésimo e concluiu: “depois faço isso”.

Fechou os olhos novamente, bem quando o taxista se preparava para falar alguma coisa a mais, provavelmente irrelevante. Abriu o olho porque precisava conferir o taxímetro. 18,95. Passou discretamente a mão nos bolsos para conferir se havia dinheiro para os aproximados 27 reais que passaria a dever para o senhor de cabelo grisalho ao seu lado, com sua barba branca e rala e sua voz marcada por um cansaço rouco, mas que agora estava calado de olho no trânsito. Tranquilizou-se ao lembrar da nota de 50 reais no bolso do lado de fora da mochila.

Não precisou fechar os olhos para concentrar-se novamente naquilo que não gostaria de perder naquela noite, a oportunidade de pensar nas questões importantes sobre sua senhora de 86 anos que indiretamente lhe deu a vida por uma geração de antecedência através de sua mãe. Mas angustiou-se com o fato de que, para pensar o que mais precisava pensar, era necessário um enorme esforço que já havia sido malsucedido anteriormente durante os minutos da caminhada entre o hospital e o ponto de táxis feita lentamente e com paradas propositadas.

“Qual a dimensão do sofrimento para alguém que não se lembra do que anda sofrendo? O quanto ela sofre com todo esse esquecimento atroz?”, “Ela realmente se lembrou de mim naquele momento, ou só se constrangeu por não lembrar?”, afinal, “Ela ainda é ela?”. E percebeu que gostaria que nenhuma daquelas questões fossem apresentadas em forma de sofrimento naquela alma. Quis da maneira mais profunda que o seu querer podia alcançar, percebeu que já estava cansado e nem se esquecera de nada naquela última hora, “imagina como é pesado pra ela!”. O elevador que subia ao quarto andar parecia mais lento e pesado que o normal, o troco de 23,50 não conferidos já estava em algum lugar colocado displicentemente.

Abriu uma porta e uma gaveta à procura de uma foto e percebeu uma coisa da qual havia se esquecido também, o valor da memória. Esquecera-se de fotografar e eternizar aqueles momentos com ela, quase correu de volta, mas, ao contrário, pôs-se a escrever. 

Houve uma noite e depois uma manhã, lembrou-se dela carinhosamente com seu sorriso, seu esquecimento e seu envergonhar-se sapeca diante dele, seu balbuciar era estranhamente aveludado e acalentador e apresentava-lhe um mundo de antepassados no qual era bom estar. Lembrou-se de tantas coisas que não conseguiria com algumas fotos, a textura das mãos morenas marcadas pela idade e por uma vida inteira de venturas e desventuras. Lembrou-se ainda da cor de sua unha, vermelho escuro, e foi estranho pra ele lembrar-se de tantas coisas de alguém tão esquecido. Mais um dia. E nele o mais importante foi lembrar-se do quanto a amava, profundamente.


À Heloisa.


Breno Rabello
Mestrando em Sociologia
Oficina de Valores

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