Por: Alessandro


Certa vez disse o poeta que “navegar é preciso, viver não é preciso”. E essa falta de precisão é uma das coisas que tornam a vida maravilhosa e ao mesmo tempo angustiante. Se tudo fosse passível de cálculo, tudo seria mais fácil e muitas decepções e dores seriam evitadas. Ao mesmo tempo desapareciam a vibração da aventura e as conquistas improváveis.

Como parte do viver, também o relacionar-se é impreciso. Por mais que livros e mais livros sejam escritos, não há como colocar em fórmulas a economia dos afetos. Essa imprecisão existe porque, tanto em uma amizade quanto em um namoro ou casamento, estão presentes pessoas livres e únicas que se colocam diante de uma outra e buscam viver não apenas um “eu”, mas um “nós”.

Dentre as diversas imprecisões do relacionar-se está a do namorar. Dentre as imprecisões do namorar está o terminar. Dificilmente ele acontece no momento exato. Às vezes parece que era necessário tentar mais. Outras vezes parece que demorou demais para acontecer. Só o passar do tempo traz a luz para que algumas pessoas possam dizer: aconteceu na hora certa.

Sem querer dar precisão ao que é impreciso e sem querer transformar a vida em planilha, há que se pensar no término com mais clareza, afinal, pôr fim a algo que deve acabar é um ato de responsabilidade para consigo e para com aquela (ou aquele) com quem topamos a nobre aventura de um namoro. Sim, aventura. Afinal, poucas coisas exigem tanta coragem e maturidade quanto um perguntar-se recíproco sobre a construção de um futuro comum. Poucas coisas deslumbram tanto quanto, na companhia de um outro que se tornou único, dar passos rumo a uma resposta que une duas vidas de uma forma sem igual.

É justamente porque exige coragem e porque gera um deslumbramento que costuma ser difícil pôr um fim àquilo que gostaríamos muito que fosse para sempre. Ainda que já saibamos que o melhor em certas situações é tirar o status de “namorando”, reconhecer isso é mais complexo do que parece a quem dá conselhos. Como dizem por aí “na prática a teoria é outra”. E é justamente olhando essa prática e reconhecendo que não há receita que hoje quero pensar em elementos que possam ajudar a responder à questão colocada já no título.

Em primeiro lugar, é fundamental saber que namorar, por mais divertido que seja, é uma coisa séria pra caramba. Em jogo está a felicidade de duas pessoas. E de outras pessoas que se importam com a felicidade dessas duas. Sendo assim, um primeiro toque importante é: não se termina por qualquer coisa. Quem termina por qualquer pequeno contratempo talvez nunca tenha começado de verdade. Talvez exista um flerte ou um ficar prolongado, mas a fragilidade do vínculo demonstra a falta de profundidade do relacionamento. Nesse caso, a pergunta que a pessoa deveria fazer é “quando começar” e não “quando terminar”.

Tão ruim quanto terminar por qualquer coisa é continuar a todo custo. Há relacionamentos abusivos, onde um dos lados (ou os dois) age como se fosse dono da outra pessoa, onde o amor é confundido com anular a própria personalidade. São aqueles namoros autodestrutivos em que o companheirismo é substituído pela possessividade e a confiança perde lugar para a dominação. Mesmo que os sentimentos digam o contrário, cabe lutar contra eles e dizer um basta a uma situação que não faz bem a ninguém.

Mas não são apenas as situações trágicas que devam dar fim aos namoros. Eles devem terminar também quando ao menos um dos dois percebe, por exemplo, que existem valores que são incompatíveis. Aquele papo de “os opostos se atraem” vale naquilo que não é essencial.  Não é possível construir uma relação saudável quando não há consenso naquilo que é fundamental. São em situações como essas que as pessoas cometem erros do tipo “depois do casamento ele muda” ou “no futuro eu conseguirei mudá-la”. Isso é perigoso por vários motivos, entre eles o fato de que talvez eu não esteja amando a pessoa que realmente existe, mas a que eu gostaria que ela fosse. O outro, bem mais óbvio, vem do fato de que essas discordâncias no essencial podem gerar um distanciamento tão grande que, embora os dois permaneçam juntos, sempre terão a sensação de que continuam sozinhos.

Um namoro deve terminar também quando, embora se reconheça que o outro é maravilhoso, sua companhia não é tida como necessária. Não que o ideal seja um casal que nunca desgruda. Longe disso. Mas a construção de um futuro deve acontecer com alguém cuja companhia seja tida como fundamental, como “A” companhia. Não a única, mas a indispensável. Como aquela cuja distância faz sentir mais a presença. E não falo da atitude patológica daqueles que querem apagar as individualidades, mas da tranquila certeza da formação de um “nós” que torna cada “eu” mais pleno. Quando não se deseja esse “nós”, não faz sentido continuar em uma convivência que não gera comunhão.

Convém terminar um namoro onde constantemente há medo de dizer o que se pensa, onde cada palavra tem que ser planejada, onde se sente a necessidade de fazer escondido aquilo que não tem mal algum. Convém terminar um namoro que não deixa espaço para amizades, que reduz o mundo dos dois a apenas os dois.

Resumindo: devem ter fim todos os namoros que levam a uma negação do Eu, do Tu ou do Nós. Aqueles onde o Nós não é desejado, embora o Tu seja querido. Aqueles onde o Nós é sonhado, mas o Eu é diminuído. Aqueles onde o Eu é inflado e o Tu é preterido. Aqueles onde o Tu é idolatrado e o Eu é destruído.

Assim como o viver, não é preciso o namorar. Ele só realiza quando surge um equilíbrio improvável entre necessidade e doação, entre o Eu, o Tu e o Nós. Um equilíbrio que não é possível construir com todos ou com qualquer um. Por isso a importância de escolher bem quem namorar e a importância de admitir que, por vezes, é preciso terminar. E isso não necessariamente é um sinal de que a coisa deu errado. Pelo contrário, o namoro pode ter sido algo que muito bem fez aos dois e esse bem só pôde ser feito e percebido porque o término necessário não deixou de ser levado adiante.

Há ainda outras duas situações onde é necessário terminar o namoro. A primeira, por mais incrível que pareça, é quando ele já terminou. Não é incomum alguém continuar namorado de alguém que já foi embora. Embora o namoro tenha terminado, o fim não foi aceito. E essa não aceitação do fim faz com que o futuro não seja desejado e o passado seja constantemente remoído. Por mais duro que pareça, às vezes é extremamente necessário terminar com quem há muito terminou contigo. 


Por fim, terminam aqueles namoros que levam para além deles. O namorar, por mais fantástico que seja, não é destino, mas estrada. Ele deseja ser mais do que é. Mira o casar. É uma aventura que leva a uma outra aventura ainda mais desafiante, que só é possível quando, por termos namorado bem, sabemos que podemos ir além. E que esse além, embora muito maior, será em grande parte uma continuidade daquilo que antes foi plantado.


Alessandro Garcia
Doutorando em Sociologia
Fundador da Oficina de Valores
Casado com a Carol há 5 anos (depois de 6 anos de namoro)

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