Por: Diego
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Estou escrevendo este texto cansado, com uma certa vontade de dormir ou sentar no sofá e abrir um livro (daquela pilha de livros “não lidos” que cresce cada dia mais). E você possivelmente também está lendo esse texto cansado (eu diria “provavelmente”, se está lendo à noite ou se acordou cedo demais hoje). Mas não entremos em pânico, nem pensemos que somos vítimas indefesas dessa sociedade pós-moderna. Estar cansado é normal e, desde que a humanidade tem alguma lembrança de si mesma, as pessoas precisam descansar.

Mas olhando para os dias de hoje, não é raro ver pessoas ansiosas (e às vezes desesperadas) por férias ou contando os dias para o próximo feriado. Há pouco tempo, um aluno da faculdade onde estudo largou tudo e partiu para umas “férias antecipadas”. E vez ou outra encontramos pessoas que chutam o balde diante das cobranças do trabalho, dos TCCs da vida, das semanas de prova, etc. Passamos por situações atípicas, de cobranças excessivas que parecem estar acima de nossas capacidades? Sim, e até o fim da vida mais algumas devem aparecer. Mas existe também o fato de, por vezes, não termos muita noção de como viver nosso tempo de descanso.

Há uma ideia, um tanto quanto equivocada, de que descansar é apenas não fazer nada. Ficar o dia inteiro dormindo ou virar a noite “zapeando” nos canais de TV ou envolvido em conversas (muitas vezes inúteis) no Whatsapp ou Facebook. O problema é que essas coisas não “recarregam” nossa energia para seguir em frente, para mais uma semana ou semestre, ou o fazem de forma incompleta. E por isso muitos voltam do final de semana da mesma forma (ou até pior) do que saíram na sexta-feira.

Lembro que há alguns anos fui fazer uma trilha e, depois de seis horas de caminhada, quando voltávamos cansados e satisfeitos, um médico que estava no grupo fez uma explicação que me faz pensar até hoje. A ideia é de que, para renovar nossas forças, precisamos descansar de três maneiras.

A primeira é um descanso físico e a principal forma de fazermos isso é dormindo. Mas dormindo mesmo! Deitar e ficar horas vendo televisão ou mirando na telinha do celular (e perder preciosas horas de dormir com isso) não nos leva a um sono tranquilo. Da mesma forma que acumular horas de sono para “sacar” tudo no final de semana não funciona (lembro-me da história da menina que anotava as horas de sono perdidas durante a semana e que tentava dormi-las todas de uma vez no fim de semana).

Outra forma é o descanso mental. É o que aquela trilha na montanha, o bate papo com os amigos, a leitura de um bom livro ou assistir a um bom filme nos proporcionam. Precisamos tirar alguns momentos para não pensar nas preocupações do trabalho ou estudo. Obviamente, só consegue fazer isso aquele que se esforça para cumprir suas obrigações no momento devido (quem perde o tempo que deveria estudar vendo séries acaba não as aproveitando por preocupações com o estudo!).

A terceira forma é um descanso espiritual. O homem tem uma dimensão transcendente, que anseia e busca por satisfação, tem uma sede de infinito. Quem não para e pensa nisso, refletindo, lendo sobre, rezando, acaba por ir tocando a vida sem pensar no seu sentido. O psiquiatra Viktor Frankl, que passou longos anos num campo de concentração, dizia que quem tem um “porquê” suporta qualquer “como”. Qualquer fardo pode se tornar pesado quando não se sabe para onde tem que levá-lo.

Um descanso completo precisa unir pelo menos um pouco de cada coisa. E precisa ainda de uma boa dose de generosidade. Muitas dessas atividades exigem o silêncio e a solidão como pré-requisitos (como dormir, ler ou fazer uma oração). Mas temos que tomar cuidado para não utilizar nosso tempo livre de forma egoísta, nos fechando num próprio mundinho. Por mais que a curto prazo pareça tentador “se isolar”, encontramos também a paz doando um pouco do nosso tempo livre para dedicar a família ou encontrar com aquele amigo que precisa de um apoio.

O cansaço desnecessário é prejudicial ao corpo, à mente e à alma, e por isso deve ser evitado. Mas o cansaço tem também o seu valor: ensina-nos a reconhecer nossas limitações e vermos quando precisamos parar ou pedir ajuda; nos ajuda a criar a fortaleza para cumprir nossas metas (afinal, nem sempre teremos todo o tempo que precisamos para descansar); é um exercício para o bom humor e a cordialidade (quem aprender a dar um sorriso de “bom dia” depois de uma noite mal dormida, não terá maiores dificuldade de fazê-lo depois de 7h ou 8h de sono).

Devemos enxergar o descanso não como um luxo, mas como obrigação! Da mesma forma que pensar na ociosidade como o estado natural do homem (e o trabalho como uma infeliz obrigação) pode nos fazer resmungões e preguiçosos, olhar para o descanso como “apenas algo a mais” nos levará a desconsiderar a importância desse tempo precioso. E nada mais precioso do que, depois de um dia ou uma semana cansativas, ter um bom tempo livre para descansar.

Diego Gonzalez
Mestrando em Engenharia Biomédica
Oficina de Valores

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