Por: Gustavo
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Din-don!

- Detesto essa campainha

Toc toc toc! Toc toc toc!

- JÁ VAI!... Gente mal educada... QUEM É?

- Bom dia, Ana!

- O que você fazendo aqui, Maria? E a essa hora da manhã?

- Ah, menina, você sabe... o Whatsapp parou e... bom, eu queria te dar bom dia. Então eu vim.

- Maria! Fala sério! Você não me dava bom dia pessoalmente antes do Whatsapp!

- Mas é que eu acostumei...

- Você podia ter ligado, mandado mensagem de texto, sei lá!

- Mas é que paga...

(Silêncio constrangido)

- E, se eu tivesse ligado, não ia poder te dar isso.

(Ela entrega um papel à irmã)

*** Que o teu dia seja belo com esta flor ***

- Pra você colocar na porta de geladeira, assim o joãozinho vê também! Aliás, ele aí? Posso dar bom dia pra pro meu sobrinho favorito?

- Ah, você não pode estar falando sério! Vai embora, vai dormir...

- Olha, eu vim aqui, toda educada, dar bom dia pra você e pra sua família. Eu esperava isso da Sílvia, ela sempre foi grossa desde criança, e do Carlos, aquele caçula mimado, bateu a porta na minha cara, mas de você...

- Você foi na casa de todo mundo da família?

- É errado querer fazer uma visita?

- Às seis da manhã, é!

- Mas é que tenho que ir pro trabalho daqui a pouco. E tenho que chegar cedo pra imprimir o meme do gatinho de gravata usando o computador pro pessoal de lá.

- Você é louca! ... O que você tá digitando? O que qu...? Sério, um emoji do dedo feio? Vai se tratar.

BAM!

- Ela bateu a porta na minha cara! ESPERA SÓ O ZAP ZAP VOLTAR! VOCÊ VAI VER! VOU ENCHER O GRUPO DA FAMÍLIA DE FOTO SUA BÊBADA! Louca!

(Alguns passos depois)

- Saudades, Whatsapp. Você realmente aproxima as pessoas.

* * *

Esse texto seria sobre o bloqueio do aplicativo mais querido do Brasil, mas esse bloqueio foi tão liberal – dá-lhe jeitinho brasileiro –, que acho que nem vale a pena. Mas dá pra aproveitar a deixa. 

Sim, você pode viver sem o Whatsapp. E, confesso, eu me sinto um pouco bobo tendo que dizer isso porque, convenhamos, é óbvio. Eu não quero ser chato, falar de como a tecnologia pode afastar as pessoas, que abraços são melhores que mensagens (o que também é óbvio), que nada substitui o olho no olho, em suma, não quero repetir clichês – desculpa, já fiz. Mas é bom dizer: clichês são clichês por alguma razão.

Melhor que dizer “saia um pouco do Whatsapp” é dizer “faça essas coisas legais”, e deixar subentendido que isso vai implicar em – cuidado com o susto – dar um pouco menos de tempo ao mundo virtual.

Visite pessoas – num horário aceitável, é lógico. Quando foi a última vez que você foi à casa de um amigo, num dia qualquer, sem motivo, pra bater papo? Ou, pergunto, você conhece as casas dos amigos com quem mais fala virtualmente?

Você pode ler um livro. Faça as contas, por alto: o número de mensagens que você lê por dia equivalem a quantas páginas de livros? Ou reformulando, quantos livros você já poderia ter lido desde que se tornou usuário do zap?

Você pode, enfim, dar fim ao seu sedentarismo. Não precisa virar musa(o) fitness, mas uma caminhada, ver gente, descobrir uma paisagem nunca observada nas redondezas da sua casa.

Você também pode baixar outro aplicativo. Falar pelo Facebook. Ou sentar e chorar, como sugerem alguns memes. Eu não recomendo.

As pessoas dizem “mas ninguém tem tempo, por isso a gente se fala pela internet”. Talvez, pense bem, nós tenhamos renunciado ao tempo. Renunciado ao tempo, acreditando que era possível fazer mais em menos. Há um erro: dos elementos do processo – a máquina e usuário – só um evoluiu nos últimos anos. Os computadores podem ser mais rápidos, nós ainda somos, em essência, os mesmos. Talvez seja melhor adaptar o ritmo das máquinas ao nosso, em vez do inverso. Como diz o Emicida, “resta a nós saber se colocar, saber usar os meios sem deixar os meios usar nós”.



Gustavo Lima
Estudante de Jornalismo
Oficina de Valores

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