Por: Alessandro

Doutor Estranho é o décimo quarto filme produzido pela Marvel Studios. Stephen Strange é o sexto personagem (daqueles cujos direitos pertencem à Marvel) a ganhar um filme solo. E isso é apenas parte do todo no qual ele está inserido. Esse todo conta ainda com séries que já possuem algumas temporadas (duas para TV e três para Netflix). Sendo assim, o filme do mestre das artes místicas funciona como mais um elo na construção de algo que é inédito na história do cinema: um universo compartilhado onde diversos personagens têm suas aventuras e onde vários gêneros de histórias podem ser contados. A grande força dos estúdios Marvel é que eles não adaptaram para o cinema apenas personagens das HQs, mas toda uma concepção de narrativa originária das histórias em quadrinhos.

Pensando mais especificamente este último filme, deve ser dito que ele não apenas usufrui do universo no qual se insere, mas acrescenta muito a esse universo. “Quer dizer que agora existem magos na Terra”? Sim, eles existem. E fazem companhia aos supersoldados, deuses nórdicos, bilionários em armaduras, guaxinins atiradores e árvores falantes. E todos esses elementos, que parecem até contraditórios, estão funcionando bem juntos e a interação entre eles oferece cada vez mais possibilidades de boas histórias.

Para falar um pouco do aspecto técnico, digo que Doutor Estranho tem o melhor elenco de um filme da Marvel até agora. Benedict Cumberbatch, queridinho do mundo nerd e ator em ascensão. Tilda Swindon, que já ganhou o Oscar de melhor atriz coadjuvante. Rachel McAdms, indicada ao Oscar de melhor atriz coadjuvante por Spotlight (que ganhou Oscar de melhor filme). Chiwetel Ejiofor, indicado ao Oscar de melhor ator por 12 Anos de Escravidão (que também ganhou o Oscar de melhor filme). Mads Mikkelsen, ganhador do prêmio de melhor ator no festival de Cannes por sua atuação em A Caça. Sobre esse quesito vale sinalizar duas coisas: a) Todos estes atores entregaram atuações dignas, embora não geniais. b) Um elenco desses era inimaginável no momento do lançamento do primeiro Homem de Ferro.

Do ponto de vista da execução, é inegável que o ponto forte de Doutor Estranho são os efeitos visuais. Todo o aspecto psicodélico das histórias de Stephen Strange desenhadas por Steve Dikto na década de 1960 foi muito bem transposto para a tela. Chega a dar vertigem acompanhar as constantes reviravoltas de um mundo em que tempo e espaço podem ser dobrados à vontade humana.

Quanto ao roteiro, é bem simples e relativamente bem costurado, embora tenha alguns deslizes. Passei boa parte do filme perguntando por que Kaecilius roubou apenas algumas páginas do livro e não livro todo. Por que não levou o olho de Agamoto? Por que todo aquele trabalho para roubar o livro se era tão fácil abrir um portal na biblioteca e pegá-lo? O ponto mais fraco, no entanto é a batalha do Doutor Estranho contra o vilão e seus seguidores. Um mestre treinado foi morto em poucos instantes e o aprendiz talentoso conseguiu vencê-los. Haja suspenção de descrença!

Apesar destes pesares, Doutor Estranho traz uma história interessante que provoca algumas reflexões bem pertinentes. Na trama vemos duas jornadas, uma de redenção e uma de queda. A primeira é de Stephen Strange, o médico soberbo que ao perder o uso das mãos é desenganado pela própria ciência que exerceu. A partir disso vai ao fundo do poço e encontra um caminho não para a cura das mãos, mas para a cura de si. A segunda é a de Mordo, discípulo fiel que se decepciona com sua mestra e torna-se um inimigo de tudo o que antes defendeu.

Stephen e Mordo lembram um pouco Jean Valjean e Javert, famosos personagens de Os Miseráveis, de Victor Hugo. Ambos reestruturam sua vida a partir de valores que julgam sagrados. Acontece que o primeiro fica com os princípios por trás da lei, já o segundo transforma a lei no seu único princípio. Um diálogo mostra muito bem os pontos fortes e fracos de cada um. “A você falta imaginação” – Diz Stephen. “E a você falta coragem”. – responde Mordo.

A um, falta a imaginação para perceber que a justiça não é apenas uma regra, mas uma virtude. Ao outro, falta a coragem de viver uma vida condizente com seus princípios. Um tornou-se herói por descobrir a coragem que lhe faltava. O outro degenerou-se em vilão por negar a imaginação que lhe era necessária.

Outro aspecto interessante da trama é que os discursos dos vilões soam muito convincentes. Quando Kaecilius diz que “a morte é um insulto” e que “o tempo é um insulto”, sentimos algo ressoando dentro de nós. Há verdade no que ele diz. O discurso de Mordo sobre o respeito às leis naturais, que diz que violá-las traz consequências, também é coerente. É nesse ponto que há uma sutileza que separa o herói dos vilões: há verdade no discurso destes últimos, mas não toda ela. O erro é perigoso justamente porque ao mesmo tempo em que finca raízes na verdade faz com que ela seja mutilada. E uma verdade mutilada é pior que uma mentira descarada justamente porque carrega o potencial de convencimento e torna os que nela acreditam capazes das maiores barbaridades.

E o protagonista? Não há nada a dizer sobre ele? Sim, há muito. Mas como o espaço está terminando, focarei apenas em dois diálogos que ele tem com sua mentora, a Anciã. Em um deles, Stephen escuta sobre a dificuldade que há em aprender a verdade mais simples: a de que ele não é centro de tudo. É no sair de si que se encontra a verdadeira realização. E esse movimento não tem a ver com a magia, mas com uma atitude diante da vida:  escolher abrir-se ao que é maior ou fechar-se nos próprios pequenos interesses. Strange tinha a liberdade de voltar para sua vida velha, mas ao escolher isso perderia muito. E não apenas seria menos do que poderia ser, mas o próprio mundo seria pior.

O segundo diálogo, que na verdade acontece antes, utiliza uma metáfora muito famosa: a da chave e da fechadura. Quando chega ao santuário da Anciã, Stephen Strange julga possuir todas as respostas e mede a fala de sua futura mestra a partir de seus próprios conceitos. No caminho de quebra de suas certezas, escuta que até então olhou pelo buraco de uma fechadura e que se recusava a abrir a porta. Nessa metáfora há uma crítica há uma visão desencantada do mundo que, ao fim e ao cabo, diz que não passamos de poeira em um universo que nos é indiferente. A Anciã quer mostrar a Stephen que o mundo não se esgota na matéria e que só quando ele compreender isso poderá obter um conhecimento mais profundo.

Por fim, a concepção de transcendente apontada pelo filme é bem diferente daquela em que acredito. Apesar disso, a lição dada pela história é consonante com muito daquilo em que creio. Afinal, ela ensina que a realidade vai muito além daquilo que vejo e que a verdadeira magia da vida acontece quando tenho o privilégio de começar a perceber isso. Ensina também que aqueles que parecem trágicos fins podem ser heroicos começos e que, por vezes, o verdadeiro empecilho não está na imobilidade das mãos, mas na cegueira do coração.


Alessandro Garcia
Doutorando em Sociologia
Oficina de Valores

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