Por: Gustavo

Meu avô tem Alzheimer. É num grau leve. Por isso – porque não é evidente – minha família nega, se recusa a acreditar. Eu sempre disse que ele tinha. “Sempre”, deve ter uns dois anos que comecei a notar sintomas. Mas eu não sou médico, ninguém acreditava em mim. Até que um dia meu avô tomou um tombo, bateu a cabeça, nada grave, mas por precaução foi no médico. O médico disse que ele tinha Alzheimer. Aí eles passaram a não acreditar no médico.

Meu avô tem 87 anos, oito filhos, treze netos, um bisneto. E um apartamento em Olaria, zona norte do Rio, onde quase todos nós já moramos em algum momento da vida. Eu era um dos poucos que não, mas há pouco mais de um ano, por causa da faculdade e do estágio, vim morar com eles. É, eles: esqueci de dizer que meu avô tem a minha avó também.

Ontem, dia 25, foi aniversário da minha avó. 81 anos, ela acha. Veio do Nordeste sem certidão e “escolheu” sua data de nascimento quando se registrou. Como eu dizia, é aniversário dela. A casa deles – minha também – cheia, com quase toda aquela gente enumerada ali em cima. Pessoas que pra mim são memórias.

Meus dois primos mais novos, uma menina e um menino, têm 15 anos. Ela desenha, é muito inteligente, muito talentosa. Ele é molecão de videogame e futebol, engraçado, carismático. Conversei um pouco com os dois: com ele sobre o Flamengo, com ela sobre os desenhos – tenho bem pouca intimidade com ela e nada em comum. Me lembrei de quando tinha uns 10 anos, eles tinham uns três, e num evento de família ganhei cinco reais de um tio porque fiquei brincando com os dois em vez dos primos da minha idade. Tem uma foto desse dia num mural de fotos da minha avó, eles dois brigando por uma bola e chorando.

Um dos meus primos mais velhos, e dos que sempre foi mais família – estava em todos os eventos, fazia questão de todas as tradições – foi embora mais cedo: o coitado tinha que estudar pra uma prova. Lembrei dele me dizendo, quando criança, que queria ser jornalista esportivo. Eu estou estudando pra isso hoje. Ele é da Marinha.

Meus tios todos, quase todos, lá: e eu lembrando de visitar a casa deles, perturbar meus pais pra dormir lá, com meus primos, e de perturbar meus tios, quando meus pais deixavam.

E minha avó. A casa dela (sempre chamei assim, “casa da minha vó”), sempre passei férias lá. Meus primos iam quase todos com muita frequência, a maioria morava perto. Eu sempre morei em outra cidade. A casa da minha avó era o paraíso permitido apenas entre dezembro e janeiro. Eu passava semanas, esquecia de ligar pra casa de tanto que jogava bola e videogame com os primos, brincava e batia papo com as primas. Minha avó sempre cheia de mimos comigo, porque me via menos que aos outros. Sempre foi muito carinhosa, e eu, fechado, tinha... tenho nela uma das poucas pessoas com quem sou carinhoso também.

Memórias que me são muito caras. Mas são memórias.

Com o passar do tempo, a gente começa a ter vida além da família, já sai sozinho, já tem gostos próprios e já arruma compromissos nos dias das festas de família. Cada um “vai pra um lado”. Acho que poucos – ou nenhum – dos primos conservou a mesma intimidade que tinha na infância. Esses eventos começam a ser até meio constrangedores.

Mas nesse aniversário da minha avó – ontem, como eu falei no início – eu me senti grato por essa família e por essas memórias, como não me lembrava de sentir há um tempo. Não que desprezasse isso, às vezes a gente só não pensa. Hoje, eu pensei. E agradeci, como a minha avó, que depois dos parabéns, foi chorando pro quarto, onde eu a surpreendi de mãos pro alto na janela, dizendo “obrigado”.

E no final da noite, com a casa esvaziando, eu pensei no meu avô. Ele nunca foi muito carinhoso, mas era bem receptivo também, gostava de servir comida e dava dinheiro pra gente comprar açaí ou ir na lan house. Era bem sério, também, e de uma dureza militar. Boa parte das minhas memórias dele são broncas do tipo “embaixo tem vizinho”.

Meu avô já não lembra bem os nomes e rostos dos netos. Os filhos, não esqueceu, mas tem dificuldade de listar se você perguntar – até eu, são oito! Esquece os dias da semana, “hoje é sábado, né? Terça!?”. Nem as histórias do tempo de polícia, não conta mais. Não esquece das refeições, nem de (me) acordar bem cedo, hábitos muito arraigados. Mas a gente nota a memória cada dia um pouco pior.

Meu pai é muito parecido com meu avô, e eu com meu pai. E essas coisas são genéticas também. Pode parecer bobo, mas ver o esquecimento do meu avô assim tão de perto – morando com ele – me causa certo pânico de sofrer o mesmo um dia. Em dias como o de hoje, em que eu me lembro de coisas que diariamente esqueço (sem precisar doença nem nada pra isso), eu vejo como essas memórias são importantes. E sinto uma certa pena do meu avô por ele perdê-las.

Se eu vou ter o esquecimento por herança, não sei, mas vou ter muitas memórias. Elas são também o único bem a ser deixado na minha família. Elas estão conservadas na casa cheia de fotos da minha avó, nas conversas nostálgicas das reuniões de família, em cada membro dela. E acho que são a melhor herança dentro de uma família, porque a mantem viva. Estamos vivos quando lembramos e quando somos lembrados. Fazemos sempre um pouco das duas coisas, mas em cada tempo da vida uma prevalece: hoje é meu tempo de lembrar, e do meu avô de ser lembrado.


Gustavo Lima
Estudante de Jornalismo
Oficina de Valores

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