Mesmo antes de engravidar, sempre considerei o estado de gravidez como algo bonito e curioso. Ainda que a vida dependa disso, é estranho falarmos que há uma pessoa dentro de outra – e esse estranhamento reflete o quão estranho e novo pode ser ter contato com uma mulher grávida. Veja bem: mulher.

Esse texto está sendo escrito em meu nome e, por ser anônimo, em nome de todas as grávidas que passam ou têm passado por situações desagradáveis por conta de seu estado interessante – ainda que cheias de boas intenções muitas vezes as pessoas nos colocam em situações esquisitas, desconfortáveis e mesmo bem desagradáveis por conta desse caráter tão inusitado (ainda que comum) que carrega a gestação.

Uma das primeiras coisas de que devemos nos lembrar é de que uma grávida ainda é uma mulher. O que isso significa, além do óbvio? Que aquela pessoa, apesar de estar carregando outra, conserva sua individualidade. E isso acarreta algumas coisas de que as pessoas muitas vezes se esquecem.

Como tenho pensado bastante nesses assuntos – e, confesso, passado por um bocado de situações bizarras – divido algumas coisas que acredito que as gravidas gostariam que você soubesse. Ainda que você tenha errado com a melhor das intenções (a gente sabe isso também), o melhor é acertar, né?

1) Aquela barriga não é um saco com uma criança dentro – ainda é a barriga de alguém.

A maioria das mulheres não vai se incomodar com o sorriso e a surpresa das pessoas ao perceberem a gravidez, mas garanto que toques e carinhos que ultrapassem os três segundos podem se tornar chatos e inconvenientes. Experimente ter alguém esfregando a sua barriga por 5 segundos e veja se isso é tão pouco tempo quanto parece. Então, a não ser que você seja o pai da criança ou tenha extrema intimidade com a dona daquela barriga, restrinja seus toques o mais possível. Comentários e desejos de saúde para a criança e para a mãe são muito, mas muito bem-vindos.

2) Aquela pessoa barriguda não é só uma incubadora – ela ainda tem uma autoestima pra cultivar.

Quantas vezes por dia você ouve na Rua, de conhecidos, amigos e familiares, que engordou? Que está com a cara mais cheia? Que ganhou tanto peso que está até com o andar diferente? Pois é. Uma grávida ouve isso muitas vezes por dia. O que falta para as pessoas perceberem é que elas ainda estão falando com uma mulher – que é um ser humano e, como a maioria deles, não gosta que façam comentários sobre seu corpo, especialmente em uma sociedade besta que valoriza a magreza e encara o ganho de peso como algo negativo e feio. Não comente que ela engordou, que o rosto dela está cheio. E se ela falar que não está é porque não está – você não conhece o rosto dela mais que ela mesma, apesar de pensar ter algum poder que faz com que você veja algo que ela não vê. Não comente que a barriga dela está enorme, ou que está pequena – isso é fator de preocupação para todas as gestantes porque nos faz pensar na saúde dos nossos bebês – e você não quer reforçar isso.

Muita gente acaba achando que é ok tirar toda e qualquer curiosidade sobre o momento. Perguntam pela prisão de ventre, se o filho foi planejado ou não (gente, sério, não perguntem isso nunca mais pra ninguém), perguntam se ela tem plano de saúde. Sim, é invasivo. Não, ela não tem que te responder. E se ela não for 100% legal com você ao ouvir essas perguntas eu entendo e simpatizo com ela.

Para além, você não está vendo realmente grande parte do que ela já carrega: suas estrias, varizes e toda a parte não glamorosa da gravidez que somos quase obrigadas a esconder porque muitos acham que reclamar disso é reclamar do bebê. E se a barriga dela parecer realmente pequena? E se o rosto dela estiver mesmo mais cheio? Qual a necessidade de comentar isso? Quer ser agradável, falar algo de positivo? Diga que ela está linda. Que seu cabelo e pele parecem viçosos. Que seus olhos estão brilhando com a gravidez. Não tem erro.

3) Não conte histórias trágicas sobre partos, grávidas e crianças.

Parece que as grávidas têm um ímã pra atrair contos de terror. Se ela fala que planeja um parto normal, ouve histórias de mulheres que sentiram dor e sangraram por dias em um trabalho de parto anormal. Se ela fala que planeja aleitamento exclusivo, já ouve que isso é muito difícil e um irônico e desanimador “ih, boa sorte”. Se é menino, “vai ser muito levado, coitada de você”. Se é menina, “ih, já contratou um segurança/ comprou um pit bull?” e começam as histórias sobre crianças que nasceram assim, fizeram assado. Apenas fala sobre partos, grávidas e crianças se for para partilhar histórias em que tudo deu certo. Ponto. A gestação já traz hormônios, novidades, dor lombar e preocupação demais por si só.

4) Seja legal.

Sabe a malfadada TPM? Mistura esses hormônios todos em escala cavalar com mais um tantão de outros, com enjoo, fome (muita), medo de problemas de saúde, medo de problemas financeiros, dor nas costas, dificuldade de locomoção, problemas pra dormir, vontade de ir ao banheiro de 20 em 20 minutos, sono entrecortado, o preço das vitaminas e mais a perspectiva da maior missão da vida de alguém. Não fica difícil ver que é difícil estar grávida. Somada a isso a necessidade sempre premente de falar da parte ruim mas sempre ter que emendar com um “mas estou muito feliz e realizada” porque senão além de ter a cara cheia você também é uma megera que tem raiva do filho. As mães já sofrem muito. Vai conversar com uma? Se ela reclamar ela só espera um pouco de empatia – “Poxa, deve ser barra. Senta aí que vou te fazer um café”. Se ela estiver só feliz, fique feliz também e pergunte se ela precisa de algo. Diga que ela está bonita. Pergunte por ela – porque pelo bebê ela responde o dia inteiro e acaba até se esquecendo de si.

Uma grávida ainda é uma mulher – com muito mais intensidade ainda.


Uma grávida

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