Por: Cleber
Imagem: Spiridon Ion Cepleanu / commons.wikimedia.org/wiki/File:HitlerStalin.jpg


Recentemente, em uma conversa no Facebook, me disseram que eu tinha tendências fascistas. De pronto, não aceitei a crítica, mas, como toda crítica que recebo, passei a pensar na questão para ver se realmente eu não estava sendo um pouco fascista. Rapidamente cheguei a confirmação do que eu havia dito de pronto para meu interlocutor. NÃO! EU NÃO SOU E NEM TENHO TENDÊNCIAS FASCISTAS! Mas seria muito raso da minha parte parar a reflexão por aqui. Então continuei pensando nos fatores que poderiam levar as pessoas a pensarem como este meu interlocutor e percebi que, hoje no Brasil, ou você é comunista ou é fascista.

O mais engraçado é que não há outro caminho e, nesse disparate, as pessoas conseguem a proeza de ser os dois. Dependendo da sua posição política, quando você conversa com alguém adepto aos pensamentos de esquerda, você é fascista e, quando você conversa com alguém da direita, você é comunista. O que será que anda acontecendo com o nosso povo? Como chegamos a esse ponto? São perguntas que eu não sei responder, mas quero propor uma reflexão para que eu, você e todos que lerem este texto possamos fazer uma autocrítica e verificarmos se nós mesmos não estamos fazendo parte desta polarização insana dos dias atuais. Para tanto, vou ressaltar três pontos básicos que, a meu ver, são fundamentais para esse tipo de reflexão. Obviamente, isso não é o suficiente para abordar um assunto tão polêmico, porém, é um começo para que possamos ao menos nos esclarecer melhor.

O primeiro ponto, em que a meu ver muita gente já erra, é não saber o que é o comunismo ou o fascismo. Em geral, as pessoas desconhecem tanto um quanto outro. Penso que o fato de chamar as pessoas de fascistas ou comunistas se dá não por reconhecer nelas tendências a uma ou a outra ideologia, mas serve meramente para se atribuir um rótulo e nada mais. Hoje, esse rótulo também funciona como uma espécie de "cala boca", afinal, é muito mais fácil e dá muito menos trabalho criticar um rótulo do que reunir argumentos minimamente razoáveis para criticar uma ideia.

O segundo ponto que gostaria de tratar é a intolerância generalizada. Penso que a polarização dos dias atuais é fruto desta intolerância. Não toleramos que o outro seja diferente, pense diferente ou se comporte diferente do que consideramos ser o certo. Assim, nascem os mais diversos adjetivos como: "coxinhas", "reaças", "esquerda caviar", "socialista de iPhone", "bolsominions", "paneleiros", entre muitos outros. Confesso que eu mesmo faço uso desses adjetivos. Porém, penso que os adjetivos em si não são o problema, mas sim o discurso que vem por trás deles. Assim, sem perceber, pessoas bem formadas e formadores de opinião acabam alimentando uma massa de indivíduos  cada vez mais mal formados e desinformados. Infelizmente e de forma não intencional, pessoas que poderiam empreender um debate sério sobre questões importantes, acabam prestando este desserviço a sociedade, fomentando a intolerância, quando pretendiam justamente o contrário.

O terceiro ponto potencializa os efeitos dos anteriores e faz com que o cenário atual seja muito preocupante: a falta de autocrítica. Com a intolerância em níveis alarmantes, qualquer crítica ou contraposição, por mais construtiva e embasada que seja, é sumariamente rejeitada e o argumento pra isso geralmente vem em forma dos adjetivos citados anteriormente. Você está dizendo isso porque é: coxinha, comunista, bolsominion... Rejeitamos a crítica de quem tem um pensamento diferente como se eles estivessem sempre errados em tudo o que dizem e nós sempre certos. Não raro, encontramos quem se nega a ouvir o outro só por este ter se declarado a favor de fulano ou sicrano.

Esta falta de autocrítica faz com que a culpa pelos erros seja de tudo e todos, menos do meu lado, da minha ideologia. Sempre há uma justificativa para as coisas erradas que possam ter acontecido e essa justificativa quase nunca é: "porque eu errei". Mesmo quando se chega a assumir o erro, geralmente se divide a culpa com outros fatores. Não raro vemos que se recorre aos erros do passado, seja ele recente ou não, como se isso fosse uma forma de justificativa válida para os erros do presente.

Penso que estes pontos são basilares quando se trata deste assunto e eu pensei muito sobre eles e sobre como eu me insiro dentro destes “conceitos”. Fiz e continuo fazendo meu exercício de autocrítica, para evitar a intolerância e avaliar se minha conduta não está sendo pautada por desinformações ou informações erradas mesmo. Se não houver este exercício, dificilmente haverá diálogo. Sempre haverá uma briga interminável para provar quem está certo ou errado, quando na verdade não era para ser quem está certo e quem está errado, mas em que pontos podemos trabalhar, juntos, pelo bem comum que todos desejamos. A construção de uma sociedade melhor vai depender da nossa capacidade de ir além das ideologias políticas. Elas podem ser a bússola que nos guie, mas nunca devemos deixar de contemplar a realidade, que muitas vezes não é a que, ideologicamente, projetamos. 



Cleber Kraus
Doutorando em Ciências Ambientais
Oficina de Valores

2 comentários:

alexandre oliveira disse...

Após a leitura do texto, que parabenizo por tocar neste tema e pela escrita do mesmo, gostaria de dividir umas palavras. Vivemos hoje a revolução do facebook, assuntos delicados são tratados de forma superficial com memes, rótulos e expressões fracas. A tendência é a imagem, mesmo que não seja o correto. A utilização de termos como fascistas e comunistas mostram a pobreza dos debates. Poderíamos balizar como adeptos ao liberalismo e aos contrários mesmo, mas cairíamos no erro de apenas mudar o rótulo. Vivemos hoje uma quebra de paradigma que gera insegurança geral. A polarização surge como algo natural pois, todos querem influenciar no rearranjo social, cultural, político e econômico. Ou a pessoa se fecha em uma bolha social, excluindo de seu convívio todos os que não comungam de suas ideias ou começam a ser rotuladas. Meu acréscimo ao que foi bem exposto no texto é a necessidade de consciência política em todas as camadas sociais. Não adianta ficar à margem dos acontecimentos políticos, eles mudam nossas vidas para melhor ou pior. A reflexão que temos que fazer hoje, com a avalanche de informações que recebemos, é enorme.

Frederico Simas disse...

Conversamos isto outro dia, a polarização está aí é é alimentada o tempo todo pela falta de diálogo. Gasta-se tanta energia para provar quem é certo é quem é errado e não se produz algo útil para a sociedade.

Postar um comentário