Por: Gustavo
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Veja se advinha de que história é essa descrição: o mocinho é o maioral, todos o adoram porque ele é o melhor no que faz. Em algum momento, ser bom assim o atrapalha, ele se perde, o sucesso sobe à cabeça, ele falha, torna-se desacreditado. Mas, no fim, coloca a cabeça no lugar (algum sábio ou situação deu-lhe uma bela lição de vida) e ele faz tudo certo novamente, conserta os erros e salva o dia, voltando a ser adorado e amado por todos (os bons, não os vilões). Adivinhou? Exatamente: quase qualquer história.

Isso porque, no estudo da narrativa, a gente aprende: uma boa história tem como personagens essenciais um mocinho, um vilão e um bobo; como momentos, uma premissa feliz, um anticlímax que quebra essa felicidade e um final (de novo) feliz. A receita de bolo das histórias de sucesso.
A vida real, claro, não segue os nossos roteiros de cinema ou de histórias infantis. Histórias sem final feliz acontecem. Às vezes, o mocinho vira vilão mesmo. Ou o bobo.

Esta semana, a história de uma das melhores gerações do futebol argentino teve um possível final, não muito feliz. Ao perder a Copa América Centenário para o Chile, a seleção argentina teve seu quarto vice-campeonato seguido (um em Copa do Mundo, três em Copa América), dando sequência a um jejum de fazer inveja ao mais espiritualizado dos crentes e religiosos: 23 anos sem títulos!

Após a partida, Messi anunciou: “a seleção acabou pra mim”. E a declaração do maior craque dessa geração, melhor jogador do mundo na atualidade, pode ter sido estopim para uma debandada de vários outros (não tão grandes) craques. Os argentinos não perdem as esperanças, pedem nas capas dos seus jornais que Messi fique. A decisão realmente, pelo contexto em que foi tomada, pode ter sido provisória, coisa de “cabeça quente”. Será realmente o fim?

Messi tem 29 anos – idade com que Pelé fez o milésimo gol, o argentino tem cerca de 500, mas isso é só um comentário. Há algumas décadas, isso era uma idade avançada pro futebol, mas hoje é possível jogar em alto nível até os 33 ou 34, tranquilamente, ou até mais. Daria pra jogar mais uma ou duas Copa América e mais uma Copa do Mundo bem, e talvez outra Copa no sacrifício. Mas ele diz que desistiu.

É evidente que a decisão de Messi é fruto da sua frustração. É cansaço de dar com a bola na trave (ou no pipoqueiro da última fila da arquibancada, no caso do pênalti que Messi bateu). A questão é: ele nunca vai saber, vendo de casa, se aqueles campeonatos que a Argentina vai jogar sem ele não seriam vencidos com ele. Assim, a frustração, que “decide” por ele, o vence.

O problema de desistir é que a próxima tentativa sempre pode ser a de sucesso, mas, não sendo feita, sempre haverá dúvida e frustração. Quem desiste antes do fim, mesmo que tenha obtido vitórias ao longo da carreira, termina derrotado. Poder dizer a si mesmo “fiz tudo que podia” é uma vitória, senão a que se desejou, talvez uma mais importante: a vitória sobre si mesmo. Isso porque mais importante que ser o melhor de todos é ser o melhor de si.

Mas falando em melhor de todos, a desistência de Messi também é uma balde de água gelada na maior aspiração dos seus fãs (e talvez dele mesmo, apesar de nunca ter dito nada sobre): que ele seja o maior da história do futebol – e ter uma Copa do Mundo é pré-requisito pra entrar na disputa. Um objetivo grandioso, e possível, pelo talento que o argentino tem. Sua aposentadoria da seleção é certamente uma renúncia a isso, e pode significar que ele não se importa muito em ser o melhor. Mas pode ser mais trágico: talvez seja um sonho de Messi, que nunca vai ser realizado porque ele desistiu.

É lógico que a persistência é boa a depender da recompensa, do valor dela em si e do valor para quem a busca. Seria burrice Messi continuar tentando se não é importante pra ele, se for só porque outros dizem que ele deve. É vão persistir numa vida que frustra porque alguém disse que você deve.

Mas quando falamos de um objetivo, de um sonho, que seja sinônimo da realização da própria vida, ouso dizer que persistir é a única opção: desistir seria perder tudo. Mesmo que seja, e principalmente se for, difícil continuar, afinal, “é justo que muito me custe o que muito me vale” (Santa Tereza d’Ávila).

Em suma, quero dizer que não devemos desistir porque – citando Shakespeare, um grande contador de histórias, o maior dos dramaturgos – se “tudo está bem quando acaba bem”, toda história – a sua história! – merece um final feliz.


Gustavo Lima
Estudante de Jornalismo
Oficina de Valores

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