Por: Larissa

''Chamei este livro de o que há de errado com o mundo, mas esse título algo indômito conduz a um só lugar: errado é não solicitarmos o que é certo''. 
(Chesterton) 


Frase um tanto apropriada para tentar descrever como foi o meu final de semana.  Primeiro porque o tema do Retiro de Universitários da Oficina de Valores foi: ''O que há de errado com o mundo?'' e segundo porque essa pergunta me levou a outras duas:

1- O que há de errado comigo?

2- O que eu estou fazendo aqui? 


Mas, antes de tentar explicar, vou voltar um pouco no tempo. Conheci a Oficina em setembro de 2014 com o Retiro de Estudantes. Uma experiência incrível! 

Escrevi pela primeira vez para o Blog contando tudo o que vivenciei naqueles dias. Comecei a frequentar as reuniões e me interessar pela obra. E muitas coisas boas eu pude aprender e viver ali. Tive a oportunidade de fazer visitas em asilos e missões em escolas. Tive a oportunidade de escrever textos para o Blog e melhorar como pessoa. Conheci muitas pessoas, muitas histórias e muitas experiências que foram me ajudando a encontrar um caminho.

Só, que nesse meio tempo, o meu "outro eu'', começou a gritar dentro de mim. É aquela história dos dois lobos que vivem dentro de nós, o bom e o mau, e o mais forte será sempre aquele que você alimentar. E por algum tempo eu consegui alimentar o lado bom. Não ia com tanta frequência nas reuniões da Oficina, mas fazia meus trabalhos voluntários, ajudava na paróquia, participava dos eventos, dava meu testemunho nos encontros e por ai vai. Por 3 anos, eu consegui me manter longe do que há de errado, consegui me afastar das drogas e conquistar muita coisa boa. Pude finalmente provar para mim e para todos que eu estava bem, estava curada. E a prova disso, foi ter me tornado doadora de sangue. Foram 3 anos de muita luta mas muita alegria. Mas, aos poucos, as coisas foram mudando. Nunca acontece de uma hora para outra, é sempre nas pequenas coisas do dia a dia. Comecei a ter preguiça de ir às reuniões, preguiça de escrever para o blog, me sentia cansada de ter que ir para a Igreja, cansada de ter que dar aulas para as crianças e aos poucos isso foi se tornando o vício que sempre me levou aos outros: o vício da conformação. Parei de me questionar sobre o porquê de estar daquela forma, e simplesmente aceitei minha condição.

E, dessa forma, eu fui largando tudo o que tinha conquistado, tudo o que gostava de fazer e tudo que demorei tanto tempo para ter. Lutei por mais alguns meses e recai. Primeiro foi só um baseado e, afinal, estava tão estressada e cansada que realmente precisava. Só que desse foram vindo outros. E dois dias antes deste retiro veio a cocaína. Depois de 3 anos me mantendo longe. É claro que eu me arrependi depois que o efeito passou, mas digamos que ''já era tarde''. Não foi apenas o ato em si, foi toda a luta, todas às vezes nesses 3 anos que consegui me afastar, todos os testemunhos, todas as lágrimas, todas as conversas com os amigos, enfim todo o trabalho sendo jogado no lixo por apenas alguns minutos de efeito. Fiquei muito mal e não queria ir para o encontro. Estava me sentindo muito indigna de ir depois de tudo que a Oficina fez por mim. Inventei desculpas para eu mesma não ir e coloquei barreiras para eu não ultrapassar. E mesmo assim, Deus colocou pessoas para tirar todas essas barreiras do caminho.

Cheguei lá me sentindo muito mal. Não conseguia me concentrar em nada que falavam, me isolava, sentia vontade de ir embora e só me perguntava: ''O que eu estou fazendo aqui?''.

O encontro estava maravilhoso, a proposta foi maravilhosa, meu grupo maravilhoso e tudo maravilhoso. Mas dentro de mim as coisas não estavam assim. As coisas só começaram a melhorar quando eu tive que falar em uma partilha. Não tive escolha, ou eu mentia ou tentava algo diferente. E como foi difícil falar, como está sendo difícil escrever esse texto, como é difícil encarar minha mãe, como é difícil olhar meus amigos nos olhos, como é difícil me expor e esperar reações e como dói ter de mostrar o pior lado.

Eu pensei sobre a pergunta que me rodeou o encontro inteiro: ''O que eu estou fazendo aqui?''.  Eu cheguei à conclusão que eu não sei direito, mas, voltando à frase inicial, talvez eu, mesmo sem ter consciência, tenha ido para o Retiro solicitar o que é certo. Eu não sei como consegui chegar, mas sei que foi um final de semana vivendo o que é certo. E isso é o bem mais amplo que religião ou qualquer outra coisa podem oferecer. É questão de viver uma vida digna, de viver para ser melhor, de viver em busca de valores e principalmente viver em comunidade, buscando ajuda nos outros. A única coisa que se consegue fazer sozinho é se afundar.

Enfim, é com muita dor e vergonha que escrevo tudo isso, mas não podemos só focar no que há de errado, tem muita coisa certa ao nosso alcance. Tem muita coisa que vale a pena. E esse Retiro foi uma delas na minha vida. Agradeço a Deus pela oportunidade e por estar comigo até quando eu mesma não estou. Agradeço imensamente e infinitamente por ele ter colocado a Oficina de Valores no meu caminho e, por mesmo que aos trancos e barrancos, eu esteja em contato com essa obra maravilhosa e que muito me ensina. E rezo para que as pessoas que têm essa dificuldade como eu tenho, ou qualquer outra, encontrem o certo em suas vidas.

Um agradecimento muito especial à minha equipe deste retiro, Madre Teresa de Calcutá, que assim como a  nossa padroeira, foi tão caridosa comigo, abraçando minhas mazelas e chorando minhas dores. 

Obrigada.


Larissa Eira
Estudante de Jornalismo
Participante do Retiro de Universitários da Oficina de Valores

2 comentários:

Larissa Magrani disse...

Divino! É incrível como as palavras perpassam de uma forma tão singela por cada linha. Tenho orgulho de você, orgulho das suas batalhas - mesmo com desafios aparentemente insolucionáveis-. O texto retrata aquilo que você possui dentro de si: garra e coragem. Amo ler suas obras, que, aliás, considero artísticas e que merecem ser publicadas, sem dúvidas. Obrigada por compartilhar sua vida comigo, conosco! ♡

Larissa Magrani disse...

Divino! É incrível como as palavras perpassam de uma forma tão singela por cada linha. Tenho orgulho de você, orgulho das suas batalhas - mesmo com desafios aparentemente insolucionáveis-. O texto retrata aquilo que você possui dentro de si: garra e coragem. Amo ler suas obras, que, aliás, considero artísticas e que merecem ser publicadas, sem dúvidas. Obrigada por compartilhar sua vida comigo, conosco! ♡

Postar um comentário