Por: Rodrigo
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Os passos lentos indicavam um dia cansativo, os olhos semicerrados e a pele enrugada sinalizavam uma longa vida de batalhas. Aparentava uns 70, talvez 75 anos. Ofegante se gabava: “Vim de Jacarepaguá sozinha (eu e Deus), para assistir o meu Vasco”. Era apenas uma noite de terça-feira como outra qualquer em São Januário, as arquibancadas vazias refletiam a falta de empolgação da torcida com o seu time, mas não para a Dona Laura. Negra, residente da Praça Seca, mãe de quatro filhos biológicos, mãe de uma nação de torcedores que a assumem como símbolo de um sentimento que não pode parar.

O agito dos primeiros minutos da partida acelera os batimentos cardíacos de Dona Laura que, tomada de nostalgia, relembra os grandes jogadores que ali desfilaram habilidade no fim da década de 90 e início dos anos 2000. Enciclopédia viva que é, rememora o fatídico dia da queda do Alambrado... “Era tanta gente, que não dava pra imaginar como seria para sair daqui”. Entre um ato e outro da história gritos e festejos da torcida – gol do Nenê!!! Enquanto o Vasco abria o placar, Dona Laura abria o baú das recordações. Alguns (muitos) torcedores ao redor ignoravam, pois era mais uma voz dentre milhares. Um em especial não tirava os olhos dela e com escuta atenta, parecia enamorar-se de cada relato. Tratava-se de uma criança que costumava ir aos jogos com o pai e, entre um palavrão e outro do “velho”, ouvia palavras de incentivo do tipo “É isso aí filhão, você nunca viu uma derrota do Vasco aqui, né?”. De uma forma um tanto quanto constrangida, como normalmente as crianças ficam perante as perguntas feitas por adultos, ele diz sem muita firmeza “Sim pai, nunca vi”.

Esse menino, Lucas, que não devia ter mais que 10 anos, possivelmente nunca ouvira falar em queda de alambrado e em sua imaginação talvez não tivesse espaço para pensar na possibilidade de ter havido jogador melhor que o Nenê no Vasco. Curiosamente os 65 anos que os separavam pareciam uni-los de tal forma que as cordas vocais já desgastadas de Dona Laura faziam mais barulho para o Lucas do que toda a algazarra da torcida organizada. O adversário empata a partida (muitos xingamentos ao fundo). Pela primeira vez o menino dirige a palavra à senhora dizendo “Você, ops... a senhora acha que vamos ganhar o jogo?”. Dona Laura com muita simplicidade responde “Não sei garoto”.

Essa era a mais realista de todas as respostas. Dizer que sim ou que não era apostar em previsões, em possibilidades. Contudo, nada de mais havia nessa resposta. Mas por algum motivo ela inquietou ao jovem Lucas. Bem sabemos o quanto crianças são curiosas e ávidas por respostas. De certo ele não sabia que entre a Praça Seca e o estádio havia 18 km de distância percorridos de ônibus, com direito a baldeação. Mesmo sem este importante dado ele tinha consciência de que se tratava de uma senhora, que poderia estar em casa descansando, assistindo uma novela, fazendo tricô ou crochê (ninguém sabe a diferença), passeando com os netos, ou fazendo qualquer outro programa. Ela tinha optado por São Januário e claramente havia uma exigência contida nessa escolha. “Como pode esta velhinha ter vindo de tão longe, sozinha e não ter medo de ver o Vasco perder?”. Era o que passava na cabeça do Lucas e por isso ele se pôs a torcer por ela, como se a vitória dependesse dele e fosse um presente que ele pudesse entregar à sua nova amiga.

Tiro de meta, um breve instante de silêncio. “Pi, pi, piiiii!”. Os três apitos não negam, é o fim do primeiro tempo. Como toda senhora, Dona Laura gosta de contar histórias. Tal qual dois amigos no recreio do colégio, Dona Laura e Lucas sentados na arquibancada riam e conversavam com a naturalidade que só almas puras têm. Nascia uma nova amizade, um encontro entre gerações. O orgulho por possuir uma casa própria, por ter um comércio, por já ter casado os filhos e tietar os netos não parecia fazer muito sentido para o Lucas, mas inexplicavelmente aquela vida narrada o cativava, trazia mais vida a ele. Esse encontro parecia poesia, o menino reconhecia na senhora uma história de amor, algo que aquecia o seu coração. A senhora identificava no menino um sentido maior para permanecer percorrendo os seus 18 km até o estádio: ela não estava só.

Os times voltam a campo e Dona Laura, de súbito, interrompe suas histórias com um grito estridente “Tira o Jorge Henrique!”. Alguns em volta dão risada, outros reforçam o coro, o pai do menino pede mais uma cerveja para o ambulante que pouco vendera naquela noite. O jogo volta quente, o Vasco quer a vitória, Lucas também! Agora era uma questão de honra, de fidelidade a uma nova amizade que nascia. Sua “amiguinha” Dona Laura não podia sair dali sem ser vencedora. Animado, ele se volta para ela e diz. “Dona Laura, será uma goleada!”. Com um simpático sorriso de canto de boca, ela acolhe a fala de Lucas e lhe faz um afago na cabeça, como se já pudesse prever o desfecho da noite.

O segundo tempo dava menos brecha para a conversa, o jogo era tenso... Os 17ºC para a Dona Laura, como boa carioca, já pedia um cachecol, que a envolvia do pescoço à cabeça. O menino Lucas, envolto pelos braços do pai, já nem se incomodava mais com o cheiro forte da cerveja. Seus olhos estavam vidrados no campo. A adrenalina subia. Bola na trave, defesas difíceis, chances perdidas. Os gritos de apoio de outrora já eram substituídos pela desconfiança e pelos cada vez mais frequentes xingamentos, a essa altura inclusive da Dona Laura. Mantendo a esperança, a criança pensava “Ela não pode perder”.

Aproximadamente aos 40’ do segundo tempo, depois de muito pressionar o adversário, o Vasco tem um erro imperdoável, seus defensores cometem uma pixotada colossal. O adversário vem para o contra ataque (nas memórias de Dona Laura e Lucas, tudo transcorria em câmera lenta). Sem muito alarde e com requintes de crueldade, o centro avante finaliza e, incrédulos, os cerca de 5.000 vascaínos presentes quase que em silêncio (salvo um ou outro xingamento neste momento) acusam o golpe da derrota.

Como já faltava pouco tempo para o fim, muitos deles abandonam o estádio. Dona Laura permanece, Lucas e seu pai também. Em minutos o árbitro apita novamente, fim de jogo. Envergonhado, como se fosse o culpado pela derrota, Lucas abraça a Dona Laura e diz “Perdemos”. Ao que ela responde com muita naturalidade e sabedoria “Sim, merecidamente. Mas ainda vamos ganhar muito. O importante é não desacreditar”. Para Lucas, foi a primeira derrota por ele presenciada. Para Dona Laura foi mais uma dentre dezenas, talvez centenas. Naquela insossa noite em São Januário, de um jogo aquém da história do futebol carioca, discretamente encontraram-se a memória e a esperança. Embora resignados com a derrota, ambos (Dona Laura e Lucas) saíram renovados. O futebol ainda respira. 


Rodrigo Moco
Psicólogo
Oficina de Valores

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