Por: Alessandro


Imagem de diocesedelamego.wordpress.com


Recentemente, recebi a notícia do falecimento de uma ex-aluna. A notícia mexeu comigo e mudou o rumo do meu pensamento por dias. Tanto que agora escrevo este texto. Nunca fui íntimo da aluna. Puxando pela memória, tenho a certeza de que conversamos pouquíssimas vezes. Mas recordo bem seu rosto. Por várias e várias vezes, tive contato com sua letra. Entreguei provas a ela. Sei que foi representante de turma. Sei também que lutou contra grandes desafios. E, nos últimos dias, descobri que queria ser médica porque desejava fazer trabalho voluntário na África. E seu sonho era fazer um parto.


A morte dessa menina de 19 anos fez com que, imediatamente, eu recordasse de outra que ocorreu dois anos atrás. Pela primeira vez, eu perdi um amigo de adolescência. Alguém com quem eu não tinha contato já fazia uns bons anos, mas que marcou minha vida. Que viveu comigo coisas que julgo grandes e importantes. Alguém que eu admirava demais, que desde novo comprometeu-se com os outros e colocou seus dons a serviço. Ele tocava violão. Era pai de um filho ainda bem pequeno. Foi coordenador do grupo de jovens. E sinal de esperança para muitos de nós.


Na noite em que recebi a notícia da morte do Diego, não sabia direito o que pensar. Passei um bom tempo em silêncio e com os olhos cheios de lágrimas. Quase de imediato, lembrei de uma canção que conheci faz muito tempo, Love in the Afternoon, composta pelo Renato Russo, que expressava muito bem o que sentia... Diz o início da música:

“É tão estranho
os bons morrem jovens
assim parece ser
quando me lembro de você
que acabou indo embora
cedo demais”.

Diante das vidas da Júlia e do Diego e de suas partidas abruptas, uma das coisas que mais incomodam é a certeza de que algo muito bom foi ceifado. Tanto uma quanto o outro ainda realizariam muito, e muitas vidas tornaram-se menores por suas partidas. Foram embora cedo demais.

Os bons morrem jovens. E isso fica ainda mais claro quando pensamos que a juventude é medida pela potencialidade que o futuro promete. A questão não está propriamente nos anos já vividos, mas nos anos em que não os teremos. A partida sempre é sentida como perda. Mesmo nos casos em que entendemos um pouco melhor, sentimos que não devia ser assim. Penso que o drama todo está no fato de que a vida de cada pessoa é grande demais para o tempo que dispõe. Dure esse tempo o que durar.

Essa sensação de insuficiência e impotência, que a morte dos que nos são queridos traz, faz com que lembremos e pensemos em coisas que normalmente esquecemos. Nesses momentos, percebemos a grandeza e a precariedade da vida. Sim, a morte nos lembra que a vida é grande. Não a vida em abstrato, mas a vida daquele que se foi. O mundo é menor porque aquele sorriso e aquela voz não estão mais nele. E foi muito maior enquanto aqui eles estiveram.

A vida é grande e é precária. No falecimento dos que nos são caros tocamos o mistério de nossa mortalidade. Parecia que era pra sempre. Deveria ser para sempre. Como alguém tão bom pode ir embora? No sofrimento de sua partida, olhamos ao redor e somos atingidos pela certeza de que os outros que ali estão também partirão. Que nós também partiremos. Que um dia eles e nós não estaremos mais aqui.

A grandeza e a precariedade da vida, que a morte nos joga tão violentamente no rosto, fazem com que repitamos frases que já são tidas como clichês, mas que só o são para quem não está experimentando aquilo que elas dizem: “não podemos esperar para amar amanhã”, “temos que valorizar aqueles que temos hoje”, “perdemos tempo com coisas que importam muito pouco”, “temos que mudar nossas prioridades”.

A morte nos faz confrontar o essencial da vida e nos força a reconhecer que, em boa parte dos dias, escolhemos o supérfluo. O incômodo que ela nos causa não é apenas pela vida que não mais teremos, mas pela que não tivemos e não temos. Não nos choca apenas a relação perdida, mas os laços não cultivados. A morte traz o reconhecimento de que nos perdemos no que consideramos urgente e deixamos de lado o que é importante.

Creio que o esquecimento da mortalidade que o corre-corre do cotidiano nos traz é uma das coisas que mais atrapalham uma experiência mais profunda da vida. Claro que não se trata de buscar a morbidez de quem vive com o medo morrer, mas de lembrar que tudo passa. E esse caráter passageiro de todas as coisas torna cada instante único. Cada dia é precioso demais para que seja desperdiçado com ódio, mágoa e orgulho. É justamente o fato de que o tempo não volta atrás que dá urgência de vivermos e amarmos hoje.

Sei que o que digo é um lugar comum, talvez o mais comum de todos os lugares. Quem sabe não é justamente por ser tão comum que é comumente tão esquecido? E é justamente o esquecimento do que é tão simples que faz com que complexifiquemos excessivamente aquilo que é óbvio e deixemos de lado aquilo que é essencial.

Dar adeus nunca será fácil. A morte é a mais absurda das experiências. Um muro que põe um ponto final em uma poesia de grande beleza e que apontava para versos ainda mais belos. É absurda e em certo sentido inaceitável.

E é contra esse absurdo que a fé se insurge. Uma fé que acredita que no duelo entre forte e mais forte, entre morte e vida, a vida é vencedora. Uma fé que não é meramente um consolo irracional, mas uma certeza profunda de que entre a grandeza e a precariedade, maior é a grandeza. Uma fé que não apaga a tristeza da partida, mas que ilumina o caminho lembrando que após a morte há vida. Vida para quem se foi... e cujo sorriso resplandece no dia sem ocaso. E vida para nós que ainda não fomos e que seguimos entre sorrisos e lágrimas, entre encontros e despedidas, até o dia em que todas as lágrimas serão enxugadas e em que vivenciaremos a morte que mais esperamos: a da saudade que não nos dá descanso.


Alessandro Garcia
Doutorando em Sociologia - Oficina de Valores

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