Por: Carolline

Certa vez, um jovem que trabalhava e fazia faculdade, após um dia cansativo e monótono, voltava num ônibus cheio para casa, na tentativa de chegar o mais rápido possível para que pudesse descansar mais. Na faculdade havia recebido o resultado de uma prova e tinha tirado uma nota ruim. O professor, para lhe ajudar, passou um trabalho e logo ele tratou de reclamar mentalmente, “mais trabalho”.

O ônibus no qual ia voltando para casa estava lotado, um daqueles nos quais as pessoas nem precisam se segurar direito, porque os próprios corpos se seguram devido ao preenchimento de todos os espaços possíveis e impossíveis do ônibus. Enquanto estava em pé, esmagado por outras pessoas, em sua cabeça só ocorriam esses pensamentos:

“Que professor chato, tinha que passar mais um trabalho, poderia ter me dado a nota”, “que ônibus insuportavelmente cheio, deveria ter pegado o que estava atrás”, “gente chata ao meu redor, eles têm que ficar me esbarrando, não podem chegar para o lado?”, “está muito quente aqui dentro, ninguém abre uma janela”, “nossa, essa janela está muito aberta, poderiam fechar um pouco”.

E, de repente, começou a reclamar até daquilo que não o chateava naquele momento, “que faculdade chata, não tem nada de bom”, “aposto que vou chegar em casa e terei que comer a mesma comida do almoço, não aguento mais”, “nossa, que menino chato e com cara de chato, me irrita só de olhar para cara dele”.

Já chegando em casa, sem ter parado de reclamar até mesmo no momento que conseguiu um lugar para sentar (e puxou assunto com a pessoa que estava ao seu lado, reclamando da má qualidade do banco em que sentava e que seria melhor estar em pé), ele saltou do ônibus. Reclamou do calçamento da rua, entrou em casa e viu comida pronta, uma diferente da comida do almoço, mas que o jovem não gostava. Reclamou da comida e entrou para o seu quarto, deitou na cama e reclamou do colchão, do quanto demorava a dormir e por fim, chegou a um estágio em que não tinha mais do que reclamar. Mas, para aquele resmungão, ainda havia uma última a fazer: “Que droga de vida, não tem nada de bom”.

Desta forma o nosso amargurado "reclamão" estava numa vida sem sentido, porque se nada era bom, por que viver? E, se decidir viver, quão tristes seriam todos os dias.

Essa é apenas uma história inventada, mas que constantemente parece com a vida que levamos. Reclamamos de tudo e às vezes não nos damos conta de que a nossa vida vai se tornando amargurada, conseguindo apenas sentir o gosto mais amargo nas coisas que às vezes podem ser mais doces. A amargura nem sempre está nos destemperos da vida, nas desventuras, tristezas e angústias que temos e vivemos, mas pode estar no paladar daquele que decidiu não ser GRATO.

O nosso personagem fictício poderia ter sido grato à segunda chance que seu professor lhe deu, afinal, o professor não era obrigado a dar outra chance; poderia ter sido grato ao chegar em casa e ter uma comida pronta; ou ao fato de ter sentado em um ônibus cheio. “O fato de não agradecermos se dá ao costume que cultivamos em ganhar as coisas e achar que é obrigação do outro ter-nos feito, o que frequentemente nos leva a agir com ingratidão”. Este é um dos primeiros motivos da ingratidão.

E um segundo caso em que nos falta gratidão é quando há coisas belas ao nosso redor acontecendo e não as percebemos, pois a nossa visão se foca nos nossos problemas. Como uma árvore bonita que enfeita nosso caminho, a cama que temos para dormir (e que outras pessoas não têm). Ou quando estamos doentes e mesmo assim temos motivos para agradecer a alguém que cuida de nós, uma perna quebrada por uma vitória num torneio, um emprego que nos ajuda a sustentar nossa casa, as vezes um ônibus cheio que pegamos, mas que nos possibilita chegar mais cedo em casa. Não digo aqui que não podemos reclamar, por exemplo, de más condições no trabalho, mas que temos que lembrar das tantas outras coisas para agradecer e a nossa parte que temos com as coisas.

A gratidão tem o poder de ajudar a nossa vida, deixa-la mais leve, mais repleta de felicidade por aquilo que temos. E, mesmo quando não temos, existe uma infinidade de coisas as quais nos foram dadas com carinho, como a nossa vida, que merece gratidão. 

Para finalizar, deixo aqui parte do refrão de uma música que gosto muito e me chamou a atenção sobre esse tema. A música se chama Piloto automático, da banda Super Combo. 

“[...] Eu devia sorrir mais, 
abraçar meus pai, viajar 
o mundo e socializar, nunca 
reclamar, só agradecer; fácil 
de falar, difícil fazer [...]”. 

Que façamos o mais difícil pela doçura da nossa vida.



Carolline Ramos Dias
Estudante de História
Oficina de Valores

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