Por: Alessandro

Não é comum que eventos dos quadrinhos tornem-se notícia fora da mídia especializada. Claro que há exceções... A morte do Superman causou comoção mesmo nos que não liam quadrinhos. Houve também grande bate boca por uma pequena história na qual esse personagem renunciou à cidadania americana. Poderíamos citar ainda as manchetes sobre o Homem-Aranha negro...

Pois bem, recentemente viralizou na internet a notícia de que o Capitão América sempre foi um agente infiltrado da Hidra, uma organização de origem nazista. Como a Hidra esteve presente nos três filmes do personagem, muita gente sabe o que ela simboliza e a tem como a principal adversária do Capitão. Sendo assim, Steve Rogers ser desde a sua origem um membro de tal grupo é facilmente percebido como algo inusitado e que subverte toda a história que conhecemos até aqui.

Para quem já está acostumado com quadrinhos de super-heróis, notícias desse tipo não são algo tão inusitado. Recentemente o Homem-Aranha teve seu corpo ocupado pela mente do vilão Doutor Octopus e o  Homem de Ferro passou para o lado negro da força. Além das “surpreendentes” vilanizações, há as inserções de fatos no passado dos personagens, as perdas e mudanças de poderes, as constantes mortes e ressurreições. Esta última situação é tão recorrente que chega a ser motivo de piada entre os leitores. Tempos atrás li o seguinte comentário que julguei muito perspicaz: nos quadrinhos, quem é morto sempre aparece.

Essas constantes mudanças nos personagens acontecem por vários motivos. O primeiro deles é que nos quadrinhos de super-heróis as histórias literalmente nunca terminam. Não é que não existam finais, mas cada história entra em um todo maior: a famosa cronologia. Sendo assim, para que não se caia na mesmice,  são necessárias constantes novidades. Além disso, a indústrias dos quadrinhos vive também do hype que suas narrativas provocam. Ou seja, as pessoas compram as histórias das quais elas escutam falar.

Há, no entanto, outro lado. Se as mudanças são constantes, elas não podem transformar drasticamente os personagens. Pensemos no Batman, por exemplo. Um escritor até pode fazer com que Bruce Wayne seja dado como morto e, por um tempo, o Comissário Gordon assuma o manto do morcego. Contudo, mais cedo ou mais tarde, o bom e velho Bruce voltará a vestir o capuz. Isso acontece porque no imaginário coletivo, o Batman é o menino que teve seus pais assassinados e qualquer mudança substancial pode fazer com que o personagem não seja mais reconhecido. Ou seja, as coisas podem mudar à vontade, mas elas devem voltar ao mesmo lugar. Ou quase. 

Dito isso, o Capitão América agente da Hidra, muito provavelmente, não é uma mudança definitiva no status do personagem. Provavelmente daqui a algum tempo o Capitão voltará a ser o que sempre foi: o bom e velho Steve Rogers, menino franzino de Nova Iorque que submeteu a experiências com o soro de supersoldado para lutar contra o mal vestindo a bandeira do seu país.

Desconsiderando todo o desconhecimento que grande parte das pessoas tem do funcionamento da mídia dos quadrinhos, cabe perguntar por que essa mudança causou tanto alvoroço? É só um personagem da cultura pop. Só um gibi! Claro que há aqueles que são “sem noção” e tratam o entretenimento como se fosse a mais sagrada das coisas. Essas são as pessoas que ameaçaram o escritor Nick Spencer por ter transformado o Capitão em um nazista. Mas mesmo deixando de lado essas pessoas, o contingente de insatisfeitos é considerável. Lembro-me de uma moça judia que escreveu: Quer dizer que o Capitão América não gosta de mim?

Sim é só um personagem da cultura pop. São só gibis. É só fantasia. Tudo isso é verdade... Acontece que a ficção é algo muito importante para cada um de nós. Diz Chesterton que fatos são aquilo que o mundo nos dá e a ficção é aquilo que damos ao mundo. Crescemos ouvindo histórias e elas formam nosso imaginário. Criamos afeto por personagens fictícios dos quais aprendemos, reafirmamos e projetamos valores, sentimentos e ideias. E nesse contexto, o Capitão América é um personagem de um tipo muito especial: o justo bondoso. Ele é alguém para quem os fins não justificam os meios e que acredita sempre existir uma alternativa correta nas situações difíceis. 

Não é incomum este tipo de personagem ser considerado bobo e ser tido como chato. Heróis cínicos ou anti-heróis acabam por fazer bem mais sucesso. No entanto, parece que não gostamos que desconstruam estes bobos chatos. Eles funcionam como símbolos de que a bondade é possível, de que existem pessoas que não negociam seus valores e que estão dispostas a dar a própria vida pelo bem.

Mas a Marvel lançou uma história do Capitão América declarando pertencer a Hidra! Sim, lançou. No entanto, vale lembrar que a história está apenas no primeiro número. Poucas páginas mostraram isso. E não há dúvidas de que algumas explicações virão. Nick Spencer é um escritor competente e é bem possível que uma boa história saia disso tudo. E é praticamente certo que o Capitão Nazista volte a ser o Capitão América ao fim e ao cabo. Já há boas teorias de fãs que especulam sobre o que de fato está acontecendo.

E se o Capitão América for transformado em nazista mesmo? Bom, isso seria muito triste. Triste porque isso significaria que nunca existiu um Capitão América, que nunca houve um Sentinela da Liberdade. Isso significaria que, para Steve Rogers, a bondade seria uma máscara para o mal e a luta pela justiça apenas um disfarce hipócrita. O Capitão seria apenas mais um vilão como tantos outros que ele combateu e que, em nome das virtudes que ele fingiu defender, deveria agora ser combatido por outros.

Sim, isso seria triste. Triste porque, por mais que a maldade esteja ao nosso redor, cremos no mais íntimo que o bem deve vencer no final. Cremos que esta vitória do bem é fruto do compromisso cotidiano de pessoas boas, que podem ser consideradas bobas, mas que não deixam de lutar. Cremos que um indivíduo pode fazer a diferença. E o Capitão América funciona como um ícone disso tudo. E, por mais que não admitamos, frequentemente nós precisamos destes símbolos. Nossa imaginação deve ser alimentada por eles para que assim a fantasia possa nos inspirar a continuar buscando transformar a realidade.

Se o Capitão América fosse uma farsa, isso não tornaria falso aquilo pelo que, em suas centenas de aventuras, ele lutou.  E nessa situação, apesar da tristeza pela traição do herói, a luta continuaria e as histórias também; afinal,  a decepção com os ícones (sejam reais ou imaginários) não implica na desistência para com os valores por eles representados. E a Hidra ainda continuaria por aí, e agora com um forte aliado. Ou seja, o mundo, mais do que nunca, precisaria de heróis.



Alessandro Garcia
Doutorando em Sociologia
Oficina de Valores

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