Por: Alessandro


Imagem: divulgação


Eu não ia escrever essa resenha. Não vi o filme logo que foi lançado e não tinha grandes expectativas. Embora ache “X-Men: Primeira Classe” um dos melhores filmes de super-heróis já feitos e tenha curtido “Dias de um Futuro Esquecido”, admito que “X-Men: Apocalypse” não me despertava grande interesse. Claro que tinha curiosidade e iria ver o filme, mas não havia ansiedade. Parte disso vem do fato que preferia que Matthew Vaughn, diretor de “First Class”, tivesse continuado na franquia. Sou daqueles que não celebrou o retorno de Bryan Singer aos filmes dos mutantes.



Dito isso, admito, para usar uma expressão da minha mãe, que queimei a língua! O filme é muito divertido e consegue trabalhar muito bem com vários personagens. Traz algumas referências visuais que fazem a alegria dos leitores de gibis e tem um roteiro que, embora seja simples, envolve bastante. 

Claro que sobram problemas. Há algumas atuações abaixo da média. As atitudes de alguns personagens durante o filme não são consonantes com suas motivações. As “viradas de casaca” poderiam (e deveriam) ser melhor explicadas. Há na batalha final um erro tático grosseiro que não dá para ser explicado pela pouca experiência dos heróis. Por fim, sou daqueles que não gostam do destaque dado à Mística, fruto apenas do fato dela ser interpretada pela Jeniffer Lawrence.

Bom... outros erros e acertos técnicos poderiam ser comentados, mas deixarei isso de lado para dizer o que esse filme tem e que me fez sair do cinema muito empolgado.

Esse é o terceiro filme da segunda trilogia dos X-Men. Ao contrário daquilo que a Sony fez com o Homem-Aranha, a Fox resolveu não esquecer o que foi feito nos filmes anteriores para relançar a franquia. A decisão foi refazer a história dentro da própria história. Por isso “X-Men: Primeira Classe” passou-se durante a década de 1960 e focou-se na juventude de Magneto e Xavier. Esse era o passado oficial da primeira trilogia. 

Acontece que sobravam contradições. Então “X-Men: Dias de um Futuro Esquecido” amarrou as pontas com uma viagem no tempo. Wolverine voltou ao passado e alterou o futuro. Ou seja, toda a primeira trilogia e os filmes dela derivados “deixaram “de valer”. Algo parecido foi feito com o reboot de Star Trek levado a cabo por J. J. Abrams. certo que pode parecer confuso, mas meu lado “nerd leitor de quadrinhos” não consegue não vibrar com essas coisas.

E o terceiro filme? Nele vemos o fim do processo de formação dos X-Men. Charles Xavier nunca quis soldados, mas alunos. No entanto, acabou tendo que ceder e criar a equipe mutante que existe para proteger um mundo que a teme e odeia. Tudo isso foi feito bem devagar e, a meu ver, de maneira relativamente bem amarrada. É a primeira vez na história do cinema que temos uma trilogia para contar a origem de um grupo.

... Concordo que esses motivos, embora interessantes, não constituem a principal causa da minha empolgação. Essa é fruto também de outros detalhes e de um elemento central. Entre os detalhes friso a tentativa da Fox de fazer filmes mais sérios com os heróis, sem os constantes alívios cômicos do Marvel Studios. Estou dizendo que as piadas dos filmes da Marvel são ruins? Algumas vezes sim, outras não. No entanto, acredito que os fãs apenas ganham com a variedade de estilos e que por vezes tenho medo que o “Marvel way” vire uma receita de bolo para todo e qualquer filme de super-heróis.

Deixando de lado os detalhes e indo direto ao ponto central: o que mais despertou meu interesse no filme foi ver como o confronto entre En Sabah Nur e os pupilos do Professor Xavier simbolizou o choque entre duas éticas, entre duas visões de mundo. De um lado estava Apocalypse, o primeiro mutante do mundo, que acreditava no governo dos mais fortes. Para ele, o mundo só seria melhor se fosse dominado pelos poderosos e se o próprio Apocalypse estivesse no topo da pirâmide. Do outro lado estavam os X-Men, que acreditavam que poder é serviço, que os fortes devem proteger e não dominar. Enfim, estavam aqueles que acreditam que para além dos dons, os seres humanos são unidos por uma igual dignidade.

Diante dessa ideia, não consegui deixar de pensar em um milhão de coisas. Quero mencionar algumas delas. No início do filme é dito que En Sabah Nur governou o mundo 3600 anos antes da era comum. Ou seja, governou antes da filosofia grega e da ascensão do cristianismo. Antes de Sócrates e de Jesus Cristo. Antes que a amizade à sabedoria fosse tida como um dos mais belos projetos a que alguém poderia se dedicar. Antes também que as ideias de que todos somos irmãos e que o amor deve ser a nossa maior lei tivessem se espalhado pelo mundo.

Para que o leitor não desista desta resenha por julgar que desejo fazer proselitismo, quero sossegá-lo. Não é essa minha intenção. Continuo com o filme na cabeça. Acontece que foi exatamente nessas crenças que o filme fez que eu pensasse. Saí do filme com um sorriso no rosto pensando no legado que carregamos. Na alegria que temos por viver em mundo no qual, embora tenha muita dor e injustiça, não se julga correto dizer que os fracos não valem nada, que devem ser deixados de lados. Discordamos em muitas coisas, mas a grande maioria acredita que a força não deve ser a medida da justiça, que misericórdia é virtude e não fraqueza, que importar-se com o outro é um dever de todos e de cada um.

No filme, esses valores estão presentes principalmente em Charles Xavier que, apesar de poder dominar a todos, aposta na liberdade e acredita que a bondade está dentro mesmo daqueles que todos consideram maus. Mas não é apenas ele que porta esses princípios. Eles também estão na moça que usava o dinheiro de seus furtos para ajudar outras crianças pobres e que sonhava em ser heroína. No jovem escravizado e colocado para lutar por sua vida em uma jaula, mas que soube manter a esperança e a fé. No homem que teve sua família morta, mas que no último instante preferiu agir de maneira em correta no lugar de ceder à vingança. Enfim, em vários personagens que tinham tudo para abraçar a causa de En Sabah Nur, mas que escolheram um caminho mais difícil e mais humano.

Enfim, “X-Men: Apocalypse” mexeu muito comigo porque transformou em imagens, personagens e história algumas das crenças que professo e amo. Na luta dos mutantes projetei as minhas e as nossas lutas. Por um mundo melhor e mais fraterno. Pela aceitação da dignidade da pessoa humana. Contra a negação da liberdade e da vida. 

Antes de terminar, não posso deixar de pedir desculpas pelo tom um tanto quanto meloso dessa resenha. Peço que me compreendam. Não é todo dia que um filme de ação/aventura faz com que pensemos naquilo que esse fez com que eu pensasse...



Alessandro Garcia
Doutorando em Sociologia
Fundador da Oficina de Valores

1 comentários:

Binho Kraus disse...

Pensei basicamente a mesma coisa que voce ao assistir o filme, claro, não pela mesma via, mas cheguei as mesmas conclusões. Isso fica evidente em uma determinada cena envolvendo o Apocalypse e o Professor Xavier. O professor fala uma frase, que demonstra exatamente esse ponto que vc ressalta. Não vou dar mais spoiler, fica ai a dica pra quem ainda não assistiu...

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