Por: Gustavo
Imagem de ywmovement.org


“As grandes pessoas têm suas vidas e realizações transformadas em biografias de muitas páginas, muito lidas e admiradas. O último fato triste da minha vida é que toda ela cabe em uma ou duas folhas, e poucas pessoas lerão. E imagino que sem nenhuma admiração.

Talvez as pessoas se perguntem como alguém tão jovem, com tantos “amigos”, com uma vida materialmente confortável, bonita, talentosa, com tanto futuro, tanta “vida” pela frente pôde fazer isso. Esta carta é para responder a essas pessoas.

Foi da forma mais difícil que eu descobri que não importa o quanto dure a festa, ela sempre acaba. Eu sempre achei que o prazer era sinônimo de felicidade. Das duas, uma: ou eu estava errada; ou a felicidade é uma mentira. É da própria natureza do prazer ser fugaz, coisa de momento e é tão inútil tentar fazê-lo perdurar quanto é inútil tentar alongar a própria vida. E não importava a quantas festas eu fosse, quanto eu bebesse e me drogasse, quantas pessoas eu beijasse ou levasse pra cama... No fim, o prazer acabava e eu continuava incompleta. A solução era procurar mais prazer, como se a minha mente simplesmente apagasse a frustração da última tentativa.

Confesso que nem sempre eu quis essa festa toda. Às vezes, era só uma forma de não estar sozinha, um apelo por companhia e elogios. Eu me forçava a fazer boa parte das “loucuras” que fiz, para ser, ou parecer, a mais animada, a mais divertida de todos. E me sentir querida pelos amigos e desejada pelos desconhecidos. No fim, eu descobri que elogios não são carinho, e ser desejada não é ser amada, e era exatamente isto que eu queria mais. E com aqueles “amigos” descobri que pessoas podem estar extremamente perto, do lado, e serem muito distantes, indiferentes. Eu me sentia sozinha.

E foi ao me dar conta da minha solidão que percebi que coisas não são capazes de ocupar o lugar de pessoas. Falando, parece óbvio, mas na prática, nem tanto. Quantas vezes me senti sozinha e entrei no meu quarto, olhei para todas aquelas coisas que desejei tanto ter e me dei conta de que trocaria todas elas por um abraço, um único abraço sincero. Pois é, coisas não abraçam. E por maior que seja o volume das coisas que eu possuo, ainda é muito pouco para preencher o vazio que a falta de amor deixou em mim.

Bom, acho que toda pessoa já sentiu uma fisgada que seja da tristeza e da solidão que eu digo que senti. O problema foi quando isso tudo virou rotina. Eu acordava e pensava no dia que teria: as pessoas que encontraria, a monotonia do trabalho, a pressão dos compromissos. Nem um único pensamento que me animasse a sair da cama. E todos os dias assim, sem previsão de melhora, sem expectativa de que um dia a vida fosse melhor que isso.

Dizem que a esperança é a última que morre. Pois bem, a prova de que isso é falso é que dou fim a minha vida imediatamente após o último suspiro da minha esperança. Eu já me senti triste, angustiada, infeliz antes. Mas hoje eu sinto como se nunca mais pudesse voltar a ser feliz, nunca mais a vida pudesse ser melhor do que é agora, e agora ela é uma vida que não vale a pena. Se a felicidade existe, eu não a encontrei no caminho que escolhi e não me parece que seja possível voltar e fazer um caminho diferente. Eu vejo tudo em que acreditei e tudo que fiz desmoronar de uma vez só e acho que não tenho forças para reconstruir. Seria preciso nascer outra vez. Mas não existe segunda chance na vida. Aproveite a sua chance, ela é sua única. Eu não aproveitei a minha.”



Esta carta é fictícia. Foi escrita numa tentativa de refletir sobre os sentimentos e experiências tão frequentemente mencionados à minha volta por pessoas que julgam terem perdido o sentido da vida. O que, nem sempre, significa suicídio: há aqueles que desistem da vida e contentam-se em sobreviver; cometem, por assim dizer, um suicídio existencial. Por não ser escrita por um real suicida em potencial, a carta pode não refletir a realidade de quem se sente inclinado a tirar a própria vida. Nunca foi a intenção descrever realisticamente tal situação tão dolorosa e difícil. O objetivo desse texto é bem mais simples: mostrar como é equivocada a conclusão da suicida fictícia. Sempre há chance de recomeçar! Se você, leitor, vive ou conhece quem viva situação como essa, é importante que você saiba e acredite nisso. Se você duvida ou não consegue encontrar essa esperança sozinho, é importante buscar ajuda. Afinal a sensação de impossibilidade do recomeço pode ser consequência de que ele está além das nossas forças. Felizmente, ainda que assim não pareça, elas não são as únicas com que podemos contar.




Gustavo Lima
Estudante de Jornalismo - UERJ
Oficina de Valores

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